O HOMEM QUE SE CONTA DE LONGE
Orgulho de origem
Nasceu no Crato, sertão do Ceará, lugar de sol intenso e de raízes fundas. Foi registrado em Araripe, e é desse papel antigo que se guarda seu primeiro nome no mundo. Ali viveu até os quatro anos, tempo curto no calendário, mas vasto no coração: primeiras paisagens, cheiros, vozes.
Depois, a vida o levou para Mirante do Paranapanema, interior de São Paulo. Foi ali que cresceu menino, aprendendo a correr entre ruas de terra e sonhos, carregando dentro de si o sertão nordestino misturado com o chão paulista.
E a vida, generosa, trouxe-lhe ainda mais longe. Foi Osasco quem o acolheu, cidade-mãe que o recebeu como filho, deu-lhe palco, deu-lhe trabalho, amigos e lutas. Em Oz plantou raízes de cultura e se reconheceu inteiro.
É ator. E se orgulha de carregar em cena essas três forças: a terra quente do Crato, berço que o formou; o Mirante, que lhe moldou para o mundo; e Osasco, mãe que o acolhe e lhe devolve a vida, sempre.
Cada gesto, cada palavra que oferece ao palco traz esse caldo de memórias: raízes do Ceará, caminhos de São Paulo, e o abraço maternal de Osasco.
Há, nele, uma urgência mansa de dizer. Não sabe se é amor à vida ou apenas o relato daquilo que a vida lhe deixa nos bolsos. Mas sente — e isso lhe basta — que as palavras precisam sair, uma após a outra, talhadas como vidro, polidas como metal antigo, até ganharem o brilho das coisas que se guardam.
Nunca quer ser o herói da própria história. Prefere narrar-se como quem espia pela fresta de uma janela, vendo o menino, o adolescente e o homem caminharem pela mesma rua — cada um com seu passo, cada um com sua pressa.
Escrever é como quem acende um lampião numa rua escura: para iluminar a si mesmo e para que outros, que passam por ali, encontrem um lugar onde pousar os olhos. É o seu jeito de dar de beber aos que têm sede de histórias.
Sabe escolher as palavras como quem escolhe a faca para cortar o pão:...
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Orgulho de origem
Nasceu no Crato, sertão do Ceará, lugar de sol intenso e de raízes fundas. Foi registrado em Araripe, e é desse papel antigo que se guarda seu primeiro nome no mundo. Ali viveu até os quatro anos, tempo curto no calendário, mas vasto no coração: primeiras paisagens, cheiros, vozes.
Depois, a vida o levou para Mirante do Paranapanema, interior de São Paulo. Foi ali que cresceu menino, aprendendo a correr entre ruas de terra e sonhos, carregando dentro de si o sertão nordestino misturado com o chão paulista.
E a vida, generosa, trouxe-lhe ainda mais longe. Foi Osasco quem o acolheu, cidade-mãe que o recebeu como filho, deu-lhe palco, deu-lhe trabalho, amigos e lutas. Em Oz plantou raízes de cultura e se reconheceu inteiro.
É ator. E se orgulha de carregar em cena essas três forças: a terra quente do Crato, berço que o formou; o Mirante, que lhe moldou para o mundo; e Osasco, mãe que o acolhe e lhe devolve a vida, sempre.
Cada gesto, cada palavra que oferece ao palco traz esse caldo de memórias: raízes do Ceará, caminhos de São Paulo, e o abraço maternal de Osasco.
Há, nele, uma urgência mansa de dizer. Não sabe se é amor à vida ou apenas o relato daquilo que a vida lhe deixa nos bolsos. Mas sente — e isso lhe basta — que as palavras precisam sair, uma após a outra, talhadas como vidro, polidas como metal antigo, até ganharem o brilho das coisas que se guardam.
Nunca quer ser o herói da própria história. Prefere narrar-se como quem espia pela fresta de uma janela, vendo o menino, o adolescente e o homem caminharem pela mesma rua — cada um com seu passo, cada um com sua pressa.
Escrever é como quem acende um lampião numa rua escura: para iluminar a si mesmo e para que outros, que passam por ali, encontrem um lugar onde pousar os olhos. É o seu jeito de dar de beber aos que têm sede de histórias.
Sabe escolher as palavras como quem escolhe a faca para cortar o pão: afiadas o bastante para ofender o silêncio, mas com a delicadeza de não ferir o miolo. E assim se conta — de longe — para caber mais verdade e menos vaidade.
Há nas suas memórias o cheiro do quintal molhado, a poeira da estrada, o sal do riso e o vinagre das perdas. Tudo misturado num copo de lembranças que ele vira de um gole só, com a coragem de quem sabe que recordar também embriaga.
Porque, no fundo, contar a vida é isso: brindar ao que fica e desafiar o que ainda vem.
O Apito e a Correnteza
A urgência mansa de dizer começa ali, no lugar onde a terra tem cheiro de chuva e o céu parece mais perto. Mirante do Paranapanema, pequena como uma promessa de mãe, fica deitada entre canaviais e estradas de terra batida, com casas baixas e janelas sempre abertas para o vento.
O apito do trem é a música que marca as horas. Ele vem de longe, arrastando uma melodia de ferro, até se perder a uns dez quilômetros, na estação que parece o fim do mundo. É para lá que os olhos do menino sempre viajam, como se cada sopro do apito fosse um chamado para descobrir o que há depois da curva dos trilhos.
É nesse cenário que, um dia, ele decide se jogar no rio. Não sabe nadar — e talvez seja justamente essa ignorância que lhe dá coragem. A correnteza o toma como se fosse um galho solto e o leva rápido, girando, para o perigoso desembocar sob a ponte do trem. A madeira e os trilhos quentes lá em cima fazem sombra sobre as águas turbulentas.
Por um instante, tudo é verde-escuro e silêncio, como se o rio fosse um mundo à parte. Quando a cabeça rompe a superfície, o som volta: gritos na margem, o vento batendo no rosto e, logo depois, o apito. Longo. Cortando o ar. É como se o trem, naquele instante, não levasse apenas carga ou passageiros — leva também o menino, em pensamento, para longe da margem, para longe de Mirante.
O resgate vem rápido: um braço firme que o puxa pela goela, a água escorrendo como se quisesse ainda levá-lo. Ao pisar na terra, os pés afundam na lama, e ele respira fundo. Está vivo. E, embora não saiba, acaba de ganhar sua primeira cicatriz invisível: o desejo de ir além.
Outras lembranças se prendem a esse cenário como capim agarrado à cerca: o cheiro doce das goiabas roubadas do quintal do seu Mário; a praça central, onde os bancos de cimento guardam conversas de velhos e cochichos de namorados; as procissões lentas, seguidas de quermesses em que o som da sanfona se mistura ao aroma do pastel.
Há também o campo de futebol de terra batida, onde a bola levanta mais poeira que gols; e a venda da dona Lourdes, onde o menino gasta suas primeiras moedas em figurinhas e balas de mel. E, claro, o verão: tardes preguiçosas, quando o sol doura a pele e a infância parece não ter pressa de acabar.
É dessa mistura de perigos, prazeres e pequenas ousadias que se faz a vida em Mirante. E é dela que surge o homem que, muitos anos depois, se conta — de longe — para que ninguém confunda a memória com saudade demais.
O Comprador Mirim
Ele tem oito anos e um ofício que, para ele, é mais aventura que trabalho. O pai, homem de confiança no armazém do Seu João Vicente, lhe passa uma missão que hoje soaria impensável: somar na máquina de calcular as compras dos fregueses da roça, e nos fins de semana, o patrão entrega ao menino um talão de cheques já assinados — cheques de verdade, com tinta e responsabilidade — e o coloca sob a guarda de um motorista de caminhão.
De manhã cedo, o motor ronca ainda com o frio da madrugada, e os dois seguem pelas estradas de terra, cruzando sítios e fazendas que cercam o município. Vão em busca de amendoim, mamona e algodão — o trio que perfuma os armazéns e enche de cor os sacos empilhados.
O ritual é sempre o mesmo: o menino, sério como um adulto de gravata, pega o furador de metal e o crava no saco para colher a amostra. Cheira, olha, passa o grão entre os dedos, como se aquele exame definisse o preço do ouro. Lança o valor, passa o cheque. Negócio fechado. O povo da roça sorri diante daquele “comprador mirim” que leva a sério a função, enquanto os adultos trocam olhares cúmplices, meio divertidos, meio orgulhosos.
Mas a melhor parte vem na volta. O caminhão, carregado até a borda com fiadas de sacos de, mamona, algodão e amendoim, torna-se para ele um trono móvel. Ele sobe por cima de tudo, senta alto, o corpo todo entregue ao vento. Os cabelos curtos, sorriso no rosto, os olhos ardem de alegria, e a estrada se desenrola como uma fita sem fim.
É um estado de felicidade que não cabe no bolso. Não há brinquedo que supere aquela sensação: o peso bom da carga, o cheiro das sementes misturado ao diesel, e o prazer de chegar ao armazém para entregar, com orgulho, o feito de um pequeno gigante.
Naquele tempo, o menino não sabe — mas está aprendendo, sem lição escrita, que responsabilidade também pode rimar com liberdade.
A Partida
O menino está no ginásio, todos os domingos tem uma missão: encerar o Hospital e Maternidade São José. Latas de ceras nas mãos, uma vermelha outra branca, a primeira para os corredores e a segunda para os quartos, e lá vai ele tingindo de cera os pisos até o último ladrilho, para no dia seguinte deslizar a enceradeira pra ver seu trabalho brilhar.
Esse é o tempo em que se escreve "estudar" com caderno de capa dura e lápis apontado à faca. Na cidade pequena, as oportunidades de trabalho são tão raras quanto sombra no meio do campo. Há, para os mais jovens, um destino quase único: ser vendedor nas Casas Pernambucanas. Para ele, essa ideia soa como condenação. Não é soberba; é fome de outra coisa. Algo que não cabe entre balcões de tecido e medidas de fita métrica.
O pai, homem de poucas palavras e decisões certeiras, percebe o desconforto do filho. Resolve procurar outro chão para que o garoto possa aprender um ofício de verdade. A solução está a muitas horas de estrada, na casa de uma irmã que mora em Osasco, São Paulo.
Fala-se, na época, do SENAI como quem fala de um portal para o futuro. Lá, dizem, pode-se aprender a lidar com máquinas, metais e fogo — e sair de lá com profissão. O plano é simples e definitivo: estudar no Serviço Nacional da Indústria e, quem sabe, tornar-se caldeireiro.
A partida, no entanto, não se resume a trocar de endereço. É deixar o apito do trem, o cheiro da terra molhada, as tardes de futebol na poeira, o armazém do Seu João, as sacas de amendoim algodão e mamona, e até o vento no rosto na carroceria do caminhão. O menino sabe, mesmo sem dizer, que está embarcando numa viagem que o levará não só para outra cidade, mas para outro tipo de vida.
Quando o ônibus arranca, levando junto o silêncio da despedida, ele não quer olhar para trás. Não por orgulho, mas porque teme que a paisagem, vista pela última vez, lhe roube a coragem.
E então, ele resolve olhar, quando surge a imagem que lhe cortará a memória para sempre: o cachorrinho Yuri, correndo pela estrada de terra. Corre como quem tenta alcançar não só o ônibus, mas a própria infância do dono. Os olhos do menino se enchem de lágrimas. Chora a alma inteira enquanto vê o animal diminuir na distância, até que suas pernas já não suportam e ele para, arfando, com a língua de fora, olhando o ônibus desaparecer
Desde então, em cada despedida, Yuri está presente. Não na carne, mas no nome, na lembrança, no estímulo de amor e afeto que o acompanha pela vida inteira. Porque quem um dia foi seguido até a exaustão por um cachorro fiel sabe que nunca parte sozinho.
Trilhos e Rezas
Em Presidente Prudente, aguardam o trem que os levará a São Paulo — e, finalmente, a Osasco. A estação tem o cheiro quente do ferro e um burburinho constante, como se todo mundo estivesse sempre esperando alguém.
Enquanto o menino explora com os olhos cada detalhe — o apito ao longe, o brilho das luzes vermelhas no semáforo dos trilhos — o pai, de repente, começa a rir sozinho. É lembrança de outro tempo, quando ainda jovem, viera do Ceará trazendo as irmãs e a mãe para Osasco.
— Muito doente eu estava — conta — e disse a elas: “Não desçam do trem sem a minha presença”.
Mas numa dessas paradas, ele cochila. As mulheres, curiosas, descem. E o trem, obediente ao relógio, parte sem elas. Ao acordar, o pai sente um vazio no vagão e no coração. Olha, procura — nada. Desespero.
Na próxima estação, o trem precisa parar para reparos mecânicos. É aí que ele aluga um automóvel e corre de volta para a estação anterior. Nada. Volta, resignado e espera.
Do outro lado da história, a avó do menino — velha rezadeira, de fé valente — tinha tomado as filhas pela mão e se lançado pela linha do trem, rosário nos dedos, voz firme no ouvido de Deus: que aquele trem parasse.
Ao chegarem à próxima estação, pedem água numa casa. E a dona, sem imaginar o tamanho da providência que traz na boca, avisa: — O trem que vocês perderam ainda está parado na estação.
As três entram no vagão, e a avó, num tom que mistura triunfo e devoção, anuncia: — Se não fosse as minhas rezas, esse trem não tinha esperado.
No instante seguinte, como se obedecesse à ordem dela, o trem volta a trilhar os trilhos.
Mas voltemos ao menino, sentado no banco duro de Presidente Prudente, agora prestes a viver sua própria viagem. O apito anuncia a partida, e o trem começa a cortar o interior paulista. Cada estação tem seu pequeno espetáculo: luzes surgindo ao longe, piscando como joias no escuro, até passarem rápidas pela janela. O “telelém” do trem embala um sono doce, desses que misturam sonho e paisagem.
Quando acorda, Osasco já o recebe. De matulão nas costas, como quem vem de longe — do sertão, do interior, do Brasil profundo — segue com o pai por uma rua que leva ao bairro do Km 18. Ali, a casa da tia é o primeiro porto dessa nova vida.
Primeiras Chuvas
Osasco não é só cidade — é barulho. O menino, acostumado ao apito distante do trem, agora sente o chão vibrar quando as composições passam a poucos metros. Os trilhos, ali, não cortam o horizonte: atravessam as ruas, quase encostando nas casas, como vizinhos intrometidos.
O cheiro também é outro: ferro, óleo queimado, fumaça de chaminé. O ar carrega um peso que não se encontra no interior, mas junto dele vem a promessa de oportunidades, como se cada som metálico fosse um anúncio de futuro.
A primeira noite é na casa da tia, no Km 18, mas já há um endereço certo para começar a nova vida: uma casa alugada, bem próxima à linha do trem. O pai fala dela como quem fala de um abrigo definitivo, um canto para recomeçar.
Mas, no dia seguinte, quando vão levar as coisas para o novo lar, o céu desaba. Não é chuva mansa de verão; é um rompimento de comporta. Em pouco tempo, as ruas se transformam em rios barrentos, e a água começa a invadir as casas. Naquela que seria a nova morada, sobe rápido, implacável, até alcançar um metro e sessenta de altura.
O que ainda nem havia começado, já se desfaz. Móveis boiam, roupas se encharcam, e até o silêncio fica pesado. É como se a cidade dissesse: "Aqui não há espaço para ilusões".
Depois da água, vem a decisão que parte a família em dois pedaços. A mãe segue com o pai para a casa de uma tia; o menino e o irmão vão para outra, na Vila Nova Osasco. A cidade grande já se apresenta sem cerimônia: ao mesmo tempo que oferece portas, fecha outras. Ainda assim, o menino guarda, no fundo do peito, o mesmo impulso que sentira no rio de Mirante — o de não se deixar afogar.
Entre o Balcão e as Máquinas
O destino não o leva ao SENAI como o pai imaginara. O primeiro trabalho na cidade grande é no bar do tio, no Km 18 — uma esquina que mais parece palco, onde todos os tipos de gente encenam o drama e a comédia da vida.
Ali se juntam cachaceiros de fala arrastada, jogadores de bilhar com olhar de águia e mãos de cirurgião, e até profissionais do taco, que viajam pelas mesas como artistas de um circo silencioso. Há também as mulheres que vêm dos arredores, atraídas pela proximidade de vários quartéis. Elas chegam sorrindo, sapatos tilintando no ladrilho, perfume misturado ao cheiro de álcool e fumaça.
Atrás do balcão, o menino já garoto, aprende rápido. Segura o copo com firmeza, enche de cerveja, e ouve histórias que nunca estariam nos livros do ginásio. Os malandros do jogo de bola 7 o tratam com um certo carinho cúmplice — e é de um deles que vem a primeira cerveja, empurrada como presente e rito de passagem. O gosto amargo fica na boca, mas a lembrança, na memória.
Ainda assim, o estudo permanece como compromisso. Sai do bar para as aulas do ginásio, carregando no corpo o cheiro de fumaça e no caderno as lições do dia. O balcão é sua escola paralela, onde aprende a medir pessoas pela forma como seguram um copo ou pelo modo como olham para o taco de bilhar.
O bar dura até que uma oportunidade o chama por outro nome. Na Fundação Bradesco, passa 90 dias entre bancadas e ferramentas, desmontando e montando máquinas de escrever — Olivetti Línea 88, Remington — como quem abre e reconstrói relógios de precisão. Aprende a respeitar cada peça, cada parafuso, cada ajuste.
Mas, como nas estações do trem de sua infância, a vida faz nova parada. Deixa as máquinas e vai parar na Prefeitura de Osasco. Aos 15 anos, começa como mensageiro — o que hoje se chama office boy — carregando papéis, recados e pequenas urgências pelos corredores do serviço público. Sem saber, dá os primeiros passos na trajetória que o fará conhecer a cidade não só pelas ruas, mas também pelos bastidores do poder.
Pelos Corredores da Cidade
Aos 15 anos, com a pasta de couro gasta e o andar apressado, o menino — agora quase rapaz — se torna mensageiro da Prefeitura de Osasco. O uniforme é simples: calça social, camisa clara e sapato lustroso. Mas a verdadeira marca é o jeito de cruzar os corredores como quem decifra um labirinto cheio de portas e segredos.
A rotina começa cedo. Ele pega no protocolo os envelopes e documentos que devem atravessar a cidade, saltando de um prédio a outro, de um gabinete para uma repartição distante. O trabalho exige pressa, mas ele aprende a aproveitar cada trajeto: vê o comércio abrir, ouve o pregão dos feirantes, sente o cheiro do pão saindo do forno das padarias. Conhece cada atalho, cada rua que encurta caminho, cada ladeira que cansa menos.
Dentro da Prefeitura, ele é invisível e, ao mesmo tempo, está em toda parte. Pode passar por uma reunião de gabinete e, logo depois, estar na copa, ouvindo a prosa solta dos servidores antigos. Vê vereadores em disputa acalorada, prefeitos de fala ensaiada, e também porteiros que sabem mais segredos que qualquer assessor.
O salário é pouco, mas a experiência é muito. Ele aprende a lidar com gente de todo tipo: o chefe apressado que cobra antes de dizer bom-dia, a secretária que oferece café e um sorriso, o servidor mal-humorado que só amolece com conversa boa.
É ali que ele percebe que a cidade não é feita apenas de ruas e praças: ela também vive dentro daqueles corredores, em mesas cobertas de papel, em telefones que não param de tocar, em carimbos que marcam o tempo como um relógio.
E é ali, também, que surgem as primeiras histórias saborosas de juventude — aventuras e pequenas ousadias que ele guarda para contar, com riso nos olhos, quando lembra da época em que a Prefeitura era o seu território de descobertas.
O Cangote e a Cidade
Na Prefeitura, o garoto — alto, magrelo, tímido de fala, mas dono de um sorriso que abre portas — chama a atenção. E não é só das moças da secretaria. Os olhares vêm também de um outro público, sempre atento aos garotos novos que circulam por ali.
Um deles, treinador de futebol de meninos num clube da cidade, começa a aparecer com frequência na Secretaria de Educação e Cultura. É homem querido na administração pública, desses que todo mundo cumprimenta, mas que carrega uma segunda intenção por baixo do paletó.
Primeiro, é conversa fiada. Depois, convites para “bater um papo” no banheiro. O garoto, ingênuo no começo, vai percebendo aonde aquilo leva. Até que, num desses encontros, o treinador pede: — Dá um beijo no meu cangote.
O rapaz recusa como quem leva choque. — Epa! Sou viado, não. A bicha aqui é você! — Solta, seco e rindo, como quem corta o jogo no meio.
O caso poderia ter morrido ali, mas a presença constante do homem não passa despercebida pela chefia. A chefe, desconfiada, pede ao diretor que averigue. Chamado à sala, o garoto não exitou: conta a história inteira, com todos os detalhes que cabem sem ferir o ouvido de autoridade.
No dia seguinte, o recado é dado: o treinador não deve aparecer mais por ali. E assim se encerra aquele capítulo.
Mas a notícia, como sempre acontece nas cidades, corre mais rápido que trem. A “bicharada” local — como se diz na época, entre risos e códigos — passa a cercar o garoto, cada qual tentando sua sorte, todos querendo provar se, por trás da timidez, há mesmo resistência.
O garoto, já vacinado pelo episódio do cangote, mantém-se no controle. Afinal, a vida lhe ensina, desde cedo, que não basta saber andar pelos corredores da Prefeitura — é preciso saber escapar das armadilhas deles também.
Do Garrafão ao Palco
É num intervalo de rotina que o convite chega. O responsável pelo Departamento de Esportes da Prefeitura o chama para treinar basquete numa escola da cidade. O argumento é simples: alto, braços compridos — um corpo feito sob medida para o garrafão.
A proposta vem com privilégio: três tardes por semana, ele está liberado do expediente para os treinos. Ele topa, ainda que seu uniforme seja improvisado: um calção feito de saco de açúcar, com elástico costurado pela mãe, que range um pouco quando esticado demais.
Durante três meses, ele corre pela quadra, arremessa bolas, aprende jogadas, mas nunca se apaixona pelo esporte como dizem que deveria. Até que um dia, ao atravessar o pátio do colégio, ouve um burburinho diferente. Segue o som e encontra um grupo reunido no salão: no centro, atores improvisam uma cena.
Não há cestas, apitos ou correria. Há palavras. Palavras que saem carregadas de emoção, que parecem moldar o ar, que prendem o olhar de todos.
O treino de basquete fica para trás sem cerimônia. No lugar da bola, ele segura um texto; no lugar das tabelas, encara a luz do palco. O que começa como curiosidade vira direção. Descobre ali um novo jogo, mais perigoso e mais fascinante: o do poder público e o poder da palavra.
É o início de um caminho que o levará a falar para plateias, a contar histórias, a transformar o silêncio em aplauso. O garrafão que o espera no esporte é trocado por outro tipo de arena — e, dessa vez, o jovem sabe que está no lugar certo.
A Luz e a Voz
O primeiro ensaio parece coisa pequena: um grupo de jovens reunido no salão do Paço Municipal, um texto rabiscado em folhas soltas, um professor que fala mais com as mãos do que com a boca. Mas, para ele, é como atravessar uma porta que não se fechará nunca mais.
Há algo naquele espaço que não existe no bar do tio, nem nas quadras de basquete, nem nos corredores da Prefeitura: a possibilidade de ser outro sem deixar de ser ele mesmo. A cada fala decorada, ele descobre um pedaço novo da própria voz; a cada gesto no palco, percebe que pode fazer o público rir, silenciar ou pensar — tudo sem precisar levantar a voz.
As primeiras apresentações são modestas, no próprio Auditório, com plateia de professores, colegas e pais. O figurino é improvisado, a iluminação vem de refletores emprestados, e o cenário é feito com as mãos de quem acredita que beleza não depende de dinheiro.
Mas, para o jovem, aquilo já é grandioso. A cada aplauso, sente uma espécie de calor subir pelo corpo, não de vergonha, mas de pertencimento. É como se, pela primeira vez, tivesse encontrado um jogo em que a bola é a palavra — e ele sabe conduzi-la.
O teatro começa a ocupar não só suas tardes, mas também suas conversas, seus sonhos, até mesmo o jeito de andar e de olhar. No trabalho, na Prefeitura, alguns já percebem: o jovem, agora escriturário, tem agora um brilho diferente nos olhos, como quem carrega um segredo bom.
E, embora ainda não saiba, está se formando ali o embrião de duas trajetórias que se entrelaçarão para sempre: a vida pública e a vida artística. Uma dará voz à outra.
O Severino da Cidade
O aprendizado maior não vem sob as luzes fixas de um palco italiano, mas no asfalto esburacado da periferia. Ele sai dos teatros centrais e vai levar cena onde a vida também pede poesia: na carroceria de caminhões adaptados, em salas apertadas de associações de bairro, no altar de igrejas transformadas em espaço cênico por uma noite.
Ali, ele aprende que o teatro não é só para quem compra ingresso: é para quem precisa ouvir, ver e sentir. A cada apresentação improvisada, o público se aproxima não apenas das histórias, mas também dele. E o jovem ator — agora já moldado pelas ruas, pela Prefeitura e pela palavra — começa a entender que o palco é apenas uma das muitas formas de estar com as pessoas.
É nesse ritmo, andando entre bairros e comunidades, que ele começa a ganhar espaço em palcos de São Paulo. As salas maiores, as plateias mais exigentes, os críticos atentos: Sábato Magaldi e Professor Clóvis Garcia. “A Saga da Mãe d´Ouro”, de Jurandyr Pereira - Teatro Aplicado – Avenida Bandeirantes, o primeiro trabalho em São Paulo. Mas a surpresa maior ainda está por vir.
Ela vem na forma de um convite: interpretar o Severino, protagonista de Morte e Vida Severina, de João Cabral de Melo Neto, com direção de Ruben Pignatari, no Teatro do SESI, em Osasco. O papel exige mais que técnica; pede alma. Severino é retirante, é resistência, é fome e sede de dignidade — e o jovem ator reconhece nele ecos de sua própria história, das partidas, das perdas, das chegadas.
Quando a estreia acontece, o silêncio da plateia é tão denso que parece poder ser tocado. No fim, o aplauso não vem só pela atuação, mas pela verdade que ele leva à cena. E assim, entre o rio de Mirante e o palco de Osasco, nasce o ator profissional — não apenas intérprete de palavras, mas autor da própria caminhada.
A Estrada do Ator
Depois de Severino, nada mais é como antes. O nome começa a circular não só nos corredores da Prefeitura, mas também nas rodas de artistas, nos camarins improvisados e nas conversas de quem frequenta os teatros da Grande São Paulo. O rapaz alto, magro, de fala mansa, já não é apenas “o menino da Prefeitura”: é o ator que deu corpo e alma a um dos personagens mais marcantes da poesia brasileira.
Vêm novos convites. Grupos de teatro o querem para peças de rua, montagens escolares, festivais amadores. Cada produção é um laboratório: um dia ele faz dramas carregados de dor, no outro, comédias populares que arrancam gargalhadas em pátios e praças.
O palco agora tem várias formas: pode ser o chão quente de uma quadra poliesportiva, o degrau da escadaria de um prédio público, ou a caixa preta iluminada de um teatro com nome e tradição. Cada lugar lhe ensina algo novo: a projetar a voz contra o vento, a improvisar quando a luz falha, a medir a respiração pelo compasso da plateia.
Mas o que mais o move não são apenas os papéis, e sim as pessoas que cruzam seu caminho. Colegas de cena que viram amigos de vida, diretores que veem nele não só talento, mas disciplina, e públicos que carregam no olhar uma gratidão silenciosa por terem sido tocados pela arte.
A estrada do ator se confunde com a do homem público: o contato com as comunidades, o respeito aos diferentes mundos que cabem numa cidade como Osasco, o entendimento de que cultura não é luxo, e sim necessidade.
Cada peça é um pedaço de biografia, e cada aplauso, um acordo tácito: o de continuar contando histórias, enquanto houver gente para ouvir.
Severino e o Deus Baco
Naquele dia, o destino resolve brincar com o ator. Ele sai do trabalho, atravessa a rua como quem apenas busca um café, mas encontra na padaria um copo que logo se multiplica em outros. O pão é deixado de lado, o álcool toma lugar, e Baco, o velho deus das embriaguezes, faz-se companheiro de balcão.
Horas depois, como quem desperta de um lapso, lembra-se: há espetáculo. E não qualquer um, mas Morte e Vida Severina. No elenco, mais de trinta pessoas. Na plateia, casa cheia. E, para temperar a ousadia, naquela noite especial, a presença discreta e atenta de Ana de Hollanda — irmã de Chico, autor das músicas que atravessam a montagem.
O ator chega ao teatro trôpego de dentro, mas firme por fora. No camarim, tenta lavar o rosto, mergulha a cabeça em água fria, busca nas mãos a sobriedade que a boca já perdeu. Nada. O corpo ainda é território de vinho, mas o palco não pode esperar.
O terceiro sinal soa. As enxadas batidas em ritmo de corte rasgam o silêncio. É a deixa. E lá vai ele, Severino entre altos e baixos de cenário, conduzido por um texto que não admite improviso.
— Meu nome é Severino, não tenho outro de pia…
Os versos de João Cabral se sucedem como quem caminha sobre corda bamba. O público vê Severino. Ele, por dentro, não sabe se é ator, personagem ou bêbado em transe. Não se lembrará depois de cada gesto, de cada entonação, nem de como atravessou o espetáculo inteiro. Houve quem diga que não é ele quem fala, mas Baco, soprando poesia na sua boca.
Quando a luz baixa, o ator não sabe o que a plateia viu: um desastre ou um milagre. Mas sabe no dia seguinte o preço da ousadia: uma carta de advertência por estar atuando fora de seu estado normal de comportamento repousa em sua mesa, fria como sentença.
Ele aprende. Desde então, nunca mais um gole antes de entrar em cena. Para falar poesia num botequim, sim, uma cerveja cai bem — companhia do verso, parceira do violão. Mas, diante da ribalta, não. O palco pede lucidez. E o ator, desde aquele dia, nunca mais duvida disso.
O Rito da Sobriedade
O Severino bêbado daquela noite não morre no palco. Ao contrário, sai de lá renascido. O erro, vestido de advertência, se transforma em aprendizado, desses que não se apagam com o tempo.
Ele percebe que o teatro não é brincadeira de juventude nem palco para exibicionismo. É um rito. E como todo rito, pede respeito, disciplina, entrega total. Ali não cabe dividir a cena com o álcool: o palco exige corpo limpo, voz inteira, pensamento claro como lâmina.
Daquele dia em diante, só entra em cena com a sobriedade de quem compreende que o teatro é uma bebida mais forte que qualquer outra. Basta subir ao palco para se embriagar de palavras, gestos e silêncios. Não há cerveja, vinho ou cachaça que concorra com o êxtase de ouvir uma plateia suspender a respiração diante de um verso.
É um rito de passagem. Do moleque atrevido que achava que podia enfrentar o mundo em qualquer estado, nasce o ator que reconhece no palco não apenas diversão, mas destino. E cada novo espetáculo, a partir dali, é celebrado como missa profana: não com goles de cachaça, mas com o vinho invisível da própria arte.
Entre Palcos e Papéis
O SESI de Osasco vira casa, trincheira e escola. Depois de Morte e Vida Severina, novas montagens vêm como rios que não cessam de correr. Sob a direção de Ruben Pignatari, ele mergulha em Depois do Breakfast, inspirado num texto chileno do Grupo Alephi — um teatro de inquietação, de denúncia, de sangue latino.
Logo, o chamado infantil o arrebata: O Castelo de Mulumi, Libel, a Sapateirinha, A Menina das Estrelas, de Jurandyr Pereira, apresentados pelo Grupo Cirandando. Ali, ele se divide entre atuar e dirigir, descobrindo que o olhar de fora do palco é tão desafiador quanto o corpo exposto sob as luzes.
Mas o passo decisivo virá com a solidão do palco: sua primeira experiência solo. O Diário de um Louco, de Nikolai Gogol, dirigido por Frank Delgado. Sozinho em cena, apenas a voz, o corpo e a insanidade do personagem para segurar a plateia inteira. É uma prova de fogo, uma experiência que deixa marcas profundas no ator.
Vêm ainda outros mestres e as montagens se acumulam como páginas de um grande caderno: Quem Acha Graça nos Papéis da Praça, Direção de Moysés Américo, A Lenda do Vale da Lua, direção de Ricardo Dias. Zumbi, direção de Ibsen Wilde, Meu Tio – o Iauaretê, direção de Nivaldo Santana, Poesificando, direção de Teotônio Sobrinho...
Cada espetáculo é mais que uma peça; é um pedaço de vida, um encontro, uma cicatriz, uma nova descoberta do que significa ser ator.
Mas, mesmo enquanto os palcos o puxam, nunca larga o outro lado da estrada: o serviço público. De dia, papéis, carimbos, documentos. À noite, ensaios, luzes, versos. A vida é dividida entre relatórios e roteiros, entre gabinetes e camarins, entre o peso da máquina burocrática e a leveza incandescente da arte.
É como se ele caminhasse com um pé no concreto do serviço público e outro no tablado do palco — e, de algum modo, ambos se sustentam.
O Peso e a Leveza
Antes de aprender o equilíbrio, vem o rompimento. Há um tempo em que o serviço público fica para trás e a vida se sustenta apenas do fazer artístico. É sobreviver do palco, da bilheteria incerta, das apresentações em praças, salões e espaços improvisados. Uma vida mambembe, que divide o pão em duas metades: a fome e a esperança.
Ser ator sem fama é carregar a arte nos ombros como um estandarte invisível. Cada passo no tablado, cada voz lançada ao vento, cada aplauso conquistado com suor e risco — tudo é alimento e aprendizado. Não há glamour. Há disciplina, coragem e uma fé quase religiosa no poder da cena.
É assim que descobre que a vida pode se escrever em duas linhas paralelas. De um lado, o trabalhador da arte, artista de luta, buscando no público não só reconhecimento, mas também o sustento da própria casa, da família que se forma. De outro, o servidor público, trabalhador da cultura, carregando papéis, lidando com o peso da máquina, mas aprendendo, no silêncio dos gabinetes, o funcionamento de uma engrenagem capaz de mover também a arte.
E então, em vez de oposição, vem o encontro. As duas metades começam a dialogar: o olhar do ator, que sabe da dureza do palco sem fama, e o olhar do gestor, que pode tornar a caminhada mais leve para seus pares. O artista, que sente no corpo as dores do ofício, se transforma no gestor disposto a aliviar as dores dos outros artistas. É como se a vida tivesse lhe dado o dever de construir pontes: entre o público e a arte, entre o poder e a criação, entre o pão e o sonho.
O caminho, assim, se torna mais harmonioso. Não deixa de ser duro, mas ganha propósito. E, com propósito, até o peso se torna leve, porque é dividido entre irmãos da mesma estrada.
O Gestor de Cultura
Não é a caneta que faz nascer o gestor público de cultura. É o palco. São as noites mal dormidas, os cachês minguados, os cenários improvisados no fundo de associações de bairro, as palavras ditas em cima de carroceria de caminhão. É ali que aprende o que a engrenagem da cultura realmente significa: não um luxo, mas uma necessidade vital.
O ator que carregava cenários nas costas, que já sentiu o peso das contas atrasadas e das mãos calejadas de montar palco, entende como poucos as dores de seus pares. Sabe o que é ensaiar sem luz elétrica, apresentar-se sem cachê, carregar figurino em sacola plástica no ônibus lotado. E sabe também a mágica: ver um público inteiro silenciar diante de um verso, ou uma criança rir como se descobrisse o mundo.
Quando ele retorna ao serviço público, já não é apenas um servidor. É um artista que conhece a máquina por dentro e por fora. Entende o peso da burocracia, mas também sabe a urgência do ofício de artista. E é nessa encruzilhada que nasce o gestor de cultura: não como alguém que manda, mas como alguém que traduz — que pega a língua fria dos decretos e a transforma em pão, luz e espaço para a criação.
O gestor que surge dali não se vê acima dos artistas, mas ao lado. Trabalha para que o colega não precise ensaiar com dor no lombo de carregar cenário sozinho; para que a cantora não precise escolher entre pagar o transporte ou cantar; para que o grupo de teatro não precise mendigar um palco.
Aprende cedo que ser gestor de cultura é mais que administrar recursos: é cuidar da dignidade de quem cria. E cuidar da dignidade do artista é cuidar da alma da cidade.
A Cidade como Palco
Depois de tantas idas e vindas, de noites de ensaio e dias de repartição, há um momento em que a voz interior grita mais alto:
— Sou um homem a serviço da arte e da cultura!
E é como se o destino tivesse ouvido. Vem o convite para dirigir o Teatro Municipal de Osasco. Já tem a experiência de ter estado à frente do Espaço Cultural Grande Otelo, também na cidade, e sabe que o desafio não será pequeno. Aceita.
São dois anos intensos, em que o aprendizado não vem apenas do palco, mas também das entranhas da gestão pública. Administrar um teatro é, ao mesmo tempo, lidar com artistas de ego inflado e com orçamentos acanhados, com o sonho da cena e a frieza da contabilidade. É descobrir que o bem público não se improvisa: precisa de regras, normas, responsabilidade. Cada centavo investido em cultura tem que ser defendido como quem defende um filho.
Dessa escola prática, surge outro chamado: assumir a Diretoria de Cultura do Município de Jandira. Ali, novamente, dois anos de trabalho árduo, aprendendo com as diferenças, ampliando o olhar, testando ideias. É a certeza de que a cultura, para existir como política, exige não apenas paixão, mas também técnica e gestão.
Depois, Osasco o recebe de volta. E é na sua cidade, na terra que o adotou desde os tempos do Km 18, que ele encerra a carreira no serviço público. Em 2021, a aposentadoria chega. Não como um ponto final, mas como ponto de celebração.
Há felicidade, sim — imensa. Porque ali se fecha um ciclo: do menino que um dia carregou sacos de amendoim no interior, ao homem que carregou nos ombros o peso e a beleza da cultura pública. O palco agora não é apenas de madeira: é a cidade inteira.
O Retorno e a Palavra
A aposentadoria parece ter fechado o ciclo. Mas, como em toda boa história, o destino ainda guarda capítulos extras. É então que a figura luminosa do Secretário da Cultura de Osasco bate à porta para convidar o velho companheiro de jornada a voltar e continuar contribuindo.
O convite não é apenas para ocupar uma função; é um chamado de confiança, amizade e compromisso. Claro que topa. E ali está, de novo, entre artistas da cidade, participando de projetos, programas, Conselhos e debates que dão corpo a uma gestão cultural viva e necessária.
Não para por aí, quase aos setenta anos, acaba mergulhando em uma causa que amplia seu horizonte humano: a luta contra o racismo, a intolerância religiosa, a defesa da cultura negra, indígena e dos refugiados. É uma nova escola, tão ou mais importante quanto qualquer palco: a escola do compromisso com a dignidade de quem é historicamente silenciado.
Essa vivência abre outra porta, uma que o chamava há muito tempo, mas que ficara escondida sob pilhas de relatórios e editais: a porta da literatura. Volta-se ao que sempre esteve em sua raiz — as letras, a poesia, a prosa.
Ele revisita sua formação em Letras, Literatura e Jornalismo, retoma o ofício de estudante, pesquisador, aprendiz. E, agora, com o tempo como aliado e não como patrão, começa a rascunhar páginas que misturam memória e invenção, lembrança e metáfora, a vida vivida e a vida sonhada.
O primeiro livro de contos e poesias já se anuncia, assim como este, que nasce entre lembranças e pensamentos. Porque, no fim das contas, a aposentadoria não é encerramento — é prólogo. O palco continua sendo a vida. E a caneta, o instrumento mais fiel de um ator que, enfim, se reconhece também como escritor.
Quando a Palavra Pede Voz
O palco nunca deixa de ser casa, mas aos poucos se transforma em memória. As luzes, as falas, os gestos — tudo continua vivo, mas já como lembrança acesa, não como cotidiano. É hora de outro instrumento assumir o comando: a palavra escrita.
O ator percebe que, em cada cena que viveu, em cada ensaio, em cada conversa de bastidor, sempre houve um narrador escondido dentro dele. Um cronista atento às frestas do mundo, um poeta que guardava no bolso versos ainda não ditos. Agora, sem o peso da rotina de repartição, sem a pressa de ensaios noturnos depois do expediente, esse narrador começa a sair para a superfície.
Ele reencontra sua própria formação: os estudos de Letras, Literatura e Jornalismo voltam a fazer sentido, como se o destino houvesse apenas colocado esses saberes em repouso, esperando a hora certa. A hora, enfim, chega.
Vêm os primeiros contos, rabiscados entre memórias e invenções. Vêm poemas que misturam infância, política, amor e raiva, sem pedir licença. Vêm crônicas que dão voz às ruas de Osasco, às histórias de Mirante, às vozes tantas que o acompanharam.
Não é uma despedida do teatro. É continuidade. O palco de madeira cede lugar à página em branco, mas o público permanece: agora, são leitores em vez de plateias. O gesto do ator se transforma em metáfora; o silêncio entre as falas vira reticências; a respiração do personagem, agora, é pontuação.
O homem de teatro entende que a literatura não é apenas um desvio, mas a estrada natural depois de tudo. O livro em gestação, feito de contos e poesias, é apenas o começo. Este outro — memorial, de lembranças — se ergue como testemunho de uma vida dividida entre palco e gabinete, entre interior e cidade, entre arte e gestão.
E assim, com caneta na mão, ele se reconhece de novo: ator, sim. Gestor, também. Mas, sobretudo, escritor.
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