Minha primeira cachorrinha chegou até mim como lar temporário. Vivemos juntas por quase quatro anos. Antes disso, cada uma de nós teve seus próprios altos, baixos e médios. Xuxa tinha sido resgatada de abandono, cuidada, adotada e, três meses depois, devolvida porque era “brava demais”. Me ofereci para acolhê-la, caso ela fosse com a minha cara. Duas semanas depois, eu é que não queria mais devolvê-la. Fomos criando vínculo aos poucos, e meu primeiro aprendizado foi entender que lar temporário é um golpe meticulosamente arquitetado por bichinhos que sabem exatamente como conquistar a gente.
Ela era desconfiada, reativa, cheia de limites muito próprios. Mas entendeu rápido que eu proporcionava bem-estar, então ninguém podia chegar perto de mim sem antes ouvir desaforos em forma de latido. Depois que nos encontramos, mesmo nos dias difíceis, a vida ficou no mínimo mais divertida. Aprendi sobre sinais de conforto e desconforto, sobre confiança e sobre respeitar o tempo do outro. Pouco a pouco, os passeios deixaram de ser tensos e passaram a ser divertidos, silenciosos e até relaxantes. Eu entendi que a brabeza dela era uma tentativa de se proteger do mundo. E ela entendeu que eu tentaria protegê-la a qualquer custo.
Xuxa me ensinou que olhar comunica, que confiança se conquista e que às vezes é preciso defender os próprios limites com unhas e dentes — no caso dela, dentes bem afiados. Em muitos momentos da minha vida, ela foi a razão de eu levantar da cama. A minha vidinha. A presença constante ao meu lado na rotina mais comum.
Então uma fatalidade a tirou de mim cedo demais, antes do que eu poderia compreender ou aceitar. E a culpa ainda me ronda, mesmo quando a razão tenta explicar que existem coisas impossíveis de controlar. Eu queria ter conseguido protegê-la de todos os perigos.
Acho que a despedida continua sendo a lição mais difícil que ela me deixou. Talvez porque o amor tenha ficado grande demais para caber só na...
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Minha primeira cachorrinha chegou até mim como lar temporário. Vivemos juntas por quase quatro anos. Antes disso, cada uma de nós teve seus próprios altos, baixos e médios. Xuxa tinha sido resgatada de abandono, cuidada, adotada e, três meses depois, devolvida porque era “brava demais”. Me ofereci para acolhê-la, caso ela fosse com a minha cara. Duas semanas depois, eu é que não queria mais devolvê-la. Fomos criando vínculo aos poucos, e meu primeiro aprendizado foi entender que lar temporário é um golpe meticulosamente arquitetado por bichinhos que sabem exatamente como conquistar a gente.
Ela era desconfiada, reativa, cheia de limites muito próprios. Mas entendeu rápido que eu proporcionava bem-estar, então ninguém podia chegar perto de mim sem antes ouvir desaforos em forma de latido. Depois que nos encontramos, mesmo nos dias difíceis, a vida ficou no mínimo mais divertida. Aprendi sobre sinais de conforto e desconforto, sobre confiança e sobre respeitar o tempo do outro. Pouco a pouco, os passeios deixaram de ser tensos e passaram a ser divertidos, silenciosos e até relaxantes. Eu entendi que a brabeza dela era uma tentativa de se proteger do mundo. E ela entendeu que eu tentaria protegê-la a qualquer custo.
Xuxa me ensinou que olhar comunica, que confiança se conquista e que às vezes é preciso defender os próprios limites com unhas e dentes — no caso dela, dentes bem afiados. Em muitos momentos da minha vida, ela foi a razão de eu levantar da cama. A minha vidinha. A presença constante ao meu lado na rotina mais comum.
Então uma fatalidade a tirou de mim cedo demais, antes do que eu poderia compreender ou aceitar. E a culpa ainda me ronda, mesmo quando a razão tenta explicar que existem coisas impossíveis de controlar. Eu queria ter conseguido protegê-la de todos os perigos.
Acho que a despedida continua sendo a lição mais difícil que ela me deixou. Talvez porque o amor tenha ficado grande demais para caber só na memória. Ainda converso com ela em pensamento, ainda peço que me ajude de onde ela estiver. Gosto de imaginar que existe entre nós apenas um véu invisível: ela fora do alcance dos meus olhos, mas não da minha voz. Espero que tenha levado consigo a certeza do quanto foi amada. E espero também conseguir carregar adiante tudo o que ela me ensinou — a coragem, a confiança, a força de impor limites e a delicadeza escondida por trás dos latidos. Nunca vou me esquecer dela.
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