Entrevista de Ana Cabral [Ana Lucy Gentil Cabral Petersen]
Entrevistada por Maurício Rodrigues Pinto
Brasília, 02 de outubro de 2025.
Projeto ADB - Memórias da Diplomacia Brasileira
Entrevista ADB HV026
Realização Museu da Pessoa
Transcrita por Ana Paula Prata
Revista e editada por Maurício Rodrigues Pinto e Mauro Malin
00:00:21
P1 – Para iniciarmos, eu queria que a senhora se apresentasse falando o seu nome completo, a data e o seu local de nascimento.
R – Bom, primeiramente, eu queria agradecer a possibilidade dessa entrevista. Eu me chamo Ana Lucy Gentil Cabral Petersen, nasci no Ceará, em Fortaleza, mas eu fui morar no Rio de Janeiro com cinco anos de idade, onde eu vivi até me mudar para Brasília. Eu vivia entre Fortaleza e Rio de Janeiro. Ao mesmo tempo que eu estudava no Rio de Janeiro, como toda a minha família, nós passávamos as férias no Ceará, onde a minha família é muito grande. Meu pai foi um comerciante no Ceará e, depois, ele foi eleito senador [Fausto Cabral, exerceu o mandato em 1955, 1956-1958 e 1959-1963] pelo Ceará. Com isso, meu pai e minha mãe vieram para a inauguração de Brasília. No ano seguinte, toda a família, ou seja, eu e meus irmãos, nos mudamos para cá, para conhecer a nova capital. Eu estudei aqui o segundo ano e o terceiro ano ginasial naquela época, depois voltei para o Rio de Janeiro. Voltei porque, nesse ínterim, meu pai morreu nas férias, então eu voltei aos estudos no Rio de Janeiro. A minha família estava com um casado no Ceará, outro namorando no Rio de Janeiro e assim vai. Depois de terminar a faculdade no Rio de Janeiro, eu comecei a trabalhar em comunicação, mas fui estimulada a tentar uma coisa que eu sempre quis, que era a diplomacia. Não foi nada fácil me preparar para o curso, como você deve saber, não é nada fácil. É difícil, com muitas maneiras que se aprende de como responder perguntas escritas nas provas, mas depois de passar, claro, é uma sensação fantástica de...
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Entrevistada por Maurício Rodrigues Pinto
Brasília, 02 de outubro de 2025.
Projeto ADB - Memórias da Diplomacia Brasileira
Entrevista ADB HV026
Realização Museu da Pessoa
Transcrita por Ana Paula Prata
Revista e editada por Maurício Rodrigues Pinto e Mauro Malin
00:00:21
P1 – Para iniciarmos, eu queria que a senhora se apresentasse falando o seu nome completo, a data e o seu local de nascimento.
R – Bom, primeiramente, eu queria agradecer a possibilidade dessa entrevista. Eu me chamo Ana Lucy Gentil Cabral Petersen, nasci no Ceará, em Fortaleza, mas eu fui morar no Rio de Janeiro com cinco anos de idade, onde eu vivi até me mudar para Brasília. Eu vivia entre Fortaleza e Rio de Janeiro. Ao mesmo tempo que eu estudava no Rio de Janeiro, como toda a minha família, nós passávamos as férias no Ceará, onde a minha família é muito grande. Meu pai foi um comerciante no Ceará e, depois, ele foi eleito senador [Fausto Cabral, exerceu o mandato em 1955, 1956-1958 e 1959-1963] pelo Ceará. Com isso, meu pai e minha mãe vieram para a inauguração de Brasília. No ano seguinte, toda a família, ou seja, eu e meus irmãos, nos mudamos para cá, para conhecer a nova capital. Eu estudei aqui o segundo ano e o terceiro ano ginasial naquela época, depois voltei para o Rio de Janeiro. Voltei porque, nesse ínterim, meu pai morreu nas férias, então eu voltei aos estudos no Rio de Janeiro. A minha família estava com um casado no Ceará, outro namorando no Rio de Janeiro e assim vai. Depois de terminar a faculdade no Rio de Janeiro, eu comecei a trabalhar em comunicação, mas fui estimulada a tentar uma coisa que eu sempre quis, que era a diplomacia. Não foi nada fácil me preparar para o curso, como você deve saber, não é nada fácil. É difícil, com muitas maneiras que se aprende de como responder perguntas escritas nas provas, mas depois de passar, claro, é uma sensação fantástica de conquista pessoal.
00:02:50
P1 – Se me permitir, eu vou retomar alguns pontos. A senhora falou dos seus pais, mas eu queria que a senhora dissesse o nome do seu pai e da sua mãe.
R – Minha mãe se chamava Lucy de Albuquerque Gentil e quando se casou, Lucy Gentil Cabral, e meu pai, Fausto Augusto Borges Cabral.
00:03:40
P1 – E a senhora sabe a história de como eles se conheceram?
R – Ah, sei. O Ceará, naquela época, Fortaleza era uma cidade pequena, e, na verdade, existia um vínculo familiar meio longe. Naquela época, vocês não eram nascidos, mas as pessoas iam para o 7 de setembro desfilar com seus colégios. Meu pai estava no Colégio Militar e a minha mãe o viu nesse desfile, e foi assim que começou. Meu pai era amigo do irmão dela, meu tio Luciano, e assim se aproximaram.
00:04:22
P1 – E a senhora mencionou que foi na infância, os primeiros anos foram em Fortaleza, e depois já para o Rio de Janeiro. Eu queria perguntar quais as lembranças que a senhora tem dessas duas cidades da época da sua infância, e desses movimentos, desses deslocamentos.
R – Era muito interessante. Como já lhe disse, minha família era bastante grande, então existia todo um ritual no Ceará, mesmo quando nós éramos pequenos, de ir para a casa dos meus avós, brincar com os primos. Não eram poucos. Hoje, a última vez que eu contei, tinha 240 primos no Ceará ainda. A Família Gentil é bastante grande. Então, tinha esse ritual e, assim, a gente conhecia as pessoas. Mas ao longo do tempo, quando você vai crescendo, os amiguinhos vão se separando, vão tendo nova vida, e aí já vira para o Rio de Janeiro. No Rio de Janeiro era uma vida, digamos assim, do dia a dia, não tinha muita família. Eu morava em frente à praia, entrei no colégio de freira, o de sempre. Estudar, estudar, estudar e me divertir um pouco.
00:05:32
P1 – E a senhora disse que tem irmãos. Quais os nomes dos seus irmãos?
R – Nós éramos sete. No momento, somos só duas. Então, se você quiser, eu declino todos os nomes.
00:05:46
P1 – Se a senhora quiser. Em que lugar dessa escada...
R – A penúltima, uma das mais novas. A minha irmã que está viva, que mora aqui em Brasília, se chama Maria Pia Cabral Fernandes, ela é a antepenúltima.
00:06:05
P1 – No Rio de Janeiro, em que lugar a senhora morava?
R – Eu morava em Ipanema e eu estudei no Colégio de São Paulo.
00:06:14
P1 – E que lembranças marcantes que a senhora tem da escola, até de professores e professoras que tenham sido marcantes em sua formação?
R – Os colégios em que estudei eram bastante rígidos. No fundo, voltando os olhos para trás, hoje você vê que essas professoras exigentes é que realmente lhe ensinavam as coisas. Então, como eu sempre fui boa aluna por medo de errar, eu tenho lembranças, sim, positivas, mas não tenho registro muito forte.
00:06:50
P1 – E na sua infância, a senhora chegou a falar um pouco do interesse já na diplomacia, mas tinha algum sonho, aquele sonho infantil de alguma profissão que queria seguir quando adulta?
R – Não. Na verdade, quando eu dei por mim, eu queria ser diplomata aos 14 anos. Naquela época, você tinha aquele exame profissional, profissionalizante, para ver o que você tende a ser, etc. E o que as freiras me disseram, ou quem fez lá no colégio – “Minha filha, isso é uma carreira de homem, não faça, nem tente isso, seja outra coisa”. É uma coisa típica da época. E isso também aguça mais o interesse de ser o que você quer.
00:07:41
P1 – Sim. E o interesse pela área da comunicação, como é que veio?
R – Pela novidade. Naquela época, se você não estudava Letras, você tinha outras poucas opções. Muitas mulheres iam para a comunicação para serem professoras ou alguma coisa assim. E eu achei que a comunicação era muito variada, você podia optar por várias coisas, não só jornalismo mesmo, mas também o marketing e coisas assim.
00:08:18
P1 – E quando, pela primeira vez, a senhora ouviu falar sobre diplomacia ou se interessou por temas ligados à política internacional?
R – Não sei quando exatamente, mas o meu pai, pela profissão dele, e a minha mãe viajaram muitas vezes para o exterior, e isso era um atrativo muito grande para mim. Não pela viagem, mas por ver outras coisas, descobrir novos fatos. Eu diria que isso é um ponto importante. Depois, por volta dos 21 anos, eu tive uma colega de trabalho que estava tentando, junto com o namorado, o ingresso no [Instituto] Rio Branco e foi aí também que eu aprendi alguma coisa sobre isso.
00:09:11
P1 – E cursando a faculdade, ou depois de cursar a faculdade, a senhora começou a trabalhar na área de comunicação?
R – Sim. Na verdade, eu já trabalhava no [jornal O] Globo, quando estava terminando o curso e depois eu fui para uma agência de marketing, era uma mistura de marketing, de atendimento, de coisas assim. E ao começar a pensar em mudar de carreira, eu antes trabalhei em outras agências, ABB, eu já esqueci tudo, isso tem 100 anos atrás, e também no INSS [Instituto Nacional do Seguro Social; na época provavelmente algum dos institutos que antecederam o Inamps, Instituto Nacional de Assistência Médica da Previdência Social, depois INSS], quando eu comecei a estudar realmente para o Rio Branco.
00:09:58
P1 – E como foi esse processo de preparação para a prova do Instituto Rio Branco?
R – Eu achava que, com o meu embasamento inicial, eu iria passar. Eu estudei, claro, mas achava que teria chance de passar na primeira vez que eu fiz. Não passei. Ao não passar, eu conheci várias pessoas que estavam tentando a carreira e que organizavam aulas de matérias específicas com professores que tinham sido professores do Instituto Rio Branco. Isso foi um movimento que me levou a outras coisas – Geografia, História do Brasil, Geografia Mundial, Direito, Português. Você vai estudando pouco a pouco. Eu trabalhava à tarde, ajustava com os horários das aulas, até que fiz novamente no segundo ano o Rio Branco, passei e aqui estou.
00:11:01
P1 – E nesse momento, antes do seu ingresso propriamente no Instituto Rio Branco, e até das aulas, antes de ter uma formação, qual era o entendimento que a senhora tinha do Brasil e daquela conjuntura também do Brasil naquele momento?
R – Naquele momento você vivia o Brasil que ainda não era uma democracia viva. Então, se evitava muito falar de política, sobretudo na faculdade, a não ser que você tivesse crenças muito fortes e meios de sobreviver a alguma coisa. Obviamente, nunca foi meu forte enveredar pela política, embora como diplomata você realmente tenha posições muito fortes em relação aos interesses do Brasil.
00:11:54
P1 – A senhora passa na prova, depois dessa preparação, da segunda tentativa, que lembranças a senhora tem desse período de formação no Instituto Rio Branco?
R – Ao passar, fui membro da primeira turma que veio estudar em Brasília. Em princípio, o Rio Branco era no Rio de Janeiro. Brasília era um pouquinho diferente, estava se moldando à nova vida do Brasil. Naquela época, tinha uma coisa interessante, o [curso do] Rio Branco, que era de dois anos, funcionava em uma ala dentro do Ministério de Relações Exteriores, no último andar. Isso permitia que você visse um pouco o andamento do Ministério e talvez conhecesse pessoas que já estavam trabalhando, aprendesse um pouco mais. Os professores, também, que te atendiam, na maior parte eram diplomatas já mais velhos e experientes. Isso foi de grande ajuda. Nas aulas, as turmas tinham orientadores profissionais, que eram diplomatas.
00:13:14
P1 – E a senhora lembra da sua formatura, do momento da formatura e o primeiro dia já trabalhando no Itamaraty?
R – A tradição do Itamaraty, naquela época, era uma formatura no dia 21 de abril com um grande almoço com o presidente da República e vários ministros e autoridades do país. Eu também vivi isso e foi, obviamente, sensacional. No dia seguinte, você tinha que trabalhar. A essa altura, você já sabia onde ia trabalhar. Existiam certas vagas específicas e a minha turma, civilizadamente, escolheu em conjunto. Nós nos reunimos em uma casa e discutimos quem ia para onde. Quando havia discrepância, com dois ou três querendo ir para determinado lugar, valia quem estava com a média mais alta. Eu fui trabalhar na Europa 2.
00:14:20
P1 – Antes de a senhora falar dessas experiências iniciais no Itamaraty, eu ia perguntar quantas pessoas faziam parte dessa turma de ingressantes e quantas mulheres eram integrantes dessa turma.
R – Minha turma tinha 30 pessoas, mas cinco pessoas eram estrangeiras, estudando com bolsas. Tínhamos africanos, equatorianos, senegaleses. Nós trabalhávamos juntos. Depois que acabou o curso, cada um foi para um canto.
00:15:06
P1 – Até para entender como era a presença feminina no Itamaraty nesse momento.
R – Havia cinco mulheres na minha turma. Hoje em dia, elas são a maioria nas aulas, nas classes.
00:15:19
P1 – E como foi esse início de experiência, trabalhar na divisão de Europa 2?
R – Europa 2 era uma divisão meio diferente, porque ela cuidava não só dos países do Leste Europeu, mas ela também organizava as feiras comerciais para exportar produtos brasileiros ou para se aproximar de mercados que interessavam a gente. Era uma divisão um pouco especial, porque tinha duas ou três funções. Por eu ser formada em Jornalismo, Comunicação, um colega me informou que ele estava saindo da Imprensa. Com isso, eu me candidatei para mudar de setor e, assim, fui para a Imprensa.
00:16:20
P1 – E como foi esse início de trabalho na Divisão de Imprensa?
R – Todo trabalho é novidade. Você não fazia matérias, você acompanhava, sobretudo, as notícias do dia, brasileiras e estrangeiras. Eu era a mais nova da divisão, portanto eu atendia meus colegas e ia vendo como se atuava. Naquela época, mesmo não sendo uma democracia plena, você tinha um briefing diário que trazia muitas informações da política brasileira e dos acontecimentos internacionais, como o Brasil via certas coisas, certos acontecimentos.
00:17:07
P1 – Nessa Divisão de Imprensa, além desse levantamento de materiais, desse briefing sobre como o Brasil era visto, tinha também algum trabalho de divulgação de como o Itamaraty deveria se comunicar diante de determinadas circunstâncias, ou não era necessariamente isso?
R – Não naquele momento. Na verdade, eu sempre achei que a gente poderia divulgar mais o que o Itamaraty faz no exterior, porque você não tem só o dia a dia da diplomacia oficial de contatos. Você tem negociações comerciais, acordos para trazer para cá. Por exemplo, naquela época, muitas estradas e outras coisas, como Angra 2, Angra 1. Tudo isso eu acho que é pouco divulgado no Brasil. E hoje em dia, menos ainda.
00:18:08
P1- Tem esse período inicial, que é dentro do Itamaraty, em Brasília. Em que momento chegaram as possibilidades de remoção para o exterior e postos para assumir no exterior? Quais foram as opções?
R – Você fica alguns anos no Brasil, em princípio você fica três anos ou mais. Se você quer sair logo, você certamente irá para um posto com mais dificuldades, que são os postos, hoje, chamados de “C” ou “D”. São países onde você tem dificuldades de viver ou que são longe e que não têm tanta relação com o Brasil. Mas não quer dizer que sejam ruins, é apenas uma opção. Tem pessoas que querem se formar, passar alguns meses e logo sair. No meu caso, eu fiquei três anos na Imprensa, e nesse período os presidentes brasileiros viajavam muito pela América do Sul. Na Imprensa, você tinha um rodízio de pessoas que acompanhavam jornalistas, então você fazia briefing, acompanhava, via para onde iam e como resolviam problemas. Nessa ocasião, eu pude visitar o Peru, Chile, Argentina e creio que Colômbia também, e isso foi muito bom. Eu também acompanhei o presidente [da República] Fernando Henrique [Cardoso], que fez várias viagens ao exterior. Muitas vezes, ele era agraciado em universidades. Fui nas viagens que ele fez a Portugal, Paris, Japão, China. Então, você vê que o período de Imprensa não foi tão monótono.
00:20:04
P1 – E o primeiro cargo, o primeiro posto no exterior foi na Embaixada de Washington?
R – Sim. Foi uma grande oportunidade com a qual eu contei pelo meu trabalho na Imprensa e com a ajuda do meu chefe, Bernardo Pericás, que me auxiliou nesse pleito. Fui para a Embaixada em Washington, não sei se o senhor conhece, mas em Washington, sobretudo naquela época, você se sentia no centro do mundo, onde tudo acontecia. E lá eu também cuidei da imprensa e política interna americana.
00:20:41
P1- E como foi essa experiência? E novamente trabalhando no setor de imprensa da embaixada?
R – Sim, da embaixada. Ali era mais para comportar tudo que saía sobre o Brasil ou de interesse para o Brasil. E no parlamento americano é justamente a mesma coisa, para ver onde o Brasil queria atuar, se o Brasil precisasse introduzir algum pedido de ajuda através dos parlamentares, mas naquela época não era uma questão de muita atividade.
00:21:23
P1 – Seguindo aqui, teve o período em que a senhora foi atuar na Embaixada de Budapeste. Foi depois dessa experiência em Washington?
R – Foi. Na verdade, os secretários, quando começam a carreira, têm um tabelamento. Você fica por três anos em cada lugar. Eu fiquei três anos em Washington e fui para Budapeste. Em Budapeste, era uma embaixada bem menor, com três ou quatro diplomatas, o que te dá uma visão bem mais ampla de como cuidar ou trabalhar naquela instituição. Eu vivi uma Hungria comunista, então também tem o ângulo do interesse de ver como é isso.
00:22:11
P1 – E sair de um espaço que está no centro do capitalismo, ainda num mundo polarizado...
R – Já era 1987, 1988. Você via a movimentação russa de noite na cidade, com trânsito de soldados. O povo não era tão livre, era tudo muito reservado, difícil, mas os húngaros viviam relativamente bem, porque a economia deles alimentava o Comecon [Conselho de Assistência Econômica Mútua, organização econômica liderada pela então União Soviética e demais países socialistas; funcionou entre 1947 e 1991]. Eles tinham uma liberdade econômica um pouco melhor, então você não tinha dificuldades maiores. Além do mais, era considerado um posto de dificuldade, um posto “C”. Tinha um negócio chamado Correio Diplomático, não sei se você já ouviu falar. Era uma mistura de gente, não era uma só pessoa que fazia sempre, cada vez ia um. Esse Correio Diplomático era para Genebra. Você levava a correspondência, a mala diplomática, que a partir da sua entrega ao consulado seria liberada para um voo direto para o Brasil, e você, às vezes, fazia compras para pessoas da Embaixada ou ficava dois, três dias curtindo a sua vida.
00:23:39
P1 – E sendo uma Embaixada com menos pessoas, imagino que o campo de atuação acaba se tornando maior, não é?
R – Exatamente! Além do mais, nós éramos três ou quatro diplomatas, o embaixador, eu, um segundo-secretário, então eu já era a segunda na Embaixada. Teve ocasião de, várias vezes, ser encarregada de negócios. É um pouco a atuação do embaixador, o que te dá uma grande experiência nisso.
00:24:09
P1 – E como foi essa experiência no que diz respeito à questão do relacionamento bilateral?
R – O relacionamento bilateral sempre foi positivo. Naquela época, o que nós tínhamos muito era um interesse em compras de material hospitalar. Obviamente, havia muito campo para aumentar isso. Só que o relacionamento dos governos e os sistemas que estavam vigentes não facilitavam essa aproximação. Mas tudo bem.
00:24:46
P1 – Depois dessa experiência, como foi a progressão da sua carreira?
R – Nesse momento, eu também fui promovida a primeira-secretária. Depois do meu tempo em Budapeste, que também foram três anos, eu tive duas opções. Porque você fazia um rodízio de [postos] “A”, “B” e “C”, se possível. Então, me ofereceram Paquistão ou Jamaica. Eu fui para a Jamaica, porque uma mulher no Paquistão islâmico eu acho que daria mais dificuldades para mim mesma. Fui para a Jamaica, onde fiquei dois anos. Era uma ilha muito simpática, mas tinha a mesma coisa do Correio Diplomático para os Estados Unidos. A grande aproximação que a Jamaica tinha com o Brasil é que os produtos brasileiros – produtos, eu digo, máquinas de lavar – passavam por Miami e entravam na Jamaica depois. Além do mais, nós tínhamos muita aproximação com a questão de um material que é muito exportado na Jamaica e que nós temos muito interesse também. Depois eu me lembro... [provavelmente se refere a bauxita/alumina].
00:26:10
P1- E aí a sua atuação foi como encarregada de negócios?
R – Primeiro eu me apresentei como primeira-secretária. Depois também tive a oportunidade de ser encarregada de negócios.
00:26:30
P1 – Depois disso, a senhora volta ao Brasil. Cumpre esse período de remoções no exterior e volta ao Brasil.
R – Voltei ao Brasil com o interesse de trabalhar em organismos internacionais. Em princípio, tinha a possibilidade, mas isso não funcionou. Não deu certo e eu fui trabalhar na parte consular. Fui chefe da Divisão de Imigração, que era um trabalho bastante forte, agressivo. Nós tínhamos uma série de cidadanias para as quais nós dávamos os vistos um a um, todo dia, por telegrama. Eram mais de 100 telegramas por dia e isso era um movimento muito grande. Depois disso, eu criei bastante experiência, porque fiquei lá uns três anos, quando eu pedi para trocar, mas não me deixaram sair da mesma secretaria. Fui para a parte de Administração do Itamaraty, já foi um esquema bem diferente. Não sei se você sabe, o setor de Administração tem uma divisão que cuida das embaixadas no exterior, dos consulados, dando aporte de subsídio mensal para a sobrevivência, recebendo dinheiro, renda consular, e também fazendo compras necessárias para esses postos. Só que isso vai depender também muito do orçamento do Itamaraty. Eu tive sorte com um chefe, que era muito positivo e, na minha primeira experiência, eu não tive dificuldade em atender quem precisava, o que foi muito positivo para a gente continuar o trabalho.
Nisso, eu peguei a mudança do governo Fernando Henrique [Cardoso]. Eu queria sair daquele setor e soube que a embaixadora Vera [Lúcia] Barrouin Machado ia ser a chefe da Imprensa. Acabei trabalhando com ela e com a embaixadora Maria Luiza [Ribeiro] Viotti, que hoje é embaixadora em Washington. Nós trabalhamos juntas durante um período, fiquei uns três anos na Imprensa. Era outro momento, um presidente muito atuante no exterior e com muitas atividades e uma atração diferente pelo Brasil. Depois disso, eu fui para Genebra.
00:29:13
P1 – E aí, a atuação em um organismo multilateral?
R – Sim, foi a minha primeira experiência multilateral. Eu acompanhei a Unctad, que é uma agência das Nações Unidas de comércio e desenvolvimento e é, sobretudo, uma base para os países em desenvolvimento [Unctad é a sigla de Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento em inglês]. No momento em que você chega lá e não tem a experiência, nem aqui em Brasília, de organismos internacionais, se torna um pouco difícil, porque é difícil acompanhar o que está se discutindo. São 190 países, a maioria deles necessitados e que querem situações de apoio que nem sempre são possíveis. Mas essa instituição, que é uma das maiores em Genebra, também atuava semestralmente com alguns seminários que davam embasamento de política e desenvolvimento muito positivo. Creio que foi uma experiência bastante rica nesse período.
00:30:11
P1 – Se me permite voltar ao período da assessoria de comunicação, isso na transição, na mudança do governo [do presidente da República] Itamar [Franco] para Fernando Henrique Cardoso, que talvez tenha se notabilizado como um presidente que tinha uma atuação, que tinha sido também chanceler, ministro das Relações Exteriores, antes de se tornar Presidente da República. Queria saber como foi essa experiência e o trabalho de comunicação, imagino também o trabalho de comunicação do Brasil nessa conjuntura.
R – Por incrível que pareça, pela própria figura do presidente Fernando Henrique, foi muito mais fácil do que se pensa, ao mesmo tempo foi muito intenso. Porque todo mundo queria vê-lo, queria conversar com ele, queria apresentar propostas, pedidos e coisas assim. Isso ocupava bastante e, às vezes, ele até se sentia transtornado de tantos pedidos. Para mim, foi muito rico porque eu via, ao contrário do passado, pessoas abordando o presidente, querendo visitá-lo, querendo convidá-lo. Isso na minha pequena secretaria. Foi um momento muito positivo para a imagem do país. E isso, para uma diplomata, facilita muito o trabalho.
00:31:40
P1 – Foi um momento de êxito até por conta do Plano Real...
R – E a volta da democracia, o Plano Real, tudo isso foi positivo. Até hoje é positivo.
00:31:53
P1 – E isso envolvia também as visitas que aconteciam tanto de estadistas de outros países e idas do Presidente Fernando Henrique a outros países?
R – Certamente. Eu me lembro dessa viagem a Portugal, que eu falei, em que ele foi para [a Universidade de] Coimbra receber o diploma de honoris causa. E ele fez um discurso maravilhoso. E depois ele foi ao Porto, encontrar-se com as autoridades portuguesas. Era preciso pegar um pequeno barquinho para ir a uma ilha onde aconteceria essa reunião. Naquela época, o presidente Itamar [Franco] era o embaixador [em Lisboa]. Está lá a imprensa toda no Porto, eu olhando tudo, e o Itamar diz- —“Eu não vou entrar nisso”. Então, o presidente ficou no porto, como todos os outros diplomatas que foram almoçar, esperando o presidente [Fernando Henrique Cardoso] voltar. Isso foi único.
00:33:01
P1 – Quando acontece essa mudança de posto, essa oportunidade de trabalhar em Genebra? E com essa atuação mais diretamente na Unctad?
R – As remoções no Itamaraty não são muito fáceis. É uma disputa, às vezes, de postos. Nesse caso, eu soube que havia uma vaga que estava sendo disputada por alguns diplomatas e como eu estava trabalhando na Imprensa, que é parte do gabinete do Ministro de Relações Exteriores, eu falei com um colega, um embaixador, e me apresentei dizendo que eu tinha interesse de ir para lá. Por acaso, consegui, o que foi uma grande oportunidade.
00:33:52
P1 – E nesse trabalho, o que a senhora coloca como um marco, um momento importante, significativo da sua carreira em Genebra.
R – Em Genebra, minha experiência de multilateral foi bastante forte, porque é um trabalho intenso de nove às nove. Você acorda para uma reunião, almoça com alguém que você tem que negociar alguma decisão e depois você vai a outra reunião, volta para a embaixada para escrever os documentos que precisam ser conhecidos pelo Brasil, e de noite tem alguma reunião ou alguma coisa. É muito intenso isso e, às vezes, você acha que Brasília precisa atuar mais, precisa responder mais rápido. Você não pode esquecer que a Unctad não só fazia estudos maravilhosos, mas ela atendia sobretudo países em desenvolvimento. Naquela época estava sendo inaugurada a OMC [Organização Mundial do Comércio], que era o grande atrativo de todos, porque era o comércio para todo mundo igual. Então, isso desfocava um pouco a atuação da Unctad em Genebra. É isso. Mas, para mim, foi sempre positivo.
00:35:17
P1 – Enfim, se tornou um tema importante, acho que um momento importante também da sua carreira, porque quando, em 2000, a senhora vai fazer a sua tese no Curso de Altos Estudos do Rio Branco, a sua pesquisa tem a ver, não sei se diretamente com a experiência, mas tem como tema a Unctad.
R – Exatamente.
00:36:38
P1 – A pergunta seria como é esse trabalho e de que maneira a experiência vivida, atuando, participando das negociações, contribuiu ou tem relação com a pesquisa efetivamente feita, com a tese?
R – A tese diz, basicamente, o que já lhe contei. É a grande experiência que tive na Unctad, essa agência imensa de atendimento de países em desenvolvimento, que tem fama, e o Brasil foi participante da criação desse evento da Unctad, mas não tinha oficialmente, no dia a dia do trabalho aqui em Brasília, uma aceitação ou um interesse maior pela Instituição. Eu coloco o que a Unctad fazia de importante, como era difícil trabalhar lá, sendo que o Brasil era tão importante como um país em crescimento, e a falta de correspondência das autoridades brasileiras.
00:36:41
P1 – Em algum momento a senhora acha que houve maior correspondência ou até que, por uma questão também do surgimento da OMC, o foco foi se direcionando mais para a atuação na OMC?
R – Eu acho que a atuação da OMC foi primordial. Desde o Gatt [sigla de Acordo Geral sobre Tarifas e Comércio em inglês], ela era brilhante, e os outros órgãos internacionais em Genebra ficaram um pouco à mercê do vigor da OMC. Não morreram, continuaram fortes, porque já estavam ali, mas sobretudo no Brasil a OMC brilhava mais.
00:37:18
P1 – E, antes dessa tese, em 1999, a senhora vai se transferir para trabalhar na Embaixada de Assunção. Como foi essa experiência e o porquê, como foi a escolha por Assunção?
R – A escolha por Assunção foi porque eu queria estar mais perto do Brasil. Já estava com pais, a minha mãe estava idosa. Lá estava o meu primeiro, segundo chefe, o embaixador [Bernardo] Pericás. Tinha uma vaga, ele me aceitou e foi assim. Mas claro que Paraguai, Genebra, Washington, Budapeste, tudo isso é muito diferente, mas a proximidade do Paraguai com o Brasil e Itaipu, entre os dois países, é um vínculo que existirá sempre, mais forte ou menos forte. Naquela época, eu sentia muito o fato de ser mulher. É uma coisa meio sintomática, mas se você fosse conversar com políticos, querendo acompanhar a política nacional, teve eleições quando eu estava lá, era muito difícil conseguir informações. Foi um pouco decepcionante nesse sentido.
00:38:50
P1 – E, no caso, esse trabalho de levantamento de informações, a dificuldade que a senhora percebia tinha a ver pelo fato de ser uma mulher naquele contexto?
R – Naquele contexto. Eu era chefe do Setor Político. Naquela época, as pessoas eram muito voltadas para a religião e ainda tinham essa visão de que mulher é para ficar em casa, não trabalhar. Alguns poucos eram muito simpáticos e atendiam com muito prazer, mas isso era flagrante, era muito claro.
00:39:32
P1 – E teve algum outro momento da carreira em que a senhora sentiu dificuldade semelhante ou em que, em alguma medida, o fato de ser uma diplomata mulher representou um obstáculo ou foi colocado como um obstáculo?
R – Não, eu, pessoalmente, não senti isso. Mas sei de colegas, sei de coisas que prejudicaram um pouco.
00:39:58
P1 – Depois dessa experiência no Paraguai, a senhora retorna a Brasília?
R – Depois de certo tempo, eu voltei a Brasília, porque era aquele negócio do tempo no exterior. Você não pode ficar mais do que nove anos, oito anos e meio. Naquela época, eu era conselheira. Ser conselheira significa ser chefe de uma divisão dentro do Itamaraty, então só tinha uma divisão disponível naquela época, uma das divisões de África. Mas eu tive a sorte do meu embaixador no Paraguai precisar vir a Brasília para contatos pessoais e, quando ele voltou, ele disse que eu ia trabalhar na Secretaria-Geral, porque estavam precisando de conselheiros e ele vendeu o meu nome. Para mim foi uma grande satisfação, porque era um cargo muito almejado, onde eu pude ver muita coisa. Pude aprender novos ângulos, conviver com embaixadores muito conhecidos, como Samuel Pinheiro Guimarães e coisas assim.
00:41:15
P1 – Estar mais próxima de uma instância decisória do Itamaraty.
R – Exatamente. É o segundo homem mais importante do Itamaraty.
00:41:20
P1 – Porque aí tem dois momentos, como assessora na Secretaria-Geral e, anos depois, como chefe do Gabinete do Secretário-Geral.
R – Nesse primeiro momento, eu era apenas uma pessoa trabalhando na Secretaria-Geral. Depois de certo tempo, fui promovida a ministra e fui convidada para trabalhar no Uruguai. Eu já estava lá há um ano e fui promovida. Diplomata procura o quê? Promoção. Promoção, posto, coisas assim. Com esse convite de uma pessoa que eu conhecia, eu aceitei o convite, muito a contragosto do meu secretário-geral, mas fui para o Uruguai, onde cheguei em dezembro de 2003. Fui trabalhar com o embaixador Eduardo [dos] Santos. Era uma embaixada normal, importante, também vizinha do país, com muitas atividades, muitos contatos políticos entre os dois países e foi muito simpático, foi muito importante.
00:42:36
P1 – No Uruguai, teve algum foco mais específico a sua atuação? Era no setor político?
R – Eu era a ministra-conselheira, a segunda da Embaixada, então você coordena tudo. O embaixador está lá, você atende o que ele quer, mas na ausência dele, em princípio, você é a coordenadora dos diplomatas. E decisões, nós tínhamos reuniões permanentes toda semana com o embaixador para ver que diretrizes tomar, que visitas viriam, que mudanças de atuação seriam o caso.
00:43:15
P1 – Nesse momento, como foram as relações bilaterais entre o Brasil e o Uruguai, teve alguma situação, algum momento, evento marcante?
R – Naquele momento, nós tivemos a eleição do presidente [da República Luís Inácio] Lula [da Silva]. Ali eu vivi também a eleição do partido que era, mais ou menos, pró-esquerda. Convivi com o ministro uruguaio que acabou de falecer, era um líder esquerdista muito famoso no mundo [provável referência ao ex-presidente do Uruguai Pepe Mujica, 1935-2025]. Foi esse momento de mudança de sistema também no Uruguai, coincidindo com os interesses do Brasil, o que tornou mais próximos os dois Estados, os dois países. Entretanto, o embaixador Eduardo dos Santos saiu dois anos depois que eu cheguei lá. Com isso, vinha um novo embaixador. Quando eu vim a Brasília, sondaram o que poderia acontecer comigo, se eu iria continuar lá, se haveria outra possibilidade, se eu deveria voltar para cá. O que ia acontecer? Porque essas coisas são indecisas, você não sabe de antemão. Mas tive a sorte de ser convidada para chefiar o Departamento de Direitos Humanos e Temas Sociais. Por que é importante esse departamento? Com o governo Lula, havia muito incentivo para esse departamento, que abordava não só os direitos sociais, mas direitos de indígenas, crianças e mulheres e saúde. Era muito vasto. Então, foram anos de bastante atuação.
00:45:04
P1 – Isso menos uma atuação voltada para a política externa e mais em termos ligados aos direitos humanos no Brasil?
R – Mas também foi criado, nessa época, o Conselho de Direitos Humanos da ONU. Portanto, eu atuava também como chefe do departamento junto ao conselho em Genebra. Claro que eu tinha a assessoria dos embaixadores em Genebra também. Existiam grupos na parte da OMS, da Saúde, para aumentar a participação na África, e o Brasil também participava disso. Eu participei de inúmeros conselhos aqui junto ao representante de direitos humanos, ministro de Direitos Humanos do presidente. Isso tudo era uma participação intensa toda hora. Eram dez conselhos vinculados a direitos humanos no Brasil.
00:46:08
P1 – Nesse momento em que a pauta dos direitos humanos estava em evidência, era uma pauta também importante para a plataforma daquele governo, quais a senhora considera que foram os principais marcos da sua atuação nessa experiência no Departamento de Direitos Humanos?
R — Acho que os marcos mais importantes foram os relatórios que são feitos anualmente, e começaram a ser feitos naquela época. O Conselho de Direitos Humanos passou a exigir dos países um relatório de direitos humanos com todos os problemas que o país encontrava, para ser apresentado a toda a assembleia, para conhecimento e discussões. O Brasil, naquela época, fez dois. Não é que eu tenha escrito os dois, mas eu acompanhei junto com o Ministério das Relações Exteriores, que foi assistir à apresentação. Além do mais, o Brasil tinha uma política bastante atuante para a melhora dos direitos humanos no Brasil e da mulher também. O que acontece? Nós temos excelentes leis, mas elas não são respeitadas. Hoje você sabe muito bem que [há lei contra] o racismo, contra isso, contra aquilo, mas naquela época era o início, não havia tanta aceitação assim. Da saúde, dos indígenas, cada ângulo desses era acompanhado por um ou dois ou três diplomatas, com o Ministério de Relações Exteriores do presidente Lula. Então, ficava intenso toda hora. Eu passei nisso mais ou menos três anos e meio, três anos.
Em um bom dia, fui chamada na Secretaria-Geral. Bom, ser chamada na Secretaria-Geral ou no gabinete é um problema, ou é uma coisa que você vai ter que dar um jeito, ou [uma] surpresa. E, para mim, foi uma bela surpresa – porque foi quando o secretário-geral me convidou para ser a chefe de gabinete dele. Ele iria ficar mais uns dois anos naquele cargo por causa de idade, então ele iria sair, mas para mim foi uma grande oportunidade de trabalhar diretamente com o Samuel. Muda um pouco o meu esquema, embora eu ainda acompanhasse a chegada dos assuntos de direitos humanos na Secretaria-Geral, porque muitas dessas coisas, que são posições a serem tomadas em Genebra ou em outras reuniões, às vezes, têm que ser aprovadas pelo chefe do Ministério ou da Secretaria-Geral. Não é assim automático, você não manda sem consultar. Fiquei lá até a mudança, a saída do embaixador Samuel Pinheiro Guimarães e a chegada de um novo secretário-geral, o embaixador Antonio de Aguiar Patriota. O embaixador Antonio de Aguiar Patriota é meu colega de Rio Branco, da mesma turma. Nós somos bastante amigos, mas uma vez promovida eu queria ir para o exterior como ministra de primeira classe. E foi em 2009 que eu fui promovida. Eu tinha pouco tempo, porque eu entrei tarde no Itamaraty. Na minha época, você podia entrar, fazer o concurso se você tivesse cursado até o segundo ano da faculdade. Na verdade, eu entrei depois de formada, depois de ter trabalhado. E isso, me deparando com colegas muito mais jovens, até hoje é um gap que eu tive que enfrentar. Mas ao ser promovida embaixadora, não tinha muito sentido ficar aqui, porque com a obrigatoriedade de aposentadoria aos 70, eu não teria muito mais tempo. Demorou um pouco, eu fiquei até 2010 na Secretaria-Geral. E me ofereceram Angola, e a bem verdade acho que foi a primeira vez que um embaixador saiu do gabinete da Secretaria-Geral para ir para Angola. Mas eu estava querendo, precisava sair e vi com bons olhos essa oportunidade. As pessoas acharam que eu não ia aceitar de jeito nenhum, mas acho que estava na hora de sair. E foi assim.
Eu cheguei lá em 2010. Naquele ano, Angola recebia a reunião do Conselho de Países de Língua Portuguesa, então o embaixador Celso Amorim foi visitar logo na primeira semana que eu cheguei lá. No mesmo mês, o presidente de Angola visitou o Brasil. E eu pude voltar aqui para a visita dele, eu o acompanhei por dois, três dias e, depois, atuei em Angola por três anos e meio.
00:51:53
P1 – Era um período de relações diplomáticas e políticas próximas entre Brasil e Angola?
R—Naquela época, como você leu nos jornais, as grandes empresas brasileiras estavam todas lá. Havia muito trabalho patrocinado pelas empresas. Angola tinha que se refazer, digamos assim. O país havia sofrido 27 anos de guerra civil. Angola estava na fase de renovação de estradas, barreiras, novos açudes, tudo. Então, havia um grande mercado para as empresas de engenharia, não só do Brasil, porque os engenheiros portugueses também estavam lá, italianos também, a Petrobrás, e tudo isso. Para mim, além das boas relações que nós tínhamos com Angola, não só pelo colonialismo português, mas falávamos a mesma língua, sofremos um pouco do colonialismo, se bem que eles sofreram de uma maneira muito mais drástica, não tinha como separar. Para a minha surpresa, os angolanos, nos anos 1970, 1980, assistiam novelas da Globo, então acompanhavam o Brasil pari passu, conheciam bem, sabiam como era. Para mim, foi um período de curiosidade, de aprendizado e muita coisa positiva.
00:54:12
P1 – A gente, ontem, entrevistou a embaixadora Vitória Cleaver. E ela comentou que tinha sido, em um período muito próximo ao da senhora, a oitava mulher embaixadora na história do Itamaraty. A senhora talvez tenha sido a nona, ou até anterior a ela, não vou lembrar da linha do tempo.
R – Anterior, não, porque ela é mais antiga do que eu, creio que ela foi uns dois, três anos antes.
00:54:46
P1 – Acho que foi no início da década de 2000. Então, a minha pergunta seria no sentido de entender, até nessa dimensão de gênero, a importância de uma mulher se tornar embaixadora. A senhora se tornar embaixadora, uma representante do Brasil, em um posto como esse, em Angola.
R — Acho que é, sobretudo, uma grande conquista brasileira, que não tem limites entre essa comparação de disparidades entre homem e mulher, desde que os dois sejam concursados e preparados. É claro que isso também foi uma conquista da sociedade. Hoje em dia, você tem 20% do Itamaraty que são mulheres. Antigamente eram 10%, 12%. E eu acho que a tendência é ter cada vez mais mulheres, como já tem hoje muitas que estão em alguns postos por aí. Inclusive, recentemente, quando eu estava na Tailândia, eu também era comissionada no Camboja e acabou de ser recebida lá uma nova embaixadora do Brasil. Então, é um sinal, mas já tem várias embaixadoras hoje em dia, eu acho algo muito positivo. No passado, isso era uma luta de cada um. De bom trabalho e tentar obter um reconhecimento.
00:56:15
P1 – E dessa experiência em Angola a senhora falou muito do processo de presença de indústrias, companhias brasileiras no país, e dessa proximidade cultural, histórica. Quais a senhora considera que foram os principais marcos desse período como embaixadora lá?
R – Nós tivemos grandes construções lá, eu fui visitar algumas. Quando eu saí de lá, estavam começando a fazer uma represa que ia ser uma coisa bastante importante para o país. O fato é o seguinte, sem querer citar nomes, mas a Odebrecht está lá desde 1975, quando houve a independência do país. Eles fizeram contatos com militares daquela época, que são dirigentes hoje. É claro que eu saí há dez anos, então isso também está mudando. Hoje em dia já há uma sociedade mais dinâmica e tudo mais. Mas naquela época as empresas brasileiras eram reconhecidas por empregar muita gente e trabalhar para obras no país. Além do mais, o que toda hora eu ouvia? Crises, porque o BNDES ajudava uma ou outra para dar empréstimos. Na verdade, os empréstimos existiam, mas eram, sobretudo, para comprar material brasileiro para exportar para lá, para as construções que faziam. E é isso.
00:58:00
P1 – E depois dessa experiência no continente africano, a senhora vai chefiar outro posto, que é o Consulado-Geral de Nova York. Como foi essa transferência e o convite?
R – Depois de três anos e meio em Angola, eu pleiteei sair para outro posto. E, naquela época, eu tentei voltar para a OEA [Organização de Estados Americanos]. Eu nunca trabalhei na OEA, mas a OEA fica em Washington. Só que era o governo [da presidenta da República] Dilma [Rousseff] e, naquele momento, durante quatro ou cinco anos, não teve embaixador nessa organização. Com isso, me perguntaram se eu gostaria de ir para o Consulado em Nova York. O Consulado em Nova York é o maior consulado que o Brasil tem e o mais antigo também. Para se ter uma ideia, quando teve a eleição presidencial, que foi a segunda da eleição da Dilma, na minha jurisdição – formada por Nova York, Nova Jersey e Pensilvânia –, eram 20 mil eleitores brasileiros. Isso significa que o movimento que tinha esse consulado, com vários setores de comunidades já atuantes, não só em Nova Jersey como também na Filadélfia... Naquela época, a gente conseguiu agilizar bastante o consulado, agilizando, sobretudo, a concessão dos vistos americanos e dos documentos solicitados, isso foi uma grande vitória. Aí serviu aquela experiência que eu tive da imigração, da administração, que eu não gostei nem um pouco. Foi perfeito.
01:01:48
P1 – A senhora estava falando de consulado. E a pergunta era um pouco sobre essa característica do trabalho consular, no qual até a senhora teve a oportunidade de trazer ou retomar alguns conhecimentos do momento inicial da carreira, quando a senhora trabalhou na Divisão de Imigração.
R – Sem dúvida. E isso é uma coisa interessante ao longo da carreira, quando você entra, quando você é secretária, você trabalha em vários lugares, sem nunca saber se vai dar seguimento àquele trabalho, àqueles assuntos que você conheceu. No meu caso, foram muito válidos, porque pude aplicar isso na embaixada também. Porque em Angola, de onde eu tinha saído, você tinha 20 mil pedidos de visto por ano. Isso era também uma coisa que precisava de uma moderação, porque muita gente queria, na verdade, emigrar, como, hoje, temos bastante angolanos no Rio de Janeiro. Depois do consulado em Nova York, que tinha essas comunidades, em Nova Jersey, festejando datas. Até a Rua 46 fazia um desfile de baianas, ao qual eu fui convidada e desfilei lá, atravessando a rua. Para mim, aquilo era uma coisa inusitada, em plena Nova York, mas foi muito positivo.
01:03:16
P1 – Pensando nesse atendimento, nesse relacionamento com as comunidades brasileiras no exterior, e Nova York sendo uma região, um dos lugares que tem o maior número de brasileiros vivendo fora, a senhora tem alguma história, situação que tenha sido marcante nesse período, na chefia do consulado?
R – Não, porque como eu falei a coisa positiva foi a gente conseguir agilizar o trabalho, eram 70 funcionários dedicados a solucionar problemas diariamente. E isso parece fácil, mas não é, porque é um diálogo entre pessoas. Cada um tem suas necessidades, cada um tem a sua atuação, tem umas pessoas que não aceitam as regras, não é nada fácil. Eu acho que a grande conquista foi o bom trabalho que foi empreendido lá.
01:04:04
P1 – Embaixadora, passada essa experiência, uma nova transferência de posto...
01:04:15
R — Não, a Tailândia, eu nunca tinha atuado com nada do Sudeste Asiático.
01:04:59
P1 – Budapeste, a senhora não chegou, então, a voltar. Então, aí foi a transferência para a Tailândia...
R — A Tailândia foi um pouco demorada. Levei uns quatro meses para conseguir o agrément, porque tudo lá, você viu, um ano para a apresentação das credenciais. É o tal do ritmo do protocolo deles. Uma coincidência, como eu falei, o rei tinha morrido e o luto durou um ano, eu ainda peguei as comemorações do enterro dele, depois de um ano e meio. É um outro país, outras novidades, outro protocolo, outra atuação. O que eu vi na Tailândia? Primeiro, eu fiquei surpresa, porque achei muito mais interessante do que eu pensava. Um país relativamente desenvolvido, em crescimento. A Tailândia é do tamanho do estado da Bahia e atrai muitos turistas também. Para se ter uma ideia, antes da pandemia, eles recebiam 40 milhões de turistas por ano. Isso era, na época, a mesma coisa que Paris ou a Espanha, na verdade, havia uma disputa entre os três. O país recebia muitos russos, alemães, europeus que iam para as praias. Mas o que tem de interessantíssimo na Tailândia? São as obras, os resquícios da história deles. As estátuas, os templos e coisas que vieram da época [do Império] Khmer [entre os séculos IX e XV]. Isso é excessivamente bonito e fica à disposição na capital, sobretudo, e em outras partes do país.
A Tailândia, para um diplomata, são duas coisas. Primeiro, a liberdade, a facilidade, comidas diferentes, simpatia do povo, tudo isso é muito fácil para brasileiros. Mas no momento em que você tem a parte formal, tudo é mais rigoroso, diferente, com o rigor de rei. Não é antipático nem nada disso, mas é uma coisa que eu nunca tinha vivido. É um quadro bem diferente que você também aprende nisso, porque não são contatos toda hora, tem regras até de como se vestir nas festas, mas foi bem interessante também.
01:07:39
P1 – Em que pese essa questão dos formalismos, que, de alguma forma, mudam a maneira de atuar, como foi essa atuação, pensando nessa relação bilateral Brasil e Tailândia, que também era cumulativa com outros países...
R – Com Laos e com Camboja.
01:07:58
P1 – E essa situação de também ter que esperar um período tão longo para fazer a entrega de credenciais, o quanto isso afetou a sua atuação como chefe da Embaixada?
R – Internamente não afeta. O que afeta? Enquanto você não recebe uma carta autorizando você a lidar com pessoas do governo, ou seja, visitar ministro e coisas assim, você não pode fazer nada, não pode ir a lugar nenhum oficial. Isso demora uns dois meses mais ou menos. Enquanto isso, você atua na parte de contato com outros diplomatas, internamente, e tenta conhecer um pouco onde você está.
O meu antecessor [o embaixador Gilberto Fonseca Guimarães de Moura] havia criado a Câmara de Comércio Brasil-Tailândia. Ele foi embora logo e eu peguei o início da estruturação dessa Câmara de Comércio, que foi muito bem-aceita e eu tenho a impressão de que foi uma grande vitória. O presidente, Marcelo Souza, é um brasileiro que estava lá e continua. Hoje em dia, ele é o presidente do grupo de todas as câmaras de comércio internacionais que estão na Tailândia e tem uma atuação penetrante. O que eu pude fazer para apoiar essa instituição, em contato com outras instituições, com o governo, estimular o comércio do Brasil com a Tailândia foi bastante grande. Mas o que aconteceu? Aconteceu a pandemia. A pandemia de Covid bloqueou um pouco tudo isso, todo mundo tinha que ficar em casa. Eu própria vim ao Brasil fazer a operação de olhos em 2020 e tinha que ficar 45 dias sem viajar. Nisso fecharam todos os voos para qualquer lugar, Tailândia inclusive. Resultado, eu tive que ficar dois meses e meio esperando a oportunidade para voltar ao posto. Eu ainda tive que ir para a Europa pegar um voo tailandês, que estava levando exilados tailandeses, para voltar ao posto. Ao chegar na Tailândia, não era essa coisa de ficar de quarentena. Você já era pega no aeroporto. Do aeroporto você ia para o hotel que você ia ficar, onde você já deveria ter contratado, pago, reservado, essas coisas. Quinze dias sem sair e só depois disso pude assumir a embaixada realmente.
01:10:44
P1 – Acho que esse é o primeiro relato de alguém que assumiu, que estava em uma Embaixada e teve essa situação de estar no posto em meio a uma pandemia. Enfim, um evento praticamente inédito.
R – Exatamente. Inclusive, quando soube disso, a primeira coisa que fiz foi já escolher o hotel que eu queria ficar. Se você não tivesse um lugar para ir, você ia para um quartel no meio do interior. Obviamente que eu preferi definir onde eu iria, um hotel que a gente tinha feito o 7 de Setembro, perto do Centro e da Embaixada, onde eu podia receber papéis da Embaixada. Fiz essa reserva, fui direto para lá. Mas uma coisa interessante é que os tailandeses e as pessoas do Sudeste Asiático já usam máscara normalmente. Basta ter uma gripe, basta frequentar o metrô, já saem com máscara na cara. Para eles, isso não teve problema. Mas tinha o mercado fechado, coisas que não podiam sair, o governo fechou tudo, tinha que ficar em casa, isso era bastante difícil. Fazer compras, mas não podia ir para o mercado, tudo isso eles tiveram que enfrentar. A gente sempre tem um meio de dar uma saidinha, mas tudo fechou. Não havia comemorações, não havia restaurantes, não havia nada disso.
01:12:13
P1 – E pessoalmente, como foi viver essa experiência da pandemia em outro país, com uma cultura tão distinta?
R – Foi muito mais rigoroso. Não que eu quisesse, mas foi muito mais rigoroso, porque eles são muito by the book, não tinha solução. Para se ter uma ideia, eles tiravam a minha pressão duas vezes por dia, para ver como estava, como não estava. Não tinha como lutar contra isso. Você comia no quarto, não podia sair. Bom, passou.
01:12:55
P1 – E esse foi seu último posto na carreira?
R – Esse foi meu último posto.
01:13:01
P1- E como você vê esse fechamento de carreira no Itamaraty?
R – Não vejo com bons olhos. Na verdade, houve a perspectiva de me aposentar como é hoje, aos 75 anos. Foi definido, naquela época, que o Itamaraty não tinha como absorver isso, ia absorver o crescimento dessas datas pouco a pouco. Então, eu não pude me beneficiar da totalidade da idade. Na verdade, eu acho que depois de lutar tanto por uma carreira que eu gosto, a vontade de continuar é constante. E você vem para um Brasil novo, que está mudando, mas pouco a pouco você vai se adaptando. Brasília também tem um problema, não tem muitas empresas com vínculos internacionais, o que tem aqui são muitas estruturas oficiais de governo. Infelizmente, também não estão interessados em aposentados. Então fica mais difícil. Mas este é o meu caso, a maioria tem seus vínculos mais ágeis. Talvez eu não tenha me preparado para isso.
1:14:14
P1 – Embaixadora, até considerando sua história de vida e outras, a carreira na diplomacia é uma carreira que envolve muitas adaptações. Adaptações tanto no aspecto profissional, mas também no aspecto pessoal e no que envolve também família. Como foi para a senhora ter que fazer essas adaptações, manejos, fazer essas escolhas ou às vezes determinações de postos, cargos assumidos?
R – A verdade é que ao não ter filhos isso é facilitado. Acho que o maior problema das famílias diplomatas é a mudança das crianças que estão em fase de adolescência, colégios onde passaram três, quatro anos, mudanças de amizades, adaptação para países que são mais difíceis e mais caros. Isso complica muito. Mas na medida em que eu não tenho filhos e que meu marido também é uma pessoa que viveu fora muito tempo, eu vejo isso como relativamente simples para mim. Sabia para onde ir, não quer dizer que eu tinha optado por isso ou aquilo, mas eu também via como uma fase pequena que devia ser explorada de alguma maneira. Então, não posso dizer que tenha tido dificuldades maiores.
01:15:51
P1 – E na sua visão, independente também de cargo, posto, quais foram os principais desafios com os quais a senhora teve de lidar na sua carreira?
R – Bom, os principais desafios, para mim, são exatamente continuar na carreira e representar o país como tem que ser, porque tem movimentos, o governo e a política, então você tem que se adaptar aos novos governos, às novas ideias, aos interesses do país. Eu acho que o diplomata vai se preparando para isso e objetiva isso também. Os desafios eu acho que são uma coisa muito pessoal. É você não querer ir para um lugar, não se adaptar, por exemplo. Como no passado, no momento que você ia para um posto e não queria sair de lá, isso já complicava, porque não havia a agilidade do conhecimento. Mas eu acho que está mais moderno, isso.
01:17:01
P1 – A senhora já mencionou e até durante o intervalo que a gente teve, da primeira para a segunda parte, a senhora falou que conheceu o seu esposo durante a carreira, enquanto a senhora estava no posto em Budapeste. Queria que a senhora contasse um pouco como foi a manutenção desse vínculo, dessa relação ao longo da trajetória.
R – Eu o conheci, começamos a namorar como todo mundo, um lá, outro cá, enfim, até que nós decidimos nos juntar. Não tem muito mistério quanto a isso. Ele foi conhecer Budapeste, gostou muito, mas logo em seguida eu fui removida. Fomos para a Jamaica juntos, depois viemos para cá. No início, ele tinha perspectivas de trabalho, mas é muito difícil para o seu marido ou para a sua mulher que tem uma profissão ter que se mudar a cada três anos. É uma adaptação que nem todo mundo consegue fazer. O Cristiano também é um artista plástico. Nessa fase, ele explorou muito isso. E é isso, vida de casal.
01:18:24
P1 – E há quanto tempo vocês estão juntos?
R – 30 anos.
01:18:32
P1 – Embaixadora, estamos indo para parte final da entrevista. Eu queria perguntar, nessa atual fase da sua vida, quais são as coisas mais importantes para a senhora?
R – Em que sentido?
01:18:53
P1 – Em sentido de vida, no âmbito pessoal.
R – Foi a minha própria vida. As minhas experiências, que foram muito variadas. Sem dúvidas, devo reconhecer que isso me deu muitas oportunidades e muitas conquistas. E continuo valorizando muito isso. Hoje em dia, eu acho que se reduziu, na verdade, a seus amigos, suas relações, um pouco vinculadas à sua carreira. O que acontece hoje? Os amigos estão fora, estão em outros postos ou estão em outras cidades. Fica um pouco isolado isso, mas é uma fase. Eu não sei dizer o que é o mais importante. O mais importante é estar viva e ter boa saúde, claro.
01:19:40
P1- Coisas que a senhora, hoje, gosta de fazer?
R — Gosto de viver. Passear, sair, viajar, mas isso não está acontecendo tanto quanto eu gostaria.
01:19:53
P1 – Queria perguntar, na sua visão, qual é a principal marca da diplomacia brasileira e contribuições para um país como o Brasil?
R — O Itamaraty, o Ministério de Relações Exteriores sempre lutou internacionalmente por ser um país de conversa, de apaziguar conflitos. E eu acho que isso é uma grande conquista do Brasil que deve ser mantida. O Brasil está crescendo, mas ele não tem ainda o poder e o preparo para ser uma nação grandiosa em relação ao mundo. Na verdade, economicamente, o nosso desenvolvimento está um pouco paralisado, não estamos crescendo tanto quanto deveríamos diante do potencial que temos. Nós precisamos de uma atuação bastante ágil da política externa, sobretudo na parte multilateral, que é onde os países que são menos preparados ou menos desenvolvidos têm mais voz. Mas o Brasil sempre foi reconhecido como um interlocutor de conhecimento e moderação. Acho que nós devemos manter isso e tentar lutar mais para o nosso lugar no seio das nações, porque isso está diminuindo muito. Nós já fomos a sexta economia mundial, já estamos com vários países na nossa frente, precisamos recuperar esse desenvolvimento industrial e voltar a ter mais atuação no exterior.
01:21:48
P1- E quais os principais desafios diante dessa conjuntura, nesse atual cenário político...
R – Os desafios são conquistar isso, vencer as batalhas. Se você não desenvolve o país, não investe no país para dinamizar a economia, fica mais difícil tentar se apresentar no exterior. Você fica limitado às suas fronteiras. O Brasil é um paraíso climático, tem a floresta maior do mundo, tem praias divinas, tem indústrias valiosas, mas no momento isso precisa ser estimulado.
01:22:34
P1 – Essa conjuntura econômica como um limite também para essa possibilidade de atuação da Itamaraty? Ou como um propulsor, também?
R – Sem dúvidas. O Brasil sempre conseguiu atuar internacionalmente por seus próprios méritos intelectuais e da diplomacia, não por ser o país mais desenvolvido ou rico. Acontece que nós também estamos um pouco parados nessa parte multilateral. Seria o caso da gente voltar a atuar mais fortemente.
01:23:06
P1- Na sua visão, embaixadora, qual a importância de um projeto de memórias da diplomacia brasileira?
R – Acho bastante importante, porque acho que nunca teve isso e uma das reclamações que eu ouço de colegas é que quando você se aposenta – e não estou dizendo que esse projeto de memórias seja de aposentados –, ao sair do Itamaraty aposentado você desaparece. Você não sabe nem contar o que você viveu, que foi parte daquela instituição. Esse projeto de memórias, sem dúvida, pode abrir vários canais interessantes para quem trabalha nisso.
01:23:52
P1 – A gente está quase finalizando. A senhora sente que acabou, mas tenho mais duas perguntas. Se a senhora tem alguma outra coisa, algo que se preparou ou gostaria de falar e que não teve oportunidade durante a entrevista?
R – Não.
01:24:06
P1- E como a senhora se sentiu? Como foi essa experiência de contar a sua história de vida e a sua trajetória no Itamaraty?
R – Meio inusitado, porque eu, francamente, não sei quem é que vai se interessar por isso. Mas foi um prazer e acho que é uma grande honra poder dividir com vocês a minha experiência.
01:24:28
P1- Embaixadora, então, em nome do Museu da Pessoa, da ADB, queria mais uma vez agradecer a sua generosidade de nos receber, mesmo numa tarde, noite agora, tão atribulada. Mas queria agradecer muito a sua disponibilidade e por compartilhar a sua história de vida com a gente.
R – Muito obrigada a vocês. Espero que você faça mágicas nessa exposição e que melhore 200% tudo o que eu disse.
01:25:00
P1- Não, tem que ser exatamente o que foi dito, que já é bastante relevante.
R – Muito obrigada.
FIM DA ENTREVISTA
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