Minha mãe
Mantenho comigo uma fotografia da infância para a qual sempre olho com ternura. Nela tenho um ano apenas. Estou no colo de meu pai, que olha para mim, abrindo um sorriso largo. Eu mesmo tenho um sorriso de Mona Lisa nos lábios e olho para alguma coisa no chão. Porém, a nosso lado, em meio à paisagem campestre em que estamos, destaca-se a figura de minha mãe. Naquele momento ela tem vinte e seis anos e sou o seu único filho. Usa um vestido branco, simples, e está com as mãos posicionadas atrás do corpo, às costas. Possui abundantes cabelos pretos, com uma parte presa no alto da cabeça, como se fazia naquela época. O rosto está ligeiramente inclinado para frente, e ela olha para a câmera meio de lado, acanhada, como quem tem pouca familiaridade em posar para retratos. É um tipo bem brasileiro de morena. Com o desenrolar da vida, eu viria a me parecer muito com ela fisicamente, ao passo que minhas irmãs puxariam mais ao nosso pai.
Minha mãe morreu nos meus braços, aos setenta e oito anos, no dia 17 de janeiro de 2021, numa noite de domingo, quando tentei socorrê-la numa parada cardiorrespiratória. O sofrimento atroz que dilacerou uma pessoa tão boa, uma mãe tão perfeita, nos últimos anos de sua vida, é uma evidência de que Deus, essa ficção em que ela tanto acreditava, é no mínimo um omisso. Mas ponho a revolta de lado ao tratar de minha mãe. À sua lembrança, só há lugar para a saudade, o amor e o humor em meu coração.
Ela nasceu e se criou numa região rural próxima da pequena cidade de Carmo da Mata, no centro-oeste de Minas. Como tantos brasileiros de sua geração — e ainda tantos quantos das gerações mais recentes —, só pôde realizar os quatro anos de estudos primários. Não era de muitas letras, portanto. Mas trazia consigo um acervo riquíssimo de histórias envolvendo lendas, mitos, assombrações, ditos e ditados, parlendas, cantigas e adivinhas. Conhecia bem as enormes transformações ao...
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Minha mãe
Mantenho comigo uma fotografia da infância para a qual sempre olho com ternura. Nela tenho um ano apenas. Estou no colo de meu pai, que olha para mim, abrindo um sorriso largo. Eu mesmo tenho um sorriso de Mona Lisa nos lábios e olho para alguma coisa no chão. Porém, a nosso lado, em meio à paisagem campestre em que estamos, destaca-se a figura de minha mãe. Naquele momento ela tem vinte e seis anos e sou o seu único filho. Usa um vestido branco, simples, e está com as mãos posicionadas atrás do corpo, às costas. Possui abundantes cabelos pretos, com uma parte presa no alto da cabeça, como se fazia naquela época. O rosto está ligeiramente inclinado para frente, e ela olha para a câmera meio de lado, acanhada, como quem tem pouca familiaridade em posar para retratos. É um tipo bem brasileiro de morena. Com o desenrolar da vida, eu viria a me parecer muito com ela fisicamente, ao passo que minhas irmãs puxariam mais ao nosso pai.
Minha mãe morreu nos meus braços, aos setenta e oito anos, no dia 17 de janeiro de 2021, numa noite de domingo, quando tentei socorrê-la numa parada cardiorrespiratória. O sofrimento atroz que dilacerou uma pessoa tão boa, uma mãe tão perfeita, nos últimos anos de sua vida, é uma evidência de que Deus, essa ficção em que ela tanto acreditava, é no mínimo um omisso. Mas ponho a revolta de lado ao tratar de minha mãe. À sua lembrança, só há lugar para a saudade, o amor e o humor em meu coração.
Ela nasceu e se criou numa região rural próxima da pequena cidade de Carmo da Mata, no centro-oeste de Minas. Como tantos brasileiros de sua geração — e ainda tantos quantos das gerações mais recentes —, só pôde realizar os quatro anos de estudos primários. Não era de muitas letras, portanto. Mas trazia consigo um acervo riquíssimo de histórias envolvendo lendas, mitos, assombrações, ditos e ditados, parlendas, cantigas e adivinhas. Conhecia bem as enormes transformações ao longo do tempo em que o Brasil se transformou de um país amplamente rural em amplamente urbano, não intelectualmente, mas por tê-las vivido em profundidade. Cultíssima em cultura popular, em minhas recordações mais remotas estou sentado em seu colo, no quintal de nossa casa, pequena e simples, tomando sol pela manhã, e minha mãe me conta histórias de seus encontros na roça com o Saci-Pererê, a Pisadeira, a Mãe do Ouro, o Lobisomem ou fantasmas diversos, provocando em mim fortes impressões e perguntas diversas. Fiel a um catolicismo à antiga, ela era dada à prática de novenas, jejuns, promessas e procissões. Personalidade franciscana, era desapegada das riquezas materiais, protetora dos animais, amiga de dar esmolas e pratos de comida aos necessitados. Possuía oratório em casa, diante do qual muitas vezes prostrava-se diante da Virgem Maria para rezar terços e fazer pedidos de proteção a todos que amava. No dia 6 de janeiro, era comum que abrisse a casa para que entrassem grupos de folia de Reis, com suas violas, acordeons, pandeiros, bumbos e uma fascinante figura grotesca de palhaço, oferecendo-lhes pão e café. Minhas lembranças dessas folias são tão vivas que me vêm aos ouvidos os acordes de viola, as batidas e os prolongamentos de palavras nas interpretações que os foliões faziam de “Cálix bento”. Sempre que eu saía em viagem, pedia-lhe que fizesse orações por mim, e até hoje carrego na carteira uma oração de São Jorge que ela copiou à mão e me entregou para que eu andasse protegido dos males do mundo. Faço isso como uma amorosa homenagem a ela. Além do mais, convenhamos: um ateu que carrega na carteira uma oração de São Jorge já deve estar automaticamente salvo.
Eu gostava de provocá-la jocosamente. De vez em quando dizia-lhe que eu parei no tempo, ao passo que ela era uma pessoa evoluída, uma mulher moderna, que acompanhou as transformações dos costumes. Ao que ela contestava: “Eu não, você está muito enganado!”. Uma vez disse-lhe que uma mulher havia levado o meu nome na macumba, para fazer uma amarração amorosa. Ao que minha mãe redobrou suas orações e promessas em meu favor. Em outra ocasião, brincando com essas palavras novas da contemporaneidade, contei-lhe haver descoberto que meu sobrinho e seu neto adolescente era um sapiossexual. E lhe perguntei: “A senhora não acha um absurdo?”. Ao que ela retrucou, dando-me a melhor reprimenda de minha vida: “Não acho, não! Se ele tem essas preferências, precisa ser respeitado e amado da mesma forma; e você não tem nada a ver com isso!”. Por fim, houve uma namorada estrangeira que uma vez veio da Europa para conhecê-la e, querendo causar boa impressão, perguntou-me como se fala nice to meet you em português, ao que eu lhe disse que era “seu filho é muito gostoso”. Após treinar bem como pronunciar a frase, ao encontrar minha mãe, a moça abraçou-a, deu-lhe dois beijos no rosto, olhou-a bem nos olhos e falou triunfalmente: “Seu filho é muito gostoso!”. Ao que minha mãe olhou para mim sem conseguir abafar o riso, virou-se para ela e respondeu: “Meu filho é muito sem-vergonha!”. O que eu tive de traduzir por “Ela também está muito feliz em conhecê-la”. Quando soube da peça que eu lhe havia pregado, a namorada também acabou por levar a coisa na brincadeira, prometendo revanche quando eu fosse conhecer os seus pais.
Reatualizando o mito da época de ouro, minha mãe achava que tudo no passado foi melhor que hoje. Teria havido um tempo — o da sua juventude — em que tudo era mais barato, havia mais fartura, o trabalho dignificava, as relações humanas eram mais autênticas e respeitosas. Até que o mundo foi mergulhando no caos e tudo mudou para pior. Diante de descalabros e bizarrices, ela sempre dizia uma frase digna de Guimarães Rosa: “Neste mundo não há o que não haja”. Para sempre isso haverá de ressoar em mim toda vez que eu me encontrar em face do esdrúxulo.
Outra coisa que sempre ressoa em mim é seu suspiro quando ouvia Elvis Presley, outra pérola de sua juventude, especialmente em canções como “You are always on my mind” ou “I can’t help falling in love with you”: “Ah, isso me dá uma saudade!” ou “Vai ser bonito, trem!”. Ainda hoje, quando ouço o cantor americano, essas exclamações me vêm à lembrança e quase as repito eu mesmo.
Protetora, minha mãe sabia de tudo o que se passava na minha vida e na de minhas irmãs, em nossa adolescência, dando-nos a liberdade para abrir nossos próprios caminhos na vida, mas se mantendo lúcida em relação a nossas ações fora de casa. Em minhas gripes, resfriados, contusões futebolísticas e outros perrengues, ela estava sempre a meu lado com suas canjas, mertiolates, chás de boldo, alho, gengibre e injeções que ela mesma aplicava. No meio da noite, acordava-me para tomar remédios no horário exato. E por alguns anos me serviu todos os dias, depois do jantar, uma colher da Emulsão Scott, óleo de fígado de bacalhau de gosto repugnante que me provocava caretas, mas, segundo ela, era bom para a saúde.
Diante de minhas revoltas, sofrimentos e inseguranças, minha mãe era pródiga em conselhos para manter a calma, pois tudo passa. No fundo ela sempre teve dó de mim, mesmo quando tudo estava bem, pois conhecia a fragilidade da condição humana. Quando saí de sua casa, aos vinte e três anos, para ir estudar em São Paulo, ela me acompanhou até a rodoviária, fazendo questão de carregar ao menos uma mochila. Ao se despedir, chorou, me disse para tomar cuidado e fazer o melhor para conseguir o que eu desejava na vida. Ao longo dos anos, sempre que eu ia à sua casa, seja de São Paulo, seja de lugares distantes por onde tenho morado, a cena se repetia. Ela me acompanhava até o portão, dava-me um abraço e chorava o seu adeus diante do taxista que punha minha bagagem no porta-malas do carro. E ali mesmo eu já começava a sentir saudade de sua presença e de nossas conversas sobre as maravilhas e os desarranjos do mundo.
Na última etapa de sua vida, em decorrência do mal de Alzheimer, ela perdeu a lucidez, as lembranças, as histórias dos tempos antigos e até mesmo a linguagem. Neste momento, vem-me à memória um estágio de seu progressivo apagamento em que eu saía, pela manhã, passeando de braços dados com ela pelas ruas do bairro, tal qual uma Antígona a conduzir Édipo em Colono.
Recentemente li, no ensaio “A vida não é útil”, de Ailton Krenak, esta passagem: “Os pais renunciaram a um direito, que deveria ser inalienável, de transmitir o que aprenderam, a memórias deles, para que a próxima geração possa existir no mundo com alguma herança, com algum sentimento de ancestralidade”. Isso me fez pensar em duas coisas: que faço parte de uma das últimas gerações a receberem essa herança de ancestralidade e, por fim, que este mundo está mesmo “de pernas para o ar”, como diria minha mãe, e ainda mais caótico, ainda mais tosco sem ela. Somente a graça, a dignidade e a generosidade, como as experimentei em sua convivência, poderão reorganizá-lo e reumanizá-lo.
Agosto, 2023
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