Entrevista de Thereza Maria Machado Quintella
Entrevistado por Maurício Rodrigues Pinto
Rio de Janeiro, 29 de agosto de 2025.
Projeto ADB - Memórias da Diplomacia Brasileira
Entrevista ADB HV013
Realização Museu da Pessoa
Transcrita por Dulce Santana
Revista e editada por Maurício Rodrigues Pinto, Luiz Egypto e Thereza Maria Machado Quintella
00:00:36
P1 — Embaixadora, bom dia.
R — Bom dia, prazer.
00:00:39
P1 — Prazer é nosso. Primeiro agradecer em nome do Museu da Pessoa e da ADB [Associação dos Diplomatas Brasileiros] pela generosidade em nos receber aqui na sua residência. Para começarmos a entrevista, eu vou pedir que você se apresente, falando o seu nome completo, a data e o local do seu nascimento.
R — Meu nome é Thereza Maria Machado Quintella, eu nasci no Rio de Janeiro, em 27 de maio de 1938. Sou carioca, mas me considero mineira também.
00:01:15
P1 — Embaixadora, a senhora pode contar um pouco da história, da origem da sua família?
R — De sangue, eu sou mineira por todos os costados, porque meus avós, meu pai e minha mãe eram mineiros, nasceram e moravam em Minas Gerais. Eu nasci no Rio de Janeiro por acaso, porque minha mãe veio visitar a mãe dela, que estava no Rio, e eu nasci. Mas depois meus pais se separaram, minha mãe veio definitivamente para o Rio de Janeiro, e eu cresci aqui, eduquei-me aqui. Sou carioca, mas mantenho os laços com Minas, onde a minha família paterna é. numerosa.Tentei localizar para mostrar-lhes, mas infelizmente não encontrei, um retrato que tiraram na fazenda, num aniversário, creio que bodas de ouro dos meus avós, alguma coisa assim. É impressionante a quantidade de familiares do lado paterno que aparecem nessa foto. Do lado materno, conheci poucos parentes, já todos falecidos, menos um meio irmão da minha mãe. Meus avós paternos tiveram onze filhos, cinco mulheres e seis homens. Meu pai era dos mais velhos. Os homens morreram todos, os maridos das cinco irmãs e os irmãos delas, todos morreram. Mas eu tenho ainda uma tia viva, que está com 95 anos. Só uma de minhas tias, justamente a mais nova, que fumava, morreu relativamente jovem, de câncer. As outras morreram de velhice, já quase centenárias. Tanto que quando eu falo em morte, meu filho corta o assunto dizendo: “Mamãe, lembre-se de que você é uma Machado, você não vai morrer antes dos 90 e muitos anos.” Nós, os descendentes de meus avós paternos, nos reunimos de vez em quando, sempre em Minas Gerais. Fizemos um almoço no ano passado, e antes, logo antes da Covid, em 2019, tinha havido um outro. Um almoço da família reúne 80 pessoas pelo menos, é muita gente. Eu e minha descendência somos um dos ramos menores da família :Incluídos cônjuges, somamos apenas nove pessoas.
00:04:33
P1 — E você falou, uma família que é de Minas, as famílias...
R — De Minas Gerais, sim, da região daquele estado mais próxima do Rio de Janeiro, conhecida como Zona da Mata. Juiz de Fora é a maior cidade dessa região.A fazenda principal do meu avô paterno, que minha irmã e eu herdamos de nosso pai e depois vendemos a um primo, fica à beira da estrada estadual que liga Juiz de Fora a Leopoldina, ou seja, a Rio-Belo Horizonte à Rio-Bahia. Passa por Bicas, Maripá de Minas e Argirita, todas essas cidades mineiras. É essa a região em que eu me movo, em Minas. A partir dela, a família foi...
00:05:37
P1 — Se espalhando. Pelo Brasil e mundo. Quais os nomes dos seus pais?
R — Clélia Gomes Mendes, depois Clélia Mendes Machado, e Moacyr Machado.
00:05:53
P1 — E você sabe a história de como eles se conheceram?
R — Não, mas eles moravam na mesma cidade. Moravam em Bicas, cidade pequena, que hoje tem aproximadamente dez mil habitantes. Foi mais ou menos importante, porque a estrada de ferro passava por lá, mas isso já acabou há muito tempo. Eu, garota, ia de carro de boi da estação de trem até a fazenda do meu pai. Eram uns 30 quilômetros andando de carro de boi.
00:06:32
P1 — E quais as atividades que eles exerciam?
R — Minha mãe, ela era funcionária pública, era estatística do Estado do Rio de Janeiro. E meu pai foi sempre fazendeiro.
00:06:45
P1 — Então, tinha uma ligação ainda muito forte com Bicas, com Minas Gerais.
R — Sim, porque eu passava minhas férias por lá. Eu tenho gratas lembranças da fazenda.
00:06:58
P1 — E como era essa fazenda? Que lembranças você tem desse lugar?
R — Era uma felicidade só, era o paraíso. Porque vinham os primos e brincávamos, tomávamos banho nos tanques de lavagem do café, andávamos a cavalo… Meu pai tinha voltado a casar-se, e minha madrasta era uma pessoa muito boa, que me mimou muito, e mais tarde também a meus filhos. Eu tive a felicidade de ter tido mãe e madrasta, pai e padrasto. Então, eu recebi carinho em dobro, porque minha madrasta era ótima e meu padrasto também.
00:07:22
P1 — E aqui no Rio de Janeiro, você nasceu, viveu, passou...
R — A vida inteira não profissional. Entre 1964, quando parti para meu primeiro posto, e 2008, quando me aposentei, vivi entre Brasília e o exterior, mas as férias, quando passadas no Brasil, eram no Rio de Janeiro. Onde morei mais tempo no Rio de Janeiro foi na esquina da Avenida Atlântica com a rua Miguel Lemos, no bairro de Copacabana.
00:07:36
P1 — E como era essa parte? Se não me engano, entre Copacabana e Ipanema? R — Era Copacabana, basicamente Copacabana. Eu era da turma da Miguel Lemos. Naquela época, havia a turma da Miguel Lemos. Era uma garotada que se organizava, eles fechavam a rua, faziam o carnaval na rua. Você falava na turma da Miguel Lemos, todo mundo sabia o que era. Era uma garotada festeira, uma garotada do bem. Um deles foi o primeiro marido da [modelo e Miss Brasil] Martha Rocha. Era o Ronaldo Xavier de Lima, cujo pai era presidente do Instituto de Resseguros do Brasil.
00:08:28
P1 — Quando você fala da turma da Miguel Lemos, era já adolescência?
R — Adolescência.
00:08:35
P1 — E na infância, qual é a lembrança que você tem?
R — Férias em Quitandinha, férias em São Lourenço, viagens a Minas Gerais.
00:08:51
P1 — Qual escola você estudou?
R — Estudei sempre na mesma escola. Eu entrei lá com três anos de idade e saí aos 19. Porque eu fiz o curso normal na escola e, enquanto ainda cursava o normal, comecei a dar aula de francês para as pequenininhas do jardim da infância.
00:09:08
P1 — Qual era a escola?
R — Era o colégio Sacré-Coeur de Marie, que fica na rua Tonelero, em Copacabana. É um colégio de freiras de origem francesa, a congregação é francesa. E eu estudei lá sempre, desde o jardim da infância até me formar normalista. E aí fui para a Faculdade de Letras da Universidade Santa Úrsula, em Botafogo, e enquanto eu estudava nessa universidade segui ensinando no Sacré Coeur de Marie, já agora no Curso de Admissão, correspondente à atual quinta série. Dava aula para meninas pré-adolescentes quase do meu tamanho. Poucos anos de idade nos separavam, e eu conseguia manter a disciplina, porque era bastante severa.
00:09:45
P1 — Seguia para depois o clássico, científico.
R — A terminologia era diferente naquela época.
00:10:05
P1 — Antes de você falar um pouco sobre como você era enquanto professora, teve algum professor ou professora que tenha sido marcante na sua formação?
R — Havia uma freira no colégio que me marcou muito, chamava-se Mère Saint Tomás. A família dela era daq do Rio mesmo, de Copacabana, vivia na Rua Sá Ferreira. E ela era uma pessoa muito esclarecida, foi assim até morrer. Um dia, quando eu estava em Moscou, recebi uma carta dela, me pedindo se eu conseguiria para ela uma cópia de um quadro do pintor Rembrandt, A volta do filho pródigo, que pertence à coleção do museu Hermitage, de São Petersburgo. Ela tinha lido um livro que trazia esse quadro como ilustração da misericórdia divina. Eu comprei um pôster e mandei para ela, que morreu pouco tempo depois. Entendi que fora em preparação da própria morte que me pedira aquela reprodução. Essa freira teve uma influência muito grande em minha formação, porque eu contava tudo da minha vida para ela. Eu nunca mais fiz análise, porque já havia feito com ela quando estudante.
00:11:11
P1 — Mais ou menos com que idade?
Nos três anos do Curso Normal, do qual ela era a Diretora.
00:11:33
P.1 - E como foi esse momento que você vai fazer faculdade, decide uma carreira, no caso, a carreira de letras.
R - Eu queria ser professora de Latim. Latim era minha disciplina favorita no Curso de Letras. Se eu tivesse seguido por esse caminho, teria ficado desempregada logo, porque foi abolido o ensino de Latim,nas escolas. Foi uma colega de turma, com quem costumava estudar, quem me apontou o caminho da diplomacia. Ela tinha namorado um diplomata, e já tinha tentado, mais de uma vez, ser diplomata, mas não conseguira passar no concurso. Já tinha desistido quando recebeu propaganda da criação do Curso Alfa, destinado à preparação para o concurso de ingresso no Instituto Rio Branco, o primeiro curso no Brasil a existir com essa finalidade. Seus fundadores, e futuros professores, eram jovens diplomatas recém egressos do Instituto Rio Branco. Até então, a ajuda disponível era a contratação de caros professores particulares especializados, o que estava fora do alcance financeiro da maioria dos candidatos.
Minha colega animou-se com a notícia do cursinho e chamou-me para preparar-me com ela. Matriculei-me no Curso Alfa sem nem saber direito o que fazia um diplomata. Fui na onda, fiz o curso…e passei no concurso.
00:12:54
P1 — Esse cursinho ficava onde?
R — Ficava no Largo da Carioca. As aulas eram das sete às dez da noite, no Largo da Carioca.
00:13:00
P1 — E você lembra quais eram os conteúdos ensinados?
R — Eram as matérias do vestibular do Rio Branco.. Era um curso de preparação para fazer o concurso do Instituto Rio Branco. Você estudava Francês, Inglês, Redação de Português, História do Brasil, História Mundial, Geografia, Noções de Economia, Noções de Direito, enfim,todas as disciplinas do concurso. E o concurso naquela época tinha mais provas do que tem hoje, porque nós tínhamos duas provas de Inglês e também de Francês, a escrita e a oral. O meu francês era muito bom, porque o colégio era francês. O meu inglês era fraco, eu tinha medo de ser reprovada em inglês. Quando começou o concurso e obtive , juntamente com um colega do cursinho, a nota mais alta em Português, disciplina mais temida por todos e considerada a principal barreira, meu medo do Inglês aumentou e decidi tomar aulas particulares com o excelente professor Mulholland, com quem estudara no cursinho, já então encerrado. Perguntei-lhe se eu tinha chance de passar. Respondeu-me:”Vai depender muito dos outros; se o nível dos outros for muito bom, você, que é média, corre maiores riscos”. Mas o grupo não devia ser muito bom, porque o fato é que passei, e segui passando até o final. De repente, me dei conta de que estava dentro.
00:14:36
P1 — E você foi conhecer sobre diplomacia...
R — Do que eu não sabia nada. Eu não tinha amigos diplomatas.. Meu pai não tinha amigos diplomatas, pelo menos que eu conhecesse. Ele, que era baiano, trabalhava na área de comércio exterior, como representante de grupos econômicos da Bahia. Na verdade,., estou me referindo aqui a meu padrasto, a quem chamava de pai, porque foi quem me criou. Meu verdadeiro pai sempre foi fazendeiro.. Uma colega de colégio era neta do Ministro das Relações Exteriores, o jurista José Carlos de Macedo Soares. Ela me disse: “Você passou! Vou contar para o meu avô.” Dias depois veio contar-me que nós duas havíamos sido incluídas na lista de convidados ao almoço de despedida de um embaixador europeu que encerrava sua missão no Brasil. Fomos a esse almoço, e foi ele minha introdução ao Itamaraty e ao mundo diplomático. Você já esteve no Palácio do Itamaraty aqui no Rio?
00:15:35
P1 — Não, ainda não.
R — Você devia ir, porque vale a visita, é muito bonito, e também para entender onde me encontrava .O Itamaraty fica na Rua Marechal Floriano, no Centro do Rio de Janeiro, ao lado do antigo Ministério da Guerra. É um palacete do século XIX, cor-de-rosa, e atrás dele há um lago, um jardim e prédios à volta. O prédio do fundo, que é posterior, dos anos 1930, foi construído em estilo neoclássico, com colunas gregas; é nele que ficam a biblioteca e o salão de leitura da biblioteca. Esse salão era usado também como sala de banquetes. Então, imagine um salão muito bonito e uma mesa de sessenta lugares, eu sentada em uma ponta, minha amiga na outra. Eu não conhecia ninguém mais ali. E foi onde eu comi caviar pela primeira vez. Porque naquela época o Itamaraty servia caviar em almoços. Hoje em dia está longe disso, mas naquela ocasião eu comi caviar e não gostei. Depois me apaixonei por caviar, quando fui para a Rússia.
00:16:41
P1 — E nesse momento também você teve contato ou conversou com outros diplomatas?
R — Tive, porque eu sentei na ponta da mesa e os diplomatas jovens do Cerimonial, também sentaram na ponta. Eu mal pude comer, porque quando chegava a minha vez de ser servida, já estavam começando a retirar os pratos a partir do centro da mesa, onde estavam sentadas as personalidades mais importantes, que, tendo sido as primeiras a serem servidas, já haviam terminado de comer. Então,quando eu começava a comer, o garçom vinha e tirava meu prato. Mas foi uma experiência engraçada, uma verdadeira pantomima,esse meu primeiro contato com o Itamaraty. Até então, eu não tinha ideia do que era. Realmente entrei bastante ignorante, não sabia o que esperar. Mas nunca me arrependi da minha escolha profissional irrefletida.
00:17:19
P1 — Em termos de política externa ou do que era o Brasil naquele momento, final da década de 1950, entrando na década de 1960, qual era o entendimento que você tinha naquela fase da sua vida?
R — Não tenho ideia. Eu não era muito politizada. Porque, inclusive, como eu estudei numa faculdade de freiras, a minha faculdade era feminina, toda ela. Tanto que eu digo que eu só fui aprender o que é discriminação por sexo quando entrei no Itamaraty. Porque no colégio não tinha disputa de menino com menina, todo mundo era menina. E na universidade também. Eu tive uma educação muito católica e muito centrada no universo feminino. E não era muito politizada nessa época estudantil.
00:18:22
P1 — E só para entender bem, quando você faz o cursinho e ingressa no Rio Branco, você está conciliando o cursinho, fazendo aulas à noite, trabalhando como professora e também fazendo a faculdade de Letras?
R — Eu cursava a Faculdade de Letras de manhã. Depois, ia para o Sacré Coeur de Marie dar aulas e, à noite, ia para o cursinho. Mas quando começou o concurso, parei de dar aulas.
00:19:00
P1 — E como foi o ingresso no Rio Branco? Você lembra mais ou menos quantas pessoas entraram?
R —- Eram vinte vagas, passamos quatorze.Houve candidatos que passaram todas as provas, mas não lograram alcançar a nota média exigida Na minha turma, eu poderia ter sido colega do [ator] Tarcísio Meira. Foi o Rubens Ricupero quem me contou que o Tarcísio veio com ele de São Paulo, eram colegas de Direito.
00:19:22
P1 — Verdade, ele mencionou isso.
R — Foi o Ricupero que me contou essa história. Naquela época, eu nem notei aquele rapaz bonito na turma fazendo o concurso, porque eram trezentas e tantas pessoas. Não são as milhares que fazem a prova hoje. Passamos catorze, mas um paulista não veio matricular-se no Rio Branco, porque ele tinha ficado noivo de uma moça cujo pai era empresário e a família da moça paulista não gostava de serviço público, não tinha a mesma mentalidade que o Rio de Janeiro. Porque como o governo federal estava no Rio de Janeiro, aqui era uma coisa normal você pensar em carreira pública; mas em São Paulo não, era uma coisa mal vista até. Lá, o pessoal quer crescer, quer enriquecer, então, no caso desse rapaz, a família da noiva fez pressão e ele não cursou. Passou no concurso e não veio. Ficamos treze. Um foi reprovado em Francês no primeiro ano e formou-se na turma seguinte. Fomos apenas doze pessoas, os formandos de 1960..
00:20:28
P1 — Desse grupo de doze, quantas mulheres?
R — Éramos duas. Essa moça teve uma carreira completamente diferente da minha, porque o Itamaraty discriminava muito os casais de diplomatas. Por muito tempo discriminou a mulher, a mulher não podia entrar. Depois, discriminou os casais de diplomatas.
00:20:45
P1 — Até poucos anos antes era proibido.
R — Se você me pedir essa história, eu conto, porque a conheço bem. Mas aviso que é longa.
00:20:52
P1 — Se você quiser contar essa história...
R - O Itamaraty nunca achou, na verdade, que mulher fosse capaz o suficiente para ser diplomata. É curioso, por isso mesmo, que tenha sido ele o primeiro órgão público federal a admitir uma mulher em seu quadro de funcionários. A pioneira foi a baiana Maria José de Castro Rebello Mendes, que ingressou no Itamaraty depois de aprovada, em primeiro lugar, em um concurso de provas realizado em 1918. Quando sua mãe enviuvou, essa moça decidiu que tinha de trabalhar, e pretendeu ingressar no Itamaraty, que abrira concurso público para selecionar funcionários para seus serviços instalados no Rio de Janeiro. Àquela época, o Itamaraty tinha três corpos distintos de funcionários: Oficiais da Secretaria de Estado, Corpo Consular e Corpo Diplomático. O concurso de que ela queria participar era destinado a preencher vagas no primeiro deles. Inicialmente, teve sua inscrição negada, por ser mulher. Ela tinha acesso ao político e jurista Rui Barbosa [1849-1923], que fora amigo de seu pai. E ele argumentou em seu favor que os termos empregados na legislação aplicável incluíam as mulheres, porque eram comuns aos dois gêneros. E que não havia disposição legal que vedasse expressamente o serviço público às mulheres. Nilo Peçanha, então Ministro das Relações Exteriores, à luz desse parecer, determinou sua inscrição e ela pode concorrer. Eu tomei conhecimento do pioneirismo de Maria José de Castro Rebello Mendes por acaso, ao ler um livro do [historiador Luiz da Câmara Cascudo [1898-1986] sobre a formação da sociedade brasileira. Anexa ao livro, há uma carta da famosa ativista feminina brasileira Bertha Lutz [1894-1976], na qual ela esclarece que não foi a primeira funcionária pública do Brasil e sim a segunda, porque ingressara no Museu Nacional em 1919, e no ano anterior Maria José de Castro Rebello Mendes já havia ingressado no Itamaraty. Foi depois que li essa carta que comecei a pesquisar a história da presença feminina no Itamaraty.
Graças ao parecer de Rui Barbosa, a porta do Itamaraty permaneceu aberta às mulheres até 1938. Até 1931, todas as admitidas ingressaram como oficiais da Secretaria de Estado. Ou seja, permaneciam no Rio de Janeiro, não podiam ser cônsules nem diplomatas. Por outro lado, esses permaneciam no exterior se deslocando de um posto para outro, e perdiam contato com o Brasil. Uma reforma realizada em 1931 pôs fim a essa situação. Foi extinta a carreira de oficial da Secretaria de Estado, e todos os que a integravam foram transferidos para os outros dois corpos, cujos funcionários passaram a alternar períodos de trabalho no exterior com trabalho na Secretaria de Estado. Em óbvia discriminação, todas as mulheres foram transferidas para o corpo consular, enquanto os homens passaram para um ou para o outio. E o Itamaraty pôde seguir sem diplomatas do sexo feminino. A situação voltou a mudar em 1938, com a reforma Oswaldo Aranha, que fundiu os dois corpos remanescentes em um novo, a Carreira de Diplomata. Só então - e por não haver outro jeito - as mulheres ingressadas a partir de 1918 que continuavam trabalhando no Itamaraty puderam finalmente ser diplomatas. Mas como seguiam sendo indesejadas no exercício da profissão, a porta de acesso foi fechada, por um novo dispositivo legal que especificou que à carreira recém criada poderiam ter acesso brasileiros natos do sexo masculino. Note bem: só os do sexo masculino.
Essa norma discriminatória foi repetida na legislação de 1946 que tornou o Instituto Rio Branco, que fora criado no ano anterior, a entidade responsável pela seleção e formação dos futuros diplomatas brasileiros.
A proibição das mulheres terem acesso à profissão de diplomata permaneceu na legislação até 1954. Antes disso, porém, uma moça mato-grossense, Maria Sandra Cordeiro de Mello, já forçara a porta de acesso. Pela via judicial, lograra primeiro inscrever-se no concurso de 1952 e, uma vez nele aprovada, matricular-se no Rio Branco.
As duas pioneiras, Maria José de Castro Rebello Mendes e Maria Sandra Cordeiro de Mello não avançaram muito em suas carreiras, porque casaram com colegas. O Itamaraty sempre teve uma relação complicada com o casamento entre diplomatas. Ora era permitido, mas com restrições quanto ao exercício da profissão por ambos os cônjuges no exterior, ora proibido. A última norma discriminatória só veio a desaparecer em 1996, quando finalmente passou a ser observado o princípio jurídico de que a trabalho igual corresponde salário igual. Até então, no exterior, só um dos membros de um casal de diplomatas tinha direito a receber a rubrica “verba de representação”.
00:26:38
P1 — Acho que o reflexo é um pouco também, a porcentagem ainda de mulheres dentro da carreira.
R — Há poucas mulheres vindo para a carreira porque elas são discriminadas. sabem que serão discriminadas. De mulher, você cobra máxima competência e se uma mulher comete um erro, aquilo é generalizado e alardeado para todo lado: “Está vendo? Por isso que não pode ter mulheres, porque são todas incompetentes.” Isso quando uma mulher faz uma besteira qualquer. Agora, homens fazem besteira todos os dias e todo mundo bota para debaixo do tapete. Ninguém cobra competência de homem. É um clube fechado.
Eu não tinha ideia que fosse assim. Comecei a aprender quando , uma vez concluído o curso de formação no Instituto Rio Branco, chegou a hora de começar a trabalhar na Secretaria de Estado. Na nossa turma nós formamos doze. Dos doze, nós duas fomos para o setor consular. Nós não fomos nem para o econômico, nem para o político, fomos mandadas para o consular. Eu fui para a Divisão de Passaportes e a minha colega para a Divisão Consular. Eram duas unidades do mesmo departamento, o Departamento Consular. Uma grande amiga minha, ex-colega de turma no Sacré Coeur de Marie, era sobrinha do todo poderoso chefe do Departamento de Administração do Itamaraty, o Embaixador Antonio Francisco Azeredo da Silveira. Quando ela contou para ele que eu estava infeliz por ter sido mandada para a Divisão de Passaportes, o comentário dele foi que o serviço consular era ótimo para as mulheres, e que eu ainda seria muito feliz lá. Ótimo como, se era uma condenação ao ostracismo? Porque era um desvio, era uma discriminação muito sutil. Então, você tem o seguinte cenário: a mulher você tira de cena, bota para escanteio, isto é, manda para o consular, para a administração, para o cultural, setores considerados fora do mainstream. Neles, o trabalho é necessário e importante, e pode ser volumoso, mas não dá visibilidade. E sem visibilidade, você permanece ignorada, desconhecida, o que torna mais difícil obter o que permite avançar na carreira: promoção, remoção para postos importantes…
00:29:00
P1 — Porque aquela cobrança também se torna proporcionalmente maior.
R — Foi só depois de haver passado dez anos no exterior como chefe de missão diplomática e, na volta à Secretaria de Estado, constatar que a situação das diplomatas não melhorara, que eu decidi levantar a voz para apontar a situação de inferioridade das diplomatas. Eu me pergunto se teria ousado fazer isso se já não fosse embaixadora. Naquele momento, o que senti foi que tinha de agir, de procurar ajudar, como as feministas que conheci em Nairobi, em 1985, haviam feito comigo, que fui promovida em dezembro de 1987, quando dirigia o Instituto Rio Branco. . Fui a décima terceira ou décima quarta mulher selecionada pelo Instituto Rio Branco para ingressar no Itamaraty [Maria Sandra Cordeiro de Mello foi aprovada no concurso de 1952, eu no de 1958], mas a primeira dentre elas a alcançar o cargo de Ministro de Primeira Classe, o mais alto da Carreira. Todos os que chegam a esse cargo passam a ser chamados de embaixador. Antes de mim, o Brasil já tivera três Ministras de Primeira Classe, advindas do grupo de cerca de vinte mulheres que haviam ingressado no Itamaraty entre 1918 e 1938. A terceira delas fora promovida em 1972 e se aposentara poucos anos depois. Isso significa que havia muito anos que não se via uma mulher na mais alta posição hierárquica da Carreira de Diplomata. Com o crescimento do movimento feminista, os diferentes órgãos governamentais, entre eles o Itamaraty, passaram a sofrer pressão para nomearem mais mulheres. Essa conjuntura me foi favorável. No Itamaraty, eu já era a diplomata mais avançada na carreira, tendo sido sempre promovida por mérito e nunca por antiguidade, e as dirigentes feministas tinham tido oportunidade de conhecer o meu trabalho. Mas minha promoção não significou uma mudança da atitude do Itamaraty em relação à presença das mulheres entre os diplomatas brasileiros. Tanto é assim que só seis anos depois ocorreu a promoção a embaixadora de uma outra diplomata . Durante esse tempo eu fui o token exibido para dar testemunho de que o Itamaraty não discriminava. Talvez me acusem, inclusive diplomatas do meu sexo, de excesso de suscetibilidade, mas do que sempre me ressenti foi de não receber tratamento igual. Em algumas ocasiões, era discriminatório,em outras, condescendente…
P1 — É perceber que esse tratamento é diferenciado não só nas barreiras, mas...
R - Na condescendência. Sentia-me como uma criancinha a quem se passasse a mão na cabeça, dizendo: “Ah, que bonitinha, ela fala...”
00:34:32
P1 — Thereza, você falou que ingressou nessa Divisão de Passaportes, mas depois você vai ascendendo a postos e vai também ocupando postos que são ali da diplomacia política e econômica.
R — Mas isso tardou, porque sofri discriminação, também, quando achei chegado o momento de pleitear meu primeiro posto no exterior. Procurei a Administração e pedi um posto próximo do Brasil, preferentemente Montevidéu ou Buenos Aires. Meu objetivo era tornar menos onerosas para meu marido, que não poderia acompanhar-nos por razões profissionais, as frequentes viagens internacionais que teria de fazer para estar comigo e nossos dois filhos pequenos. Mas aquelas duas capitais me foram de imediato negadas, sob a alegação preconceituosa de que já havia uma diplomata em cada uma delas. Não foi levado em consideração o fato de haver nelas um total de cinco postos: em Buenos Aires, Embaixada e Consulado-Geral; em Montevidéu, além de Embaixada e Consulado-Geral, a Representação Permanente junto à Associação de Livre Comércio [ALALC]. Ofereceram-me o Consulado em Bahia Blanca, na Argentina, e o Consulado em Valparaíso, no Chile, enquanto meus colegas de turma tinham sido enviados a postos na Europa. Escolhi Bahia Blanca, um posto de tão pouca importância que já estava vago há dois anos sem que um homem aceitasse chefiá-lo. Depois de dois anos como Cônsul em Bahia Blanca, voltei ao Brasil .Um dos últimos expedientes que enviei à Secretaria de Estado foi um relatório em que recomendava o fechamento do posto, o que efetivamente ocorreu algum tempo depois.
00:36:13
P1 — E, se você puder, contando aí os outros postos que você vai assumindo.
R — De Bahia Blanca, regressei à Secretaria de Estado, que ainda não mudara para Brasília. Eu estava, então, em estado avançado de gravidez, e entrei em licença de gestante. Quando voltei ao trabalho, a Administração me colocou como sub-chefe da Divisão da Ásia. E isso foi fundamental para a minha profissionalização, porque logo depois os dois diplomatas acima de mim, o chefe da Divisão e o Subsecretário Geral para Assuntos da Europa Oriental e Ásia, foram transferidos para o exterior. O primeiro substituto a assumir foi o novo Subsecretário, que veio de Genebra precedido pela fama de ser um dos chefes mais exigentes do Ministério. Desdobrei-me para não desapontá-lo . Levava trabalho para casa, para não deixar expediente sem ser processado. No despacho diário com ele, ou levava os assuntos resolvidos, ou pedia instruções sobre como encaminhá-los. Eu não escondia papel, mesmo porque ele se daria conta, já que recebia, e lia, cópia de tudo o que entrava na Divisão. E tinha o maior cuidado com a correção do que informava, porque ele já me dissera que não estava interessado nos meus pensamentos, no que eu achava ou pensava, e sim no que eu sabia. Durante seis meses chefiei interinamente a Divisão da Ásia, sob sua orientação, enquanto ele aguardava o regresso de posto no exterior do diplomata que havia convidado para assumir a chefia, pessoa de sua confiança, com quem havia trabalhado no passado. Diplomatas mais graduados do que eu, mas que não gozavam no Ministério de alto conceito profissional, se candidataram a assumir aquela chefia aparentemente vaga e foram rejeitados. Deve ter sido um deles quem provocou uma nota machista publicada em uma coluna social de jornal do Rio de Janeiro: “Coisas do Itamaraty: o chefe da Divisão da Asia é uma mulher cuja única experiência é um pequeno posto na Argentina.” Valeu a pena o tempo de espera, porque o novo chefe, quando chegou, mostrou ser um diplomata sério, dedicado e altamente capaz. Trabalhar com esses dois chefes que eu admirava, e ser respeitada e valorizada por eles, aumentou muito minha autoconfiança.
Os assuntos mais importantes de que tratei naquele período foram: a criação da Comissão Mista Brasil-Japão; a coordenação no Rio de Janeiro da posição brasileira para a primeira reunião dessa Comissão; a realização em Tóquio dessa primeira reunião; e a preparação de visita oficial do Ministro das Relações Exteriores, o banqueiro e político mineiro José de Magalhães Pinto, à Índia , ao Paquistão e ao Japão, por ocasião de viagem à Ásia para a abertura da II Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento [UNCTAD] inaugurada em Nova Delhi no final de janeiro de 1968. Eu integrei a delegação que acompanhou o Ministro de Estado à Ásia.
. No ano seguinte, procurei novamente a Administração para pedir o posto, e me ofereceram o Consulado em Gênova. Aceitar um segundo consulado poderia enterrar minhas aspirações a uma bela carreira. Estaria me condenando a ir de consulado em consulado, conforme o modelo tradicional feminino no Itamaraty. É grande a diferença entre o trabalho consular e o trabalho diplomático. O embaixador representa o Brasil junto a outro governo, promove e defende interesses nacionais. Já o cônsul cuida dos interesses dos brasileiros no exterior e dá visto a estrangeiros para ingressarem no Brasil.
00:41:00
P1 — É um pouco também uma função de cuidado.
R — Exatamente. Você cuida de pessoas. Não é uma função política, nem econômica. Então, a mulher pode ser cônsul,: porque é cuidadora. E existe esse viés até hoje. Se pesquisar por sexo as atuais chefias dos postos no exterior, poderá constatar que as Embaixadoras, muito raras na chefia de grandes embaixadas, são maioria entre os cônsules-gerais.
00:41:40
P1 — Você estava falando, neste momento em que você recebeu um convite, uma das possibilidades era ir para Gênova.
R — Voltei desapontada da Administração, e comentei o oferecimento de Gênova com o meu chefe. Ele levou o assunto ao Subsecretário, que me chamou e disse: “A senhora não é funcionária para consulado. Faça uma lista de dez postos que a senhora considere desejáveis. Agora, que sejam postos sabidamente de trabalho. Vou levar essa lista ao Ministro de Estado, que conhece o seu trabalho.” E foi assim que eu fui para Bruxelas, para servir na Missão do Brasil junto à Comunidade Econômica Européia, embrião da atual União Européia.
00:42:07
P1 — E como foi o trabalho em Bruxelas?
R — Foi difícil, porque o meu chefe era um embaixador à antiga. Ele achava que mulher é um ser frágil, que ela tem de ser protegida, mulher não tem que fazer certas coisas. Como você vai botar uma mulher num jantar de homens? A tendência era ele pensar em me deixar do lado de fora em coisas desse tipo, na preocupação de me poupar, Mas o trabalho foi interessante, porque consegui fazer boas relações de amizade com funcionários tanto do Conselho como da Comissão da Comunidade Econômica Europeia, e pude mostrar-me útil a meu chefe, tanto no levantamento de informações como nas negociações de que participei. Acho que fiz um bom trabalho, porque quando chegou a hora de mudar de posto, consegui ficar perto do Brasil e fui para o Uruguai. Fui transferida para a Delegação Permanente do Brasil junto à Associação Latinoamericana de Livre Comércio [ALALC], uma organização regional sediada em Montevidéu.
00:43:14
P1 — E aí já com o direcionamento para a diplomacia econômica.
R — Assim entendeu o Chefe do Posto, que até me deixou preocupada. Na primeira reunião do órgão dirigente da ALALC a que eu o acompanhei, ele me apresentou assim: “Esta é a moça que o Itamaraty mandou para me ensinar integração. Esta moça veio de Bruxelas para me ensinar integração.” Mas eu já tinha aprendido: a reagir a situações como aquela e depois, na Missão,eu lhe disse que não gostara dele haver acentuado o meu sexo, porque isso tinha conotação discriminatória. Melhor teria sido referir-se a mim como “a diplomata”.
00:44:02
P1 — E como que foi esse trabalho na ALALC?
R — Consistia, basicamente, na negociação de tarifas alfandegárias. Um colega, uma vez, até brincou comigo: “Thereza, não consigo ler seus telegramas. O que era 3% passou a 1%. O 2% passou para 4%...” É claro que ele exagerava, mas era mesmo praticamente só discussão de tarifa alfandegária. Mas foi a minha primeira experiência com o trabalho multilateral. Porque até então tinha trabalhado só no bilateral.
00:44:38
P1 — Sim, aí já algo multilateral.
R — Sim, foi a minha primeira experiência na diplomacia multilateral. Aliás, a segunda, se considerado que eu já havia participado de um seminário promovido pela ONU, em setembro de 1970, em Moscou, cujo tema fora Participação das Mulheres na Vida Econômica de Seus Países. Foi responsável pela minha escolha para representar o Brasil nesse seminário um diplomata que já fora meu superior, que por acaso se encontrava no gabinete do Secretário-Geral quando o responsável pelos assuntos da ONU levou para despacho o convite ao Brasil para participar do encontro, com a recomendação de recusar, por falta de quem enviar. Meu ex-chefe intrometeu-se no despacho do colega e argumentou| que havia sim alguém - eu, a Segunda Secretária Thereza Quintella - , com a vantagem de que representaria menor ônus financeiro para o Itamaraty, porque já me encontrava na Europa. Efetivamente, nessa época, eu estava na Bélgica. Foi bom lembrar esse caso porque ele ilustra o desinteresse do Itamaraty pelo tema da promoção dos direitos das mulheres, que desde 1946 já vinha sendo tratado, na ONU, por uma unidade dedicada exclusivamente a ele, a Comissão sobre a Condição das Mulheres [CSW]. E ilustra também o baixo conceito em que eram tidas as diplomatas no Ministério.
00:44:02
P1 — Ou seja, era uma pauta em nível de Estado e aí por reflexo no Itamaraty...
R — A condição das mulheres se tornara tema das Nações Unidas, onde, no âmbito do Conselho Econômico e Social (ECOSOC), fora criada uma Comissão dedicada exclusivamente a ele. Sua evolução acompanhou a importância crescente dos direitos humanos, aos quais está estreitamente vinculado. Nas últimas décadas do século passado, houve quatro conferências mundiais da ONU sobre mulheres. Eu presidi a delegação brasileira à terceira (Nairobi, 1985) e fui uma das duas vice-presidentes da delegação à quarta (Pequim, 1950), presidida por dona Ruth Cardoso. A comparação entre essas duas delegações oficiais, separadas por uma década, produz um bom retrato dos efeitos do processo de redemocratização e do crescimento do movimento de mulheres no Brasil. Em Nairobi , éramos apenas seis pessoas na delegação oficial: eu (chefe), o Embaixador do Brasil em Nairobi (assessor especial), a atriz, proprietária e diretora de teatro e, também, deputada estadual paulista Ruth Escobar (vice-chefe), a Senadora Eunice Michiles,do Amazonas (observadora parlamentar) e duas diplomatas. Do foro paralelo de representantes de organizações não governamentais participaram cerca de oitenta feministas brasileiras, entre elas a socióloga Eva Blay, presidente da Comissão Paulista de Mulheres, a única criada no Brasil até aquele momento. Falava-se na criação de uma Comissão Nacional de Mulheres, e na provável escolha pelo Presidente José Sarney de Ruth Escobar para presidi-la, o que de fato ocorreria pouco depois do encerramento da Conferência de Nairobi. Em Pequim, a lista da delegação oficial foi extensa, continha mais de oitenta nomes.O fenômeno de expansão exponencial do interesse em promover os direitos das mulheres pôde ser observado também no plano mundial. .A Conferência das Mulheres de Pequim teve cinquenta mil participantes. A de Nairóbi, tinha tido, catorze mil. Pequim foi a maior Conferência Mundial da ONU de toda a década. Maior que a Conferência de Direitos Humanos em Viena; a Conferência de População no Cairo; a Conferência de Desenvolvimento Social em Copenhague e a Conferência de Meio Ambiente, aqui no Rio de Janeiro,em 1992.
00:48:05
P1 — E houve, então, além de um crescimento da pauta do enfrentamento da desigualdade de gênero, também houve um crescimento do seu protagonismo nessas comissões.
R — Depois de Nairobi, passei a representar o Brasil nas duas Comissões sobre a Condição das Mulheres de que o Brasil participa:a da ONU , que se reunia em Viena, e a da OEA, em Washington. Eu aprendi muito com elas, aprendi muito com as mulheres, as feministas , brasileiras e estrangeiras, com as quais trabalhei em reuniões internacionais. Eu já tinha lido [a filósofa e feminista] Simone Beauvoir, tinha lido [a escritora e ativista feminista] Germaine Greer, tinha lido [a jornalista e ativista feminista] Betty Friedan, mas o contato com aquelas mulheres combativas aumentou muito meu conhecimento sobre o tema da desigualdade e minha sensibilidade para a discriminação Até hoje, se você falar com muitas diplomatas mulheres, elas vão dizer: “Não, não tem discriminação, nunca sofri discriminação.” Mas se você pesquisar a história profissional delas, você verá quanta preterição elas sofreram.
00:48:55
P1 — E tem a experiência, já na década de 1980, como cônsul-geral em Londres e também uma representação em um organismo multilateral.
R — Não, em Londres justamente, não sofri discriminação alguma. Quando eu estava em Londres, passou por lá, em 1985, o banqueiro Olavo Setúbal, que era o ministro das Relações Exteriores. E durante um coquetel na Embaixada em sua homenagem, fui informada de que estavam pensando em mim em Brasília para chefiar a delegação brasileira à Terceira Conferência da ONU sobre a Condição das Mulheres, a realizar-se dentro de poucas semanas em Nairobi, no Quênia. Uma vez nomeada, embarquei diretamente para Nairóbi, onde encontrei a Ruth Escobar, a Eva Blay, e muitas outras líderes feministas brasileiras daquela época, que participavam de um foro de representantes de organizações não-governamentais que começara antes da conferência. A presença delas era, ao mesmo tempo, fonte de idéias e elemento de pressão, pois faziam grande agitação. E o embaixador em Nairobi, João Augusto de Médicis, mais conhecido como Zoza Médicis, adotou uma política de confraternização interessante, e muito útil para mim: franqueou as portas da embaixada às integrantes da delegação oficial e às feministas brasileiras. De noite, nos reuníamos socialmente na embaixada e ficávamos conversando e bebericando o uísque do embaixador. Eu trabalhava o dia inteiro no local da conferência, vinha para a residência oficial, onde estava hospedada, e conversava com as brasileiras; só depois ia para o meu quarto, onde ainda tinha de me preparar para as negociações do dia seguinte. Foi um período de muito trabalho e pouco sono, mas eu não podia perder a oportunidade de conversar com elas, já que haviam recebido muito mal minha designação para chefiar a delegação oficial, por ser uma total desconhecida nos meios feministas. Aos poucos, fui conseguindo conquistar a simpatia e a confiança das mulheres. Mas só depois que elas entenderam que eu estava ali para cumprir meu papel de diplomata, ou seja, de negociadora, e que eu não era concorrente delas, não ambicionava nenhum dos cargos públicos que surgiam para tratar da condição das mulheres.
Depois de Nairobi, as feministas brasileiras aumentaram a cobrança ao Itamaraty da ausência de mulheres entre os embaixadores. Posso até imaginar o diálogo: “São todas incompetentes?” [costumava ser essa a desculpa esfarrapada] “Não, incompetente a Thereza Quintella não é, porque trabalhamos com ela e pudemos ver que é competente.” Então, não houve jeito, o Itamaraty estava contra a parede e eu fui promovida. Acabaria por ceder, como outros órgãos públicos estavam fazendo, mas teria atrasado o quanto pudesse. Eu sou grata a Ruth Escobar e às outras mulheres, porque atribuo a elas o momento da promoção. Foi providencial também, para a minha promoção ocorrer naquele momento, que o Ministro de Estado fosse um político, o ex-governador de São Paulo Roberto de Abreu Sodré, certamente mais sensível à pressão da opinião pública que um diplomata, com os seus preconceitos sexistas. Ter sido eu a promovida, isso foi decisão do Itamaraty.
Ruth Escobar fez questão, aliás, de alardear sua contribuição, e ofereceu-me uma grande recepção em sua casa no Morumbi. Justamente por não querer ser exibida por ela como um troféu, demorei a indicar-lhe uma data de minha conveniência para essa recepção. Ia sempre protelando. Até que um dia ela entrou na minha sala e me comunicou quando seria o jantar: numa data que acabara de acordar com o ministro Abreu Sodré.
00:53:28
P1 — Então, tornou-se até um evento oficial, porque foi combinado diretamente com o ministro...
R — Não, não se tornou um evento oficial, seguiu sendo um evento social, mas que cresceu em importância ao entrar na agenda do Ministro de Estado. Porque, claro, a Ruth [Escobar], de personalidade muito forte e uma mulher de luta, tinha acesso a todo mundo. Portuguesa de nascimento como Carmem Miranda, a quem gostava de equiparar-se, gozava os brasileiros pelo fato de haver logrado alcançar, no Brasil, tudo a que podia pretender sendo estrangeira, inclusive ser nomeada presidente de um órgão do Governo federal. Efetivamente, o Presidente José Sarney, a quem se comprazia em chamar simplesmente de “Zé” nas conversas comigo, a nomeou Presidente do Conselho Nacional dos Direitos das Mulheres tão logo este foi criado, em agosto de 1985, ou seja, poucos dias depois do encerramento da Conferência de Nairobi.
00:54:07
P1 — Em 1987, você assumiu a direção.
R — Nairóbi foi em 1985. Eu assumi a direção do Rio Branco em fevereiro de 1987. Portanto, já era diretora do Rio Branco quando fui promovida a embaixadora em dezembro de 1987.
00:54:37
P1 — E como foi essa experiência como diretora do Rio Branco?
R — A princípio, eu não queria aceitar, porque a função que eu pleiteava era a chefia de um departamento político ou econômico, que me parecia o melhor caminho para conseguir a promoção a embaixadora, para a qual já cumprira todas as exigências..Quando recebi em Londres o telefonema do Secretário-Geral do Itamaraty, o Embaixador Paulo Tarso Flecha de Lima, em que ele me ofereceu o Instituto Rio Branco, fiquei em dúvida: Rio Branco, educação, essa associação de mulher a educação, saúde…Nós só tínhamos tido até então uma mulher como ministra de Estado, justamente na pasta da Educação. É o modelo tradicional, pensei, da mulher como cuidadora. E recusei. Depois, quando narrei essa conversa a meu colega de turma e amigo Rubens Ricupero, que estava trabalhando na Presidência da República, ele me informou que o Rio Branco atravessava uma fase difícil, com problemas de indisciplina, e me recomendou que reconsiderasse. Sem esperança de conseguir uma chefia de departamento, e informada dos problemas que encontraria no Rio Branco, decidi aceitar a função que me fora oferecida.
00:56:03
P1 — Então, era uma conjuntura em que o Instituto Rio Branco era de fato um problema importante.
R — Era um problema para resolver. Era um desafio.E eu aceitei o Rio Branco. Talvez já fosse o Secretário-Geral pensando em me dar uma chance de ganhar visibilidade. Mas não era uma coisa que eu quisesse, porque, inclusive, naquela época – hoje em dia acho que é diferente – quem estivesse dirigindo o Rio Branco não sentava na comissão de promoções, nem em outros colegiados. Eu fui a primeira mulher a dirigir o Rio Branco. Nos últimos anos, a partir do final de 2018, a tendência parece ter sofrido uma inversão: só mulheres têm sido nomeadas. Desde então, quatro já se sucederam.
Depois de alguns anos na direção do Instituto Rio Branco, onde recebi dos alunos a alcunha de “Mrs. Thatcher” [referência a Margaret Thatcher, então Primeira Ministra do Reino Unido porque viera de Londres e com fama de disciplinadora], achei chegada a hora de pleitear remoção para posto no exterior. Eu estava feliz no Rio Branco, trabalhar na área de educação fora meu ideal profissional na juventude, mas havia alcançado o topo da carreira de diplomata, e do que essa podia me propiciar, só faltava a chefia de missão diplomática. Felizmente tinha acesso direto ao Ministro das Relações Exteriores, o jurista e ex-Ministro do Supremo Tribunal Federal Francisco Rezek, que fora por muitos anos professor de Direito Internacional no Rio Branco e era meu amigo. Fui a ele e manifestei o desejo de ir para a Embaixada em Viena, que soubera que ia vagar. Ele concordou. Dois diferentes ocupantes de funções de alta hierarquia no Ministério ainda tentaram desviar minha ida de Viena para outros destinos na Europa (Suiça e República Tcheca), porque tinham seus próprios candidatos a Viena, mas o Ministro Rezek, depois de consultar-me sobre meu eventual interesse nesses postos, manteve sua decisão de enviar--me para Viena. Expliquei-lhe que o que mais me atraía nesse posto era o elevado volume de trabalho, porque, sendo mulher, não podia me permitir um posto tranquilo, onde as relações com o Brasil , consolidadas, exigissem pouca intervenção do embaixador.
00:59:40
P1 — E Genebra não necessariamente teria algum tipo de ligação?
R — Perdão se não fui clara. O posto em questão não era a delegação em Genebra, e sim a Embaixada em Berna.O que se tem para fazer na embaixada em Berna? Pouca coisa. Porque os assuntos multilaterais são tratados pela delegação em Genebra, justamente, e o grande centro financeiro é Zurique, onde há um Consulado-Geral. Agora,que desafio poderia eu encontrar na Embaixada em Berna? Eu não quis aceitar, não. Você está na Europa, o que é muito bom, mas está infeliz no trabalho,onde pouca coisa acontece. Você vai todo dia para o escritório e fica o dia inteiro esperando que chegue um telegrama de Brasília pedindo um voto qualquer em organismo internacional, para ter um pretexto para ir à chancelaria fazer uma gestão. Não tem assunto a tratar. Não tem problema, para o qual negociar solução, não tem praticamente nada a fazer. As coisas estão andando sozinhas. Qual é a problemática política, econômica ou comercial no relacionamento com o Brasil? Não tem.
01:02:57
P1 — E como foi a experiência em Viena?
R — Viena foi fascinante, tanto por se tratar da minha primeira chefia de posto diplomático, como pelo grande volume de trabalho e sua diversidade. Eu acumulava quatro funções, uma bilateral e três multilaterais, porque Viena é uma das sedes mundiais das Nações Unidas. Foram quatro diferentes cerimônias de apresentação de credenciais, porque eu :era, simultaneamente, embaixador em Viena, Representante junto à Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), Representante junto à Organização das Nações Unidas para o Desenvolvimento Industrial (UNIDO) e Representante junto ao Escritório das Nações Unidas em Viena. Eu passava boa parte do meu tempo no edifício às margens do Danúbio,afastado do centro de Viena, onde as agências da ONU estavam situadas, conhecido pela sigla VIC (correspondente a Vienna International Center), em reuniões de trabalho ou contatos com funcionários. As relações com a Áustria eram tranquilas e não exigiam muito de mim. Eu tentei promover o incremento do comércio bilateral, mas isso se revelou muito difícil, porque ele era intermediado por canais alemães. Localizados na Bavária, precisou uma vez o chefe do setor econômico do Ministério das Relações Exteriores, em conversa comigo, para acentuar o paroquialismo do comércio exterior austríaco.
1:03:48
P1 — Mas aí tem a atuação na Agência...
R — A Representação junto à Agência Atômica ocupava cerca de 40% do meu tempo, porque era intensa, por essa época, a campanha dos Estados Unidos contra o Iraque e a Coréia do Norte, que acusava de buscarem produzir armas atômicas. Da qualidade do meu desempenho como representante junto à Agência, considero um testemunho o fato de ter sido escolhida pelo egípcio Mohamed El-Baradei, que passara da posição de chefe da área de segurança atômica à de diretor-geral da Agência, para presidir o Grupo de Trabalho que incumbiu de avaliar os programas da AIEA e apresentar propostas de aperfeiçoamento. Esse convite foi a título pessoal, e não por indicação do Governo brasileiro, e me foi dirigido quando já deixara Viena e assumira a Embaixada em Moscou. Também meu colega belga, junto ao qual costumava sentar-me nas reuniões no prédio da ONU, pelo critério da ordem alfabética do nome dos países, elogiou meu profissionalismo e a ascendência que tinha junto às demais delegações latino-americanas, na visita de cortesia que fez ao Embaixador do Brasil em Atenas, depois de transferido por ser Governo de Viena para a Embaixada na Grécia.
01:04:58
P1 — E teve algum momento de discussão ou de pauta que tenha sido mais acalorada que você tenha participado.
R — Não, de discussão não me lembro. O que houve de mais importante para o Brasil e para mim, durante minha permanência em Viena, foi a conclusão das negociações e a assinatura do Acordo Quadripartite Brasil-Argentina-ABACC-Agência Atômica, sendo ABACC a sigla que corresponde à Agência Brasil-Argentina de Contabilidade e Controle de Materiais Nucleares. Fui eu quem assinou esse acordo pelo Brasil, na presença dos presidentes Fernando Collor de Mello e Carlos Menem. O Presidente Collor terá partido de Viena frustrado: alguém o convencera de que a celebração do acordo e a presença dos presidentes no ato de assinatura eram tão importantes politicamente, no plano mundial, em matéria de não proliferação nuclear que seriam matéria jornalística na emissora de televisão CNN. Então, o presidente passou o dia inteiro diante da televisão, mas o evento na Agência não entrou na pauta da CNN.
01:05:37
P1 — A assinatura do acordo aconteceu em qual local?
R — O acordo foi assinado no salão do prédio da ONU em que se reunia a Junta de Governadores da Agência Atômica.
01:06:30
P1 — E você fica em Viena entre 1992 até...
R — Eu fiquei em Viena de 1991, cheguei em julho, agosto de 1991, e fiquei até maio de 1995, quando peguei um avião em Viena e desembarquei em Moscou.
01:06:50
P1 — Que aí é quando você vai ser embaixadora...
R — Em Moscou. Fiquei em Moscou até 2001.
01:06:55
P1 — E aí, também, considerando que ali era a Federação Russa, era a Rússia, mas estava também em um processo ainda recente...
R — Era recente o processo de desmembramento da União Soviética, que fora concluído em dezembro de 1991. Depois da minha chegada a Viena, o Ministro das Relações Exteriores, o jurista Francisco Rezek, me confiou uma missão especial, associada ao desmembramento da União Soviética: a.de ir aos três países bálticos, que haviam recuperado sua independência, para restabelecer formalmente as relações diplomáticas com eles, e dar parecer sobre como deveria ser a representação do Brasil junto a eles. Atualmente, o Brasil já tem embaixadores residentes em cada um, mas naquele momento no que se pensava em Brasília era em cumulatividade com outros postos próximos ou na abertura de uma nova embaixada para cobertura dos três países, cabendo-me também indicar qual escolher para sede, caso minha proposta fosse nesse sentido. Logo no início da missão levei um susto, porque na viagem de avião com destino a Vilnius , capital da Lituânia, o pouso foi num aeroporto militar, e todos os passageiros fomos levados para uma sala de espera. Demoraram para explicar-nos que nos encontrávamos em Kaunas, a segunda cidade do país, porque teria havido um problema no aeroporto da capital. Tivemos de esperar pelo ônibus que, vindo de Vilnius, distante cerca de 100 quilômetros, nos levaria até lá. Da Lituânia, fui de carro até a Letônia. E, desse país, também de carro, até a Estônia. O Itamaraty havia tratado da minha visita com as representações dos países bálticos em Nova York, assim que fui muito bem recebida. Em cada país, tive encontro com os chefes de estado e de governo, e com os ministros de relações exteriores, com os quais assinei acordos de restabelecimento de relações diplomáticas. E tive oportunidade de algum passeio turístico pela capital. Intérpretes que falavam português ou inglês foram colocados à minha disposição. Desde Viena, por iniciativa própria, tinha marcado encontros também, em cada capital, com diplomatas europeus que nela estavam, para ouvi-los sobre as condições do posto. Ao voltar a Viena, minha proposta ao Itamaraty foi criar três cumulatividades, e entregá-las a embaixadas diferentes: Copenhague, Estocolmo e Helsinki. Narrei o fracasso da iniciativa de alguns países europeus de abrir uma embaixada para cobrir os três países: você agrada ao país escolhido para sediar essa embaixada, mas desperta ressentimento nos outros dois governos. Passadas algumas semanas minha proposta foi posta em prática.
Nessa viagem, conheci pessoas que falavam português, sobretudo na Lituânia. Elas haviam migrado para o Brasil, fugindo do regime soviético, e depois voltado para seus países. No momento da volta, algumas famílias se dividiram: as filhas que haviam casado com brasileiros e os filhos homens, sobretudo os que já estavam inseridos no mercado de trabalho, preferiram permanecer no Brasil. As filhas solteiras, como a senhora que me serviu de intérprete, tiveram de acompanhar seus pais. Minha intérprete falava português muito bem, fora educada em São Paulo. Estive em duas ou três residências em Vilnius, inclusive a dela, mais brasileiras na decoração que as que conheço no Brasil: com penca de balangandãs e berimbau pendurados na parede, e sobre as mesas, como objetos de decoração, bandejinhas de asa de borboleta,.caixas de madeira decoradas com marqueteria, cestaria indígena, pássaros, bolas e outros objetos de pedras brasileiras… Tudo que vemos à venda em aeroportos como souvenirs do Brasil estava exposto nessas casas..
01:12:33
P1 — Isso na Lituânia.
R — Lituânia.
01:12:37 C
P1 — Essa expedição, essa visita, ela aconteceu em que ano?
R — Eu tinha chegado há pouco tempo em Viena. E o Ministro Francisco Rezek deixou o Itamaraty em fins de 1991.Deve ter sido por essa época.
01:12:55
P1 — E isso, de alguma forma, você acha que influenciou para que anos depois assumisse...
R — Não, não. Moscou foi porque eu achava,estando na Áustria, e olhando para a Rússia com um olhar europeu, que o país era importante como posto diplomático.. É impossível esquecer, estando em Viena, que os soviéticos por dez anos ocuparam parte daquela capital no período pós-guerra. Você sente a presença da Rússia em Viena, sobretudo onde eu morava, que havia estado sob ocupação soviética. Bem perto da minha casa havia um grande e imponente monumento, o Memorial ao Soldado Soviético. A Rússia estava todo dia na primeira página do Wall Street Journal e dos grandes jornais europeus, porque estava passando por um processo de transformação muito grande. Então, pareceu-me um posto fascinante. Lembro-me de que, na época, eu costumava comentar que me sentia como se tivesse dezessete anos, e estivesse entrando na universidade. Era todo um muito que se abria para mim, em matéria de polí tica, economia, história, cultura, música e literatura. Eu achei o posto interessantíssimo e fiz o pedido.
P1 — E como foi essa missão para você?
R — R - Foi maravilhosa, fui muito feliz na Rússia, foi o posto onde mais me senti realizada profissionalmente. Quando cheguei, estava algo temerosa, porque muita gente veio dizer-me o mesmo que se dizia dos japoneses: que não tendo o hábito de trabalhar em pé de igualdade com mulheres, os russos preferiam evitá-las. Que teria dificuldade para marcar visitas profissionais, e que, quando recebida, meus interlocutores não me olhariam nos olhos, e sim para o intérprete. Mas não foi assim. Não fui ignorada, fui sempre tratada com muita cordialidade, atenção e respeito.
O1:15:04
P1 — Em termos de realizações, quais você considera que foram marcos da sua atuação?
R — Bom, no campo comercial, cabe apontar a abertura do mercado russo para a carne brasileira. Primeiro para a carne de frango, depois para a carne de porco e por último, finalmente, para a carne de vaca. Isso foi trabalho da Embaixada, em cooperação com o Ministério da Agricultura e o pessoal exportador.
No plano político, saliento a declaração de estabelecimento de uma parceria estratégica Brasil-Rússia, assemelhada à única que a Rússia já havia celebrado até então, que fora com os EUA. Isso mudou o patamar do nosso relacionamento com aquele país. Visando a instrumentalização da parceria estratégica, foram criadas, em 1996 ou 1997, não lembro bem, a Comissão Brasil-Rússia de Alto Nível de Cooperação e a. Comissão Brasil-Rússia de Cooperação Econômica, Comercial, Científica e Tecnológica..A segunda comissão é preparatória das reuniões da primeira, na qual os chefes de delegação são o Vice-Presidente do Brasil e o Primeiro Ministro da Rússia. Eu encontrei um terreno fértil, porque os russos olhavam o tamanho do Brasil e achavam que havia a possibilidade de desenvolver grandes projetos conosco. Olhando em retrospectiva, afirmo com segurança que foi o melhor posto que tive. Eu fiquei seis anos lá. Seis anos é muito tempo para permanecer num mesmo posto. Eu fiquei, porque fui muito feliz lá, profissionalmente. Pude ver meu trabalho crescer e frutificar. Os russos demonstravam grande simpatia pelo Brasil. Nossos ídolos esportivos eram muito admirados lá também. Uma rápida passagem por Moscou de Pelé, o nosso Rei do futebol, causou grandes aglomerações nas imediações da Praça Vermelha, e o Prefeito de Moscou ,que estava em vésperas de eleição, convidou-o a visitá-lo em seu gabinete, para ter a oportunidade de uma foto que no dia seguinte estava na primeira página dos jornais. E já havia cerca de vinte anos que Pelé pendurara as chuteiras! Durante os primeiros aniversários da morte do piloto automobilístico Airton Senna, a grade da porta principal da Embaixada amanhecia toda decorada com flores, em sua homenagem.
01:23:00 C
P1 — Além da embaixada da Rússia, cumulativamente também...
R — Eu tive Belarus, Geórgia, Armênia e Cazaquistão.
01:23:15 C
P1 — E aí precisava estar nesses locais?
R — A todos eu fui para apresentar credenciais e me despedir. Nas festividades pela Data Nacional eu tinha de estar. Com a Armênia, porque há uma grande comunidade brasileira de origem armênia em São Paulo, procurei desenvolver alguns projetos na área cultural. Como exemplo, cito a doação de livros, obras de autores brasileiros, à biblioteca da capital, Erevan.
01:23:54
P1 — Você disse que em termos políticos das relações diplomáticas e políticas entre Brasil e Rússia, foi um período muito importante.
R — Referia-me à parceria estratégica, de grande importância para a promoção do estreitamento dos laços com a Rússia nos campos político, econômico, comercial, científico e tecnológico.
01:24:10
P1 — Pessoalmente, o que representou esse período para você?
R — Primeiro, como já tive oportunidade de dizer, foi um período de grande enriquecimento cultural Depois, aconteceu de eu gostar das pessoas que trabalharam comigo, dos conhecimentos e amizades que fiz, do povo russo, em suma. Eu me senti bem, emocionalmente, em Moscou. É verdade que um russo não costuma abrir-se imediatamente para você. É desconfiado das suas intenções, no que me lembravam os mineiros. Mas a partir do momento em que o gelo se quebra, ele é um amigo para a vida toda. E é um amigo generoso, que dá mais de si mesmo do que cobra de você. Quando eu telefono para uma amiga russa, a reação dela costuma ser de gratidão: “Que bom, ganhei o meu dia, foi o melhor presente que eu podia ter, você se lembrou de mim.” Não há cobranças. Eles são tão gratos pelo fato de você gostar deles! Como eu estudei russo, me esforcei por aprender o idioma para poder me comunicar com eles, demonstrei que estava gostando de Moscou e da missão que recebera de meu Governo, de desenvolver as relações bilaterais, perceberam que eu estava aberta para cooperar com eles e, no fim, deu tudo muito certo.
01:26:00
P1 — Pensando que para além de representar um país, no caso o Brasil, também é se abrir à uma outra cultura.
R — Você tem que ter interesse pelo país onde está servindo. Outro dia, eu estava conversando com um colega, aqui em casa, que também foi embaixador na Rússia e também gostou muito de lá .E lembramos de um colega que serviu em Moscou justamente no intervalo de tempo entre nossas respectivas gestões e que já chegara ao posto predisposto a não gostar dele. Ele era casado com uma americana e a visão que tinha da Rússia era a visão americana. Ele só lera autores americanos sobre a Rússia, e acompanhava os acontecimentos no país pela imprensa dos EUA. Então, tinha uma visão distorcida do país e sua atitude negativa terá sido sentida pelos russos, muito sensíveis a isso.
01:26:40
P1 — E como foi anos depois ir para essa outra cultura, a americana, que é tão distinta da cultura que você conheceu na Rússia?
R — Eu não gostei de Los Angeles como gostei de Viena e Moscou. De formação francesa e depois da experiência de Moscou, tive dificuldade para adaptar-me ao materialismo da cultura americana. Fazendo o balanço, vejo que onde eu fui mais bem sucedida em Los Angeles, onde eu consegui fazer coisas, foi no meio acadêmico. Trabalhei muito para promover a cultura brasileira, em cooperação com universidades situadas em minha área de jurisdição, tanto as estaduais de Los Angeles (UCLA) e San Diego (USD), como algumas particulares, de que cito como exemplos a afamada Universidade da Califórnia Meridional (USC), e o Occidental College.(OXY), onde estudou o ex-presidente Barack Obama. Em cooperação com a UCLA, criei um programa de apresentação regular de filmes brasileiros que, pelo que soube, está lá até hoje. Outra iniciativa de que me orgulho, e que parece que também teve seguimento, é o Dia do Brasil, uma festa popular realizada num dos parques centrais da cidade, para festejar a nossa data nacional. Fiz contatos que permitiram ter o parque emprestado pela prefeitura, o Corpo de Bombeiros para oferecer segurança, escolas de jiu-jitsu e músicos brasileiros para se apresentarem sem remuneração. E assim, pedindo a uns e a outros, chateando uns e outros, eu trabalhei e consegui resultados em Los Angeles.
01:28:25
P1 — Você falou desse trabalho com a academia. Já estamos nos encaminhando perto do final. Eu ia perguntar como é essa relação que alguém na posição de cônsul faz com o universo acadêmico local?
R- Eu, quando Cônsul-Geral em Londres, não tinha atribuições na área cultural, nem tão pouco na área comercial. Ambas eram da competência da Embaixada em Londres. Já em Los Angeles sim, o Consulado-Geral tinha os dois assuntos. De longe, o mais ativo era o Setor Cultural, porque Los Angeles, que é de enorme importância comercial no mundo, está orientada para o comércio com a Ásia. O comércio do Brasil com o oeste dos Estados Unidos se dá, sobretudo, por Houston ou pelos portos da Costa Leste e, dentro do país, por ferrovia.
01:31:25
P1 — Entre essas duas experiências, teve o período que você presidiu a Fundação Alexandre de Gusmão [FUNAG].
R — O período em que presidi a Fundação [do início de 2002 ao final de fevereiro 2005] foi interessante, porque representou um desafio novo. Em certos aspectos, como realização de seminários, palestras e mesas redondas, ,se assemelhava ao trabalho no Rio Branco, mas o público alvo era muito mais vasto: academia, jornalistas… A Fundação Alexandre de Gusmão é uma fundação pública ligada ao Itamaraty. Por ser uma fundação, e não uma unidade administrativa do Ministério, como é o Rio Branco, tem capacidade de gerar recursos próprios, com a venda de livros, por exemplo, ou de receber doações de terceiros.
. A FUNAG tinha mais flexibilidade de atuação. Um dos temas a que dei prioridade, durante minha permanência à frente da FUNAG, foi a condição das mulheres no Brasil, com ênfase nas diplomatas. Eu voltava de um período de dez anos de estada no exterior, e fiquei desagradavelmente surpresa, ao constatar, ao voltar, que as diplomatas continuavam com muita dificuldade para avançar aos cargos hierárquicos mais elevados. Quatorze anos depois da minha promoção, éramos apenas seis, as Ministras de Primeira Classe. As diplomatas, preteridas nas promoções, acumulavam-se nos cargos intermediários Por coincidência, foi por essa época que descobri, por acaso, a história da nossa pioneira, Maria José de Castro Rebello Mendes. Minha primeira ação pública sobre a discriminação das mulheres no Itamaraty nada teve a ver com a FUNAG. Foi um artigo que publiquei, a título pessoal, em O Globo, se não me falha a memória em dezembro de 2002, em que lamentei que o Ministério das Relações Exteriores, que havia aberto o caminho do serviço público às mulheres ao admitir Maria José, se houvesse tornado retrógrado e misógino. E divulguei estatísticas que ilustravam a situação discriminatória que estava denunciando.
01:32:48
P1 — Ao longo da sua carreira, paralelamente com a atuação diplomática, você também publicou livros, publicou trabalhos?
R — Não, eu não publiquei nada importante. Ontem, mexendo em papéis, achei dois folhetos que escrevi, a pedido do setor de imprensa do serviço de informática da Câmara dos Deputados, sobre os avanços da informática na Comunidade Econômica Europeia. Eu editei livros, escrevi apresentação de livros, mas não escrevi livro. Escrevi a introdução de um livro que a FUNAG publicou sobre o relacionamento Brasil-Rússia, baseado num seminário que organizei sobre esse tema. Com muito prazer, escrevi também a apresentação do livro Mulheres diplomatas no Itamaraty (1918-2011): uma análise de trajetórias, vitórias e desafios , a tese defendida no Curso de Altos Estudos [CAE] do Instituto Rio Branco pelo então Conselheiro, hoje Embaixador, Guilherme José Roeder Friaça. A tese do Friaça foi muito alimentada por mim, que passei para ele, quando veio entrevistar-me, todo o material que tinha colhido sobre a história das mulheres no Itamaraty.
O1:33:46
P1 — E como foi levantar esse material, que acabou ajudando, por exemplo, no trabalho do Friaça, mas como foi esse processo de levantamento, de acervo de dados sobre mulheres diplomatas?
R — Olha, eu só tinha pesquisado no acervo do Itamaraty. O Friaça foi muito além, porque no seu caso tratava-se de um trabalho acadêmico, era uma tese de CAE. Ele conseguiu achar documentos que eu procurara, mas não tinha conseguido.achar Por exemplo, quando houve, em 1938, a fusão que criou a carreira de diplomata, e fechou o acesso às mulheres, qual teria sido a justificativa apresentada por Oswaldo Aranha ao presidente Getulio Vargas, ao levar-lhe proposta de fechamento da Carreira de Diplomata às mulheres? Pois Friaça conseguiu descobrir, acho que no CPDOC [Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil, da Fundação Getúlio Vargas], uma carta em que o Oswaldo Aranha falava disso. Ele pesquisou nos arquivos dos jornais, levantou tudo do ano de 1918, quando houve uma grande discussão no Brasil em torno da Maria José de Castro Rebello Mendes, a primeira mulher diplomata, a primeira funcionária pública. Porque houve todo um debate na imprensa se mulher podia ser funcionária pública, ou não podia, se não era melhor a mulher ser dona de casa, que o lugar da mulher era no lar. Ele levantou tudo isso, que é divertidíssimo, todos esses recortes de imprensa. Ele fez um trabalho muito minucioso e relevante. eu comentei com ele o papel pioneiro da Maria José e ele foi pesquisar. O trabalho de pesquisa é dele, o livro dele é muito bom. Ele aprofundou ao máximo a pesquisa sobre cada uma das primeiras mulheres que ingressaram no Itamaraty, eu não. Sabia quais eram, sabia os nomes das mulheres, mas não fui além.
01:35:23
P1 — Após o posto de Los Angeles, você se aposenta do Itamaraty?
R — Sim, aposentei, por limite de idade. Quando eu fui para Los Angeles, o que eu queria era uma embaixada na América do Sul, porque não tem, você praticamente não vê embaixadora brasileira na América do Sul. Houve duas embaixadoras na Colômbia, que foram Maria Elisa Berenguer e Maria Celina de Azevedo Rodrigues, houve uma embaixadora em Quito, Beata Vettori, mas ainda da leva de diplomatas mulheres anterior à criação do Rio Branco; depois houve a Vera Pedrosa, embaixadora em Quito, e a atual embaixadora na Venezuela, Glivânia Maria de Oliveira. Fora disso, você tem muitas embaixadoras na América Central e Caribe. Mas nos grandes países da América Latina, o Brasil nunca teve. Uruguai, Argentina, Chile, Paraguai, México, nunca houve uma mulher em um desses postos. Imagine botar uma mulher num posto desses? Candidatas não faltam, mas não dão. É o clube do Bolinha.
01:36:24
P1 — É um pouco de pensar a dificuldade de uma mulher representando o país.
R — Não, não é não. É puro preconceito. Os argumentos são falaciosos. Alguns são mesmo cômicos. Houve um momento , depois que Maria Sandra Cordeiro de Mello conseguiu, com um mandado de segurança, ser matriculada no Instituto Rio Branco,em que foi criada uma comissão, no Itamaraty, para discutir se abrir ou não abrir o acesso para as mulheres. E a discussão é cômica. Porque havia quem fosse contra e argumentasse assim: “Não, não pode, porque as mulheres, como são financiadas pelos pais, elas não vão trabalhar, elas têm mais tempo para estudar. Então, elas é que vão passar. E o Itamaraty vai se inundar de mulheres.” Havia um preconceito tão grande contra elas! Por quê a mulher não podia? Por quê no Itamaraty o preconceito é tão grande? No mundo, já são numerosos os casos de chefes de Estado e de Governo do sexo feminino, enquanto no Itamaraty ainda há quem pense que mulher deve ser do lar ou cuidadora.
Há um personagem histórico brasileiro de que eu gosto muito, que se chama Tobias Barreto, um jurista , filósofo e poeta sergipano do século XIX. Deixou uma obra volumosa e foi membro da Academia Brasileira de Letras. Uma vez eu vi um artigo em O Globo que tinha como epígrafe uma frase atribuída a ele, que dizia assim: “Quando me julgo, me condeno. Quando me comparo, me rejubilo” Passou a ser o meu lema. Quando eu me julgo, acho sempre que poderia ter feito melhor. Mas quando eu me comparo, eu sei que sou melhor do que a maioria. Entende? Porque é o problema da falta de autoconfiança. A mulher começa a não ser capaz quando começa a duvidar de si mesma. Quando eu vi o resultado do meu trabalho, eu comecei a ganhar autoconfiança.
01:39:25
P1 — Esses pequenos gestos, tanto de um lado como do outro, que vão desconstruindo...
R — Se a mulher não fica muito atenta e não se policiar, ela vai se deixando levar para o modelo tradicional feminino, que já traz interiorizado pela educação recebida em casa. O problema nasce em casa, porque muitas mães, infelizmente, não se modernizaram. Seguem poupando os filhos homens das tarefas domésticas, e orientando as filhas a cuidarem mais de sua aparência física que de sua formação intelectual e profissional.
01:40:00
P1 — Você tem um filho que é diplomata, eu queria perguntar como foi para a sua família acompanhar essa carreira?
R — Olha, é difícil para eles. Para o marido é ainda mais difícil do que para os filhos. Os meus filhos sempre estiveram comigo. Reclamavam muito, porque eles perceberam que dava dividendo, porque eu ficava sensibilizada. Me sentia culpada. Eu tive uma grande amiga que era psicanalista. Um dia, ela me disse: “Você, Thereza, perca esse sentimento de culpa que você tem. Porque você dá aos seus filhos todo o seu tempo livre. Você é melhor mãe do que a maioria das mães. Você está sempre preocupada com eles e fazendo tudo por eles. Seu fim de semana é todo deles. Quando há tantas mães que entregam filhos na mão da empregada, nem ligam. Mulheres que nem sequer trabalham.”
Olhando para o que se passou em nossas vidas, penso que minha carreira não prejudicou meus filhos, mas, pelo contrário, os beneficiou. Tornaram-se cidadãos do mundo, aprenderam diversos idiomas, estudaram em bons colégios e universidades, fizeram e souberam conservar amigos de diferentes nacionalidades e profissões, frequentaram as melhores salas de ópera e de concerto, visitaram inúmeros museus.
Quando meu filho me comunicou seu desejo de inscrever-se no concurso do Instituto Rio Branco, uma justificativa que deu foi o desejo de poder seguir levando a mesma vida que tivera até então.
01:44:29
P1 — E para você foi uma surpresa?
R — Foi surpresa, porque eu achava que ele não queria.. Sempre dissera, até então, que queria ser psicanalista. Inclusive, foi em Psicologia que se formou na London School of Economics.
01:45:15
P1 — E só para ter esse registro, o nome dos seus filhos?
R — Meu filho , Ary Norton de Murat Quintella, é cônsul-geral em Luanda. Minha filha, Teresa Cristina Machado Quintella, mora em Lisboa.
01:45:28
P1 — E ela enveredou para qual área?
R — Ela é diretora sênior na área de marketing da maior empresa de Portugal, a Eletricidades de Portugal [ EDP]
01:46:18
P1 — E nessa fase da sua vida, quais são as suas atividades?
R — Minhas principais atividades fora de casa são encontros com amigos, consultas com profissionais da saúde e sessões de pilates. Socializar é uma coisa importantíssima, uma ajuda emocional indispensável, na velhice. Além disso, a socialização obriga você a se mover, isto é, a levantar da cama ou da poltrona, tomar banho, se vestir e sair. Meus médicos e a professora de pilates são fundamentais para manter-me com boa saúde e com mobilidade.. Me manter viva é importante, com saúde melhor ainda. Graças a Deus, saúde mental eu ainda tenho, é boa minha memória também. A preocupação principal é essa, me manter viva e bem. E para isso, é fundamental a socialização. Ao comércio, vou pouquíssimo, porque o período da epidemia de covid me acostumou a trazê-lo até mim.
Em casa, minhas atividades são receber amigos e cozinhar para eles, mas por interposta pessoa, que segue orientação e receitas minhas. E assistir televisão. Por culpa da televisão viciante, dos inúmeros filmes e séries que oferece, já não sou a leitora fervorosa de anos atrás. Atualmente leio pouco, tenho pilhas e pilhas de livros que comprei com a intenção de ler e ainda nem folheei. E de vez em quando escrevo. Agora, por exemplo, terminei esta semana, vou mandar hoje um artigo sobre mulheres.
01:47:18
1 — Na diplomacia ou não necessariamente?
R —Sobre mulheres na diplomacia brasileira. Quando houve a invasão russa da Ucrânia, eu dei uma entrevista para a revista Veja,e escrevi um artigo para o Le Monde Diplomatique. Mulheres e Rússia são os meus assuntos.
01:48:06
P1 — Nesse momento em que vemos muitos diplomatas, principalmente aposentados, sendo chamados a falar sobre política internacional, relações exteriores...
R — São sempre os mesmos.
01:48:21
P1 — Na sua visão, quais são os principais desafios da diplomacia brasileira na
atualidade?
R — A crise do multilateralismo. O mundo construído após a Segunda Guerra Mundial, com a criação da ONU e de suas agências, embora imperfeito, convinha a uma potência média como o Brasil. Estava baseado no princípio da igualdade jjurídica entre as nações, brilhantemente defendido na Conferência da Haia, no começo do século XX , por Rui Barbosa. Era um mundo organizado, que tinha regras conhecidas. Infelizmente o ordenamento mundial está vindo abaixo, impulsionado por seu principal proponente e financiador, os Estados Unidos. Para onde caminhamos? Como vamos nos reorganizar?
E ressurgem as guerras, na Europa, no Oriente Médio, e com elas, o temor do emprego de armas atômicas.O mundo está difícil, a cada dia que passa fica mais difícil…
01:49:41
P1 — E quais foram os principais aprendizados que você considera que teve ao longo da carreira?
R — A carreira me ensinou muito. Sobretudo, a lidar com as pessoas, saber como conviver, cooperar e negociar com elas . Para isso, tive primeiro de vencer minha timidez e minha insegurança. Depois, a não pré-julgar, e a avaliá-las por critérios objetivos e não emocionais. A buscar a harmonia e evitar o conflito. A estar bem informada, para melhor argumentar. Em uma negociação, por exemplo, eu procurava conhecer todos os antecedentes e, quando se tratava de negociação em foro multilateral, lia também toda a documentação preparatória.
.
01:50:31
P1 — Qual foi o principal, ou os principais desafios com os quais você teve de lidar na
sua carreira?
R — O autoconhecimento. Conhecer a mim mesma, quais eram as minhas habilidades e competências. Quais eram minhas fraquezas, meus limites e potencialidades.
01:51:07
P1 — E, na sua visão, qual a importância de um projeto de memórias sobre a
diplomacia brasileira?
R — Bom, no plano pessoal, para cada um dos entrevistados, a importância é grande.Todos terão prazer em participar do programa. Todo mundo desejaria ser eterno. Com o programa, ninguém vai ser eterno, mas você já se perpetua um pouco. O projeto pode ser útil para pessoas que pensem em entrar para a carreira. Para conhecer a sua natureza e as dificuldades que cada um dos entrevistados teve de enfrentar. É sobremaneira útil aos historiadores. Se você está interessado em pesquisar determinado acontecimento diplomático, você vai poder ir diretamente àquelas pessoas que dele participaram, para saber o que elas pensavam, como é que elas resolveram as situações. É de utilidade, certamente de utilidade.
01:52:00
P1 — E teria algum ponto, algo que você gostaria de contar, que ainda não teve a oportunidade de contar nessa entrevista?
R — Eu só gostaria de frisar que não vejo justificativa para excluir as mulheres da formulação da política externa de um país, já que os efeitos dessa afetarão a vida de toda a população e não apenas dos homens. Tanto mais que as mulheres costumam ter uma visão mais inclusiva da sociedade, e ter uma preocupação maior com questões como direitos das crianças, dos enfermos, dos velhos, com as questões humanitárias, o que as inclina a serem mais pacifistas. Eu tenho muita pena, por isso mesmo, de ver o Itamaraty tão resistente a aceitar limitação dos privilégios masculinos. Porque as mulheres também têm uma contribuição a dar.
01:54:08
P1 — Você acha que isso é algo do Itamaraty ou estrutura do Estado?
R —Infelizmente é o Itamaraty. Que nisso reproduz o patriarcado estrutural da
sociedade brasileira, No meu tempo, os dirigentes do Itamaraty eram homens que tinham do criados por mães que não trabalhavam, que tinham mulheres que não
trabalhavam, que não viam mulheres à sua volta sendo bem sucedidas
profissionalmente. Então, que muitos desses homens pensassem assim,
patriarcalmente, eu até entendo. Agora, que homens que entraram comigo no
Itamaraty, ou depois de mim, sejam retrógrados, e continuem a agir
discriminatoriamente, não consigo entender nem aceitar. É uma coisa instintiva
do ser humano defender o seu privilégio. Você não querer dividir nem riqueza nem
poder. O que constato, com tristeza, é que, no Itamaraty, os diplomatas continuam
guiando-se pelo instinto e não pela razão. Porque sabem que as mulheres são capazes,
sobretudo se lhes for dada oportunidade de mostrá-lo, mas optam por ignorá-lo, porque
isso lhes convém.
Não é somente no Itamaraty que se vê, nos homens brasileiros, essa resistência a
dividir o poder com as mulheres. Veja o caso do Congresso….
01:54:59
P1 — A própria composição do Congresso, quando olhamos, diz bastante.
R — Olha, por que eu dei certo com as mulheres em Nairobi, em 1985? Porque eu dividi poder com elas. Eu não tentei me impor: “Eu sou a chefe da delegação, quem manda aqui sou eu, a delegação é minha.” Eu trabalhei com elas, não pretendi ser superior a elas,que dominavam os assuntos em discussão.bem mais que eu. E deu certo. A delegação trabalhou em harmonia. Eu abri mão de privilégio, porque ao invés de ser a única a discursar pelo Brasil perante o plenário da Conferência, dividi o pódio com Ruth Escobar. Subimos juntas à tribuna. Com a Ruth Escobar do meu lado, expus a posição oficial brasileira sobre o tema da Conferência; em seguida, dei a palavra a ela, que discursou sobre o movimento de mulheres no Brasil.
01:56:47
P1 — Thereza, como foi a experiência de contar a sua história, de relembrar passagens da sua história de vida?
R — Agradável, não foi problemática, não. Toda vez que sou convidada a falar do passado, me lembro de alguma coisa diferente. Não é que eu conte diferentemente a mesma história, mas é que lembro mais coisas. É como uma música, você nunca a interpreta da mesma maneira. Também no teatro, a performance de hoje não é a mesma de ontem, nem será igual a de amanhã.
01:57:45
P1 — Embaixadora, eu queria agradecer muito você ter compartilhado aqui sua história de vida. Dizer muito obrigado por esse momento. Sem dúvida, um relato que vai contribuir muito para esse projeto.
R — Eu só fui uma boa burocrata, Eu não fui uma formuladora da política externa brasileira, nem mudei o seu rumo. Fui uma servidora pública, uma funcionária do Itamaraty. Como entrei muito jovem, tive uma longa carreira, que por pouco meses não alcançou cinquenta anos de duração. Quando recebia uma missão, tratava de cumpri-la bem, qualquer que fosse o posto. Acho que me desempenhei bem. Não tive insucessos, fiz sempre o melhor que podia. Como primeiro posto, fui para um consulado mínimo no interior da Argentina, numa zona onde não havia comunidade brasileira. Como havia na cidade uma grande Universidade, a Universidad del Sur, fiz amigos entre seus professores, e dei início a um programa de cooperação cultural. Era um trabalho de formiguinha o que fazia em Bahia Blanca. Por exemplo:. Ia a escolas primárias projetar dispositivos e falar sobre o Brasil. Minha iniciativa mais audaciosa foi a organização de um baile de Carnaval no principal clube da cidade. Para não envolver o Consulado na venda de ingressos para o baile, associei-me a uma entidade assistencial patrocinada pela mulher do prefeito de Bahia Blanca. Coube a essa entidade vender os ingressos e, reembolsar-me por despesas comprovadamente efetuadas para tornar o baile uma realidade. O restante da renda ficou para ela, como doação. As passagens aéreas para o Brasil sorteadas durante o baile foram doadas pela Panair do Brasil, e um amigo da Universidade, artista plástico, cuidou da decoração do salão, e cobrou apenas pelo material gasto (madeira e tintas, basicamente). Os músicos foram trazidos de Buenos Aires, graças a recursos fornecidos pelo Itamaraty. E o baile foi um sucesso.
01:59:58
P1 — Mesmo em um cenário que se apresentava como não ideal, adverso?
R — Você trata de fazer o que pode. Conheci em Los Angeles um professor da UCLA que era especialista em cinema brasileiro. Juntos, criamos um programa de apresentação mensal de um filme brasileiro na universidade; na ocasião, havia também um breve coquetel, em que eram servidos salgadinhos brasileiros, como empadinhas e coxinhas de galinha. Era financiado, em parte, pela universidade, e em parte pelo Departamento Cultural do Itamaraty, que me remetia os filmes e às vezes ajudava também com a viagem do diretor para apresentá-lo, o que era mais frequentemente financiado pela UCLA, que dava tudo o mais: sala, projetor, operador. E parece que o programa continua até hoje, o que mostra que foi uma boa iniciativa. Se não encontra trabalho à vista, é dever do diplomata criá-lo. Tem que procurar o que fazer. A cidade onde está situado o posto pode ser muito interessante, mas se você ficar ocioso, pode acabar entrando em depressão.
02:02:22
P1 — Agora que me ocorreu, o período em que a senhora esteve em Los Angeles foi de?
R — De 2005 a 2008. O ator Arnold Schwarzenegger, era o governador da Califórnia.
02:03:55
P1 — E o encontro com o Schwarzenegger foi...?
R — Formal,apenas. Não tinha papo possível, nem interesse, nem dele, nem meu..
R — 02:04:07
P1 — Desinteresse recíproco.
R —
Eu consegui fazer alguma coisa em Los Angeles com a ajuda das universidades e, também, porque fui convidada a entrar para uma poderosa .agrupação de mulheres profissionais e de negócios Eram diretoras ou produtoras de cinema, acadêmicas, empresárias, dirigentes de organizações não governamentais, artistas plásticas…Isso me ajudou a abrir muitas portas ,em diferentes áreas de atividade..
Não encontrei, nos americanos, pelo menos nos da Costa Oeste, interesse pelo Brasil ou pelo resto do mundo em geral. Em mim, o que às vezes despertava interesse era o fato de ter sido embaixadora na Rússia. Isso me emprestava alguma importância.
Achei-os muito centrados neles mesmos, na sua cultura. Por isso mesmo, não me surpreendeu ler ,na imprensa, que George W. Bush, até chegar à Presidência, só havia viajado uma vez ao exterior: uma rápida ida ao México, para assistir ao casamento de uma irmã.
02:07:06
P1 — Sim, filho de um ex-presidente.
R — E seu pai, antes de tornar-se presidente, tinha tido um cargo diplomático na China, mas aparentemente ele não foi visitar o pai.
02:10:21
P1 — Embaixadora, queria muito agradecer o seu relato e a senhora ter contado aqui, compartilhado a sua história de vida conosco. Muito obrigado!
R — A profissão de diplomata é maravilhosa. Porque permite aprender muito no convívio com pessoas de diferentes nacionalidades e de todos os níveis sociais, inclusive as mais elevadas autoridades governamentais do próprio país e de outros. Espero que meu depoimento possa contribuir para atrair para a carreira moças e rapazes brasileiros inteligentes e interessados em dar o melhor de seus esforços ao engrandecimento do Brasil.
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