A Maio não era só uma gata. Ela foi testemunha silenciosa de capítulos inteiros da minha vida. Vinte anos é tempo de raiz profunda.
Quando tudo ao meu redor parecia desabar, ela ficou. Sem palavras, sem tentar explicar a dor, sem tentar consertar nada. Apenas presente. Enquanto eu me recuperava da perda do meu bebê e chorava deitada, ela vinha devagar, se alinhava ao meu lado e encostava o rostinho no meu, como se dissesse: “eu estou aqui”. E, de alguma forma, eu sentia que ela realmente entendia.
Naquele período, eu carregava dores demais para uma pessoa só. Minha mãe lutando contra um câncer colorretal, meu pai enfrentando um câncer de próstata, conflitos familiares, feridas profissionais e, no meio de tudo isso, a descoberta da gravidez surgiu como um pequeno feixe de luz. Mas essa luz durou poucas semanas. O aborto deixou uma dor física e emocional que atravessou tudo em mim.
E foi justamente ali, no fundo daquele silêncio pesado, que a Maio permaneceu comigo. Já velhinha, depois de tantos anos compartilhando a vida ao meu lado, ela parecia saber exatamente quando eu precisava dela. Não existia pressa nela. Só presença. Só amor.
Hoje sinto uma falta imensa das suas patinhas de meia branca caminhando pela casa, do jeito que ela me olhava, da companhia silenciosa que transformava a solidão em algo suportável. A Maio levou um pedaço do meu coração com ela, mas também deixou em mim uma das formas mais puras de amor que já conheci. Em todas as criaturas ele a preferiu se acolher ao meu lado.
.jpeg)
