Entrevista de Sabine Nadja Popoff
Entrevistada por Maurício Rodrigues Pinto
Brasília, 03 de outubro de 2025.
Projeto ADB - Memórias da Diplomacia Brasileira
Entrevista ADB HV028
Realização Museu da Pessoa
Transcrita por Dulce Santana
Revista e editada Maurício Rodrigues Pinto e Luiz Egypto
00:00:24
P1 — Agora que já estamos gravando, eu queria agradecer mais uma vez a sua generosidade em nos receber aqui para participar desse projeto Memórias da Diplomacia Brasileira. Para iniciar, eu queria que você se apresentasse, falando seu nome completo, a data e o local do seu nascimento.
R — Meu nome é Sabine Nadja Popoff, nasci em São Paulo, e a data, você está sendo muito indiscreto.
00:00:54
P1 — Tudo bem, tenho um registro aqui.
R — Nunca se pergunta a uma mulher a data de nascimento. Não pode, não pode. Eu tenho a idade que eu pareço.
00:01:10
P1 — Bem, Sabine, queria que você falasse, primeiro, o nome do seu pai e da sua mãe.
R — Minha mãe Ingeborg Erika Popoff, meu pai Ilia Popoff, embora pareça o contrário, que Ilia pareça ser feminino. Já tive muitos problemas de carteirinha, porque mudavam o nome, colocavam o nome do pai no lugar da mãe, o da mãe no lugar do pai...
00:01:36
P1 — Conte um pouco a história de como eles se conheceram.
R — Meu pai é búlgaro, minha mãe é alemã, e eles se conheceram durante a [segunda] guerra. Na verdade, foi um pouco antes da guerra. Meu pai foi para a Alemanha, para estudar Engenharia Civil e Arquitetura, e ele conheceu minha mãe em München, acho que eles moravam em München, tem até umas fotos. Conheceram-se e casaram-se ainda durante a guerra. Minha mãe conta que não tinha nem tecido branco, ela teve que se casar vestida de negro, acho que foi isso que deu azar, porque depois se separaram. Eles se casaram durante a guerra e por a minha mãe ter se casado com um estrangeiro, ela perdeu a nacionalidade alemã. Naquela época, era a mulher que perdia, o problema era sempre com...
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Entrevistada por Maurício Rodrigues Pinto
Brasília, 03 de outubro de 2025.
Projeto ADB - Memórias da Diplomacia Brasileira
Entrevista ADB HV028
Realização Museu da Pessoa
Transcrita por Dulce Santana
Revista e editada Maurício Rodrigues Pinto e Luiz Egypto
00:00:24
P1 — Agora que já estamos gravando, eu queria agradecer mais uma vez a sua generosidade em nos receber aqui para participar desse projeto Memórias da Diplomacia Brasileira. Para iniciar, eu queria que você se apresentasse, falando seu nome completo, a data e o local do seu nascimento.
R — Meu nome é Sabine Nadja Popoff, nasci em São Paulo, e a data, você está sendo muito indiscreto.
00:00:54
P1 — Tudo bem, tenho um registro aqui.
R — Nunca se pergunta a uma mulher a data de nascimento. Não pode, não pode. Eu tenho a idade que eu pareço.
00:01:10
P1 — Bem, Sabine, queria que você falasse, primeiro, o nome do seu pai e da sua mãe.
R — Minha mãe Ingeborg Erika Popoff, meu pai Ilia Popoff, embora pareça o contrário, que Ilia pareça ser feminino. Já tive muitos problemas de carteirinha, porque mudavam o nome, colocavam o nome do pai no lugar da mãe, o da mãe no lugar do pai...
00:01:36
P1 — Conte um pouco a história de como eles se conheceram.
R — Meu pai é búlgaro, minha mãe é alemã, e eles se conheceram durante a [segunda] guerra. Na verdade, foi um pouco antes da guerra. Meu pai foi para a Alemanha, para estudar Engenharia Civil e Arquitetura, e ele conheceu minha mãe em München, acho que eles moravam em München, tem até umas fotos. Conheceram-se e casaram-se ainda durante a guerra. Minha mãe conta que não tinha nem tecido branco, ela teve que se casar vestida de negro, acho que foi isso que deu azar, porque depois se separaram. Eles se casaram durante a guerra e por a minha mãe ter se casado com um estrangeiro, ela perdeu a nacionalidade alemã. Naquela época, era a mulher que perdia, o problema era sempre com a mulher, a mulher que se dava mal sempre. E meu pai, por ser estrangeiro, também não tinha emprego, não conseguia emprego, porque eram tempos muito duros depois da Segunda Guerra Mundial. Eles emigraram e tinham três países que eles poderiam escolher. Acho que eram Austrália, Estados Unidos e Brasil. O Brasil foi o que saiu primeiro, e eles vieram para cá, foram para São Paulo, porque a cidade estava se desenvolvendo, crescendo e precisava muito de engenheiros. Meu pai veio como engenheiro civil para trabalhar. Esqueci de mencionar que ainda na Alemanha, minha mãe era cantora de ópera, cantora lírica.
00:03:26
P1 — E ao vir para o Brasil ela continuou cantando?
R — Infelizmente, não. Se até hoje em dia para um cantor lírico é muito difícil conseguir uma colocação, imagine em 1952. Em 1952, era bem mais difícil ainda, e como estrangeira, chegando ao Brasil sem falar a língua, nem nada, ela não conseguiu uma colocação como cantora de ópera. Aliás, foi uma frustração dela a vida inteira, ela acabou trabalhando como secretária. Na Alemanha ela aprendeu datilografia como um hobby e acabou virando o sustento dela.
00:04:06
P1 — E qual foi o ano que eles chegaram aqui no Brasil?
R — 1952.
00:04:13
P1 — E você tem irmãos, irmãs?
R — Não, só fizeram a mim mesmo. Papai do céu jogou a receita fora.
00:04:26
P1 —Seus pais em algum momento te contaram a história do dia do seu nascimento?
R — Do dia do meu nascimento? Não, eu acho que não. Não me lembro, não me lembro de nada especial a respeito disso. Sei que fui muito esperada, demorou cinco anos desde que eles estavam casados para eu nascer, mas não sei nada de muito especial, não.
00:04:53
P1 — Tudo bem. A sua família já morava em São Paulo quando você nasce. Em qual bairro de São Paulo vocês moravam?
R — Era na Bela Vista.
00:05:03
P1 — E que lembrança que você tem da Bela Vista? Você passou a infância nesse bairro?
R — Sim, morei até os 18 anos na Bela Vista. A minha lembrança é dos italianos, é o bairro dos italianos, meus vizinhos todos eram italianos. Eu aprendi várias palavras em italiano, aprendi a xingar em italiano, acho que o italiano foi a primeira língua de que eu aprendi palavrões. E comi comida italiana muito boa, porque a minha vizinha, que morava no andar debaixo do meu prédio, era de uma família de italianos, e eu sempre ia comer com eles. Era a frustração da minha mãe, porque eu nunca jantava, nem almoçava em casa, porque a mãe dos meus amiguinhos era aquela mamma italiana. Fazia uma comida que era uma delícia.
00:05:50
P1 — E você morava em apartamento, em um prédio. Que brincadeiras, que coisas que você gostava de fazer na sua infância?
R — Nós brincávamos muito de elástico, de amarelinha, brincava de tocar a campainha na casa dos outros e sair correndo, de passar trote pelo telefone, aquelas coisas que hoje em dia não se faz mais. Aquela coisa de criança levada.
00:06:21
P1 — E além dos seus pais, tinham outros familiares seus morando em São Paulo?
R — Não, aliás, eu nunca tive essa sensação de ter familiares. Não tinha tios, tias, nem primos, não tinha irmãos, era pai, mãe e só. Meus pais tinham uns amigos búlgaros, aliás, eram mais amigos do meu pai, que foram meus padrinhos. Minha madrinha e meu padrinho. Mas foi por pouco tempo, depois eles se afastaram. Foi sempre mais a minha mãe e eu, porque meus pais acabaram se separando quando eu tinha, acho que uns cinco, seis, sete anos. Então, foi uma vida bem eu e ela só.
00:07:11
P1 — E qual é a sua primeira lembrança de escola?
R — Eu estudei em escola pública em São Paulo, naquela época as escolas públicas ainda eram boas. Aliás, eram consideradas as melhores. Estudei no Instituto de Educação Caetano de Campos, na Praça da República [região central de São Paulo], que era um colégio muito prestigioso. Estudei até o quinto ano e depois fui para um colégio alemão, na Praça Roosevelt [no Centro de São Paulo] ali perto também. Foi lá que eu aprendi línguas, aprendi o inglês, aprendi o francês, desenvolvi mais o alemão, aprendi a escrever e ler em alemão, que antes eu só falava.
00:07:59
P1 — Você falava em casa com a sua mãe?
R — Com a minha mãe, porque minha mãe veio para o Brasil sem saber uma palavra de português, então a primeira língua que eu aprendi foi o alemão. Minha mãe falava o português muito quebrado. Foi depois, no colégio, que eu comecei aprender melhor o português, com os amigos e com os professores.
00:08:25
P1 — Sim, e você disse, então, que estudou em colégios ali na região central...
R — O colégio alemão chamava-se Visconde de Porto Seguro, eu estava tentando lembrar. Era o Visconde de Porto Seguro, que hoje não é mais na Praça Roosevelt, hoje acho que está localizado em um daqueles bairros que se desenvolveram mais em São Paulo [referindo-se ao bairro do Morumbi, na Zona Sul de São Paulo].
00:08:52
P1 — Quando criança, tinha algum sonho ou fantasiava alguma profissão que você queria exercer quando crescesse?
R — O que eu me lembro é que eu tinha muita raiva quando me perguntavam: “O que você quer ser quando crescer?” Uma criança nunca sabe o que ela quer ser quando vai crescer. Nunca não, algumas, às vezes, até sabem, mas é raro. Então, de pirraça, eu respondia: “Olha, eu vou trabalhar no circo ou vou ser lixeira...” Morria de raiva que me fizessem essa pergunta. Hoje, tenho todo o respeito, mas naquela época falávamos assim, porque achava que eram profissões menos valorizadas, então, era só para a pessoa parar de me perturbar.
00:09:38
P1 — E como você era na escola? Se você também teve alguma figura, professor, professora, que tenha sido marcante na sua formação?
R — Marcante mesmo só tive depois, no colégio alemão, em que eu tive um professor de alemão que era muito bravo, que todo mundo tremia nas bases. E eu o achei ótimo, porque graças a ele ser assim tão severo, ele me fez aprender a escrever muito bem, o que é uma coisa mais difícil. Mas, não, nenhum professor me impressionou muito. Eu gostava muito da professora com quem eu fui alfabetizada. Nos primeiros três anos, eu achei a escola muito interessante, gostei muito. Depois do terceiro, eu comecei a ficar aburrida, como dizem os espanhóis, comecei a achar aquela coisa muito chata, ter que ficar sentada por horas e horas. Eu olhava pela janela, o mundo lá fora parecia tão mais interessante, os passarinhos, as árvores, o sol e eu ali sentada por horas naquela cadeira dura. Eu já comecei a ficar meio ressabiada. Até o terceiro ano, eu era a primeira da turma, mas depois eu fui me desinteressando um pouco daquela coisa, que era sempre uma repetição com um pouquinho mais de conteúdo. Eu nunca gostei de escola, só continuei nela, porque minha mãe não me deixava largar. Se não fosse pela minha mãe, eu tinha virado hippie, estava por aí nesse mundo lá fora.
00:11:20
P1 — Com sua mãe trabalhando como secretária, como foi a relação que você manteve com ela nesse período, já na juventude?
R — Em que sentido você me pergunta?
00:11:44
P1 — Você não tinha familiares, e eu queria saber como era a relação de vocês duas no cotidiano.
R — Como é uma relação muito intensa de duas pessoas. Love and hate. Era aquela coisa, eu sempre fui muito rebelde. Então, eu sei que eu fui uma filha bem difícil para minha mãe, coitada.
00:12:11
P1 — Até como filha única também.
R — Só o que eu posso dizer, hoje em dia, quando eu olho para trás, eu me vendo como mãe também, no papel dela, eu sei que eu fui uma filhinha danadinha, só isso.
00:12:24
P1 — E você falou da infância, já tendo essa resistência à escola, na adolescência, na juventude.
R — Mas olha, eu sempre gostei de estudar, eu sempre tive sede de conhecimento. O que eu não gostava, que fique bem claro, era o sistema.
00:12:40
P1 — A estrutura escolar...
R — A estrutura escolar, como você era obrigado a ficar ali preso naquele lugar por tantas horas. Eu acho que eu deveria ter nascido algumas gerações adiante, quem sabe vão descobrir outro sistema que não escravize e não massacre tanto a criança. Mas eu sentia aquilo como um massacre mesmo, para mim era uma tortura ter que ficar ali tantas horas na escola. Mas não que eu não me interessasse. Eu lia muito, gostava muito de História, eu comprava aquelas revistinhas que tinha no jornaleiro, que eu me lembro, eram sobre a cultura grega, a cultura romana, eu gostava demais. Eu lia o jornal O Estado de S. Paulo – naquela época não tinha essa coisa de direita e esquerda, pelo menos eu não via dessa forma –, que era um jornal que informava muito bem. Eu tinha um amigo na adolescência, um pouco mais velho do que eu, que me encaminhou nessa linha também de me interessar por política. Então, disso eu sempre gostei. Era mais, como você disse, a estrutura, o sistema que me incomodava profundamente.
00:13:50
P1 — E pensando nesse interesse pela política, por temas ligados à História, como era para você, na sua juventude, estar em um país que naquele período ainda estava em um contexto de ditadura militar?
R — Eu tenho que confessar que eu vivi um pouco alheia àquilo tudo. Por incrível que pareça, eu não sei como isso aconteceu, eu mesma não me explico muito bem, mas eu confesso que não vivi, não vivenciei muito isso.
00:14:28
P1 — Até pensando que posteriormente você vai fazer a prova do Instituto Rio Branco e vai ingressar na diplomacia, você considera que em que momento você vai ter um interesse especial por temas como política externa?
R — Eu sempre gostei, mas não era consciente de que realmente gostava, que poderia fazer daquilo, talvez, um trabalho. O que mais me atraía era Arquitetura, porque esse meu amigo já dirigia, como eu disse, ele era mais velho do que eu, eu tinha 12 anos e ele tinha 18. Ele dirigia, andávamos pelos bairros nobres de São Paulo, para olhar as casas, admirar a arquitetura, porque ele queria mesmo fazer Arquitetura, então eu também ficava curiosa pela matéria. Eu nunca fui muito consciente de que eu tinha um verdadeiro interesse por isso. O que mais me atraía foi a carreira que eu escolhi para estudar, que foi a Psicologia. Eu não tinha pensado muito na diplomacia. Aliás, a diplomacia, quem mais me incentivou foi novamente a minha mãe. Por mim, eu não sei se eu teria entrado para essa carreira.
00:16:03
P1 — Como foi a sua experiência na faculdade de Psicologia? O que te motivou, naquele momento, a fazer Psicologia e se você chegou a trabalhar na área?
R — O que me motivou foi querer entender melhor o ser humano, que eu achei que era uma criatura ao mesmo tempo fascinante, estranha, horrorosa, maravilhosa. Era um mundo muito desconhecido, interessante, desafiador. Eu queria entender o ser humano, até hoje não entendo, confesso. E não foi a Psicologia que me ajudou a entender, de jeito nenhum. Não gostei do curso que eu fiz, estudei na UnB [Universidade de Brasília]. Quando saí de lá, não me senti preparada para ser psicóloga, porque sempre achei que era uma responsabilidade muito grande mexer com as emoções, com a cabeça das pessoas. Depois, a minha neta também fez Psicologia e, hoje em dia, eu comparo o curso dela, que ela fez no CEUB [Centro de Ensino Unificado de Brasília], com o curso que eu fiz na UnB. E olha que eu era boa aluna, não é que eu não estudasse ou não gostasse, mas eu não acho que o curso me preparou para coisa alguma. Eu saí muito insegura, talvez eu fosse muito responsável, eu não me sentisse preparada para mexer com aquilo e eu acho que eu estava certa, porque para você mexer com o ser humano, você tem que ter certa maturidade de vida também. Não adianta só aprender técnicas. Porque acho que a maioria dos psicólogos aplica certas técnicas, que em um nível não tão profundo, talvez até funcionem. Mas a minha ideia de Psicologia era uma coisa bem mais profunda, era entender o ser humano no seu âmago. E o curso de Psicologia, pelo menos na minha época, não me proporcionou isso de jeito nenhum.
00:18:33
P1 — Mas você chegou a concluir essa graduação, não?
R — Eu concluí, sim, mas aí teve uma questão na minha vida que me mudou de rota. Eu acho que eu teria seguido pela Psicologia, sim, teria feito mais cursos de extensão, de aperfeiçoamento, até eu me sentir realmente pronta para dizer: “Sim, sou psicóloga, posso ajudar alguém”. Eu fiquei grávida, tive uma filha, e em seguida, tive outra filha e acabei não ficando com o pai delas. Então, eu me vi em uma situação que eu teria que cuidar delas, de repente. Não era mais só eu, não era só a minha mãe me sustentando, porque até aquele momento eu era tipo uma estudante profissional. Eu fazia cursos, fazia cursos avulsos, fazia outras coisas, sempre gostei de estudar, sempre tive sede de conhecimento. Mas aí eu tive que encarar a vida séria. Então, eu pensei com meus botões: “Eu tenho que dar uma vida decente, condições boas de vida para minhas filhas logo. E isso com a Psicologia vai levar mais tempo.” E a minha mãe, que tinha vindo para Brasília, porque ela havia sido convidada para trabalhar na embaixada da Alemanha, estava muito em contato com o meio diplomático. Ela me disse: “Faça, tente a diplomacia”. E eu tentei algumas vezes. Isso ainda antes de eu ficar grávida, eu tentei duas, três vezes, mas meio no chute, sem levar muito a sério. Só para fazer, porque minha mãe estava me chateando. Mas depois que eu tive minhas filhas, eu levei a sério. E era o último ano que eu podia fazer a prova, porque naquela época, você só podia fazer até os 30 anos de idade. Era o último ano e eu disse: “Não, agora vai ou racha. Você vai ter que fazer sério!” Eu deixei minhas filhas com a minha sogrinha, que era muito gente boa. Me enfurnei no quarto por um mês, antes das provas. Precisava só estudar mesmo, sério e duro. Estudei, estudei e nessa vez que eu levei a sério, deu certo. E foi assim que eu entrei.
00:20:49
P1 — Você mudou para Brasília por conta da faculdade?
R — Não, eu mudei para Brasília por conta da minha mãe, que foi convidada pela embaixada da Alemanha para trabalhar lá.
00:21:00
P1 — E aí a decisão de fazer a faculdade de Psicologia na UnB?
R — Eu já tinha começado psicologia em São Paulo, na PUC [Pontifícia Universidade Católica]. E aí eu fui transferida.
00:21:09
P1 — Entendi. Você falou, então, da influência da sua mãe para fazer a prova do Instituto Rio Branco. Mas antes disso, o quanto que você conhecia de diplomacia ou se já tinha tido contato com pessoas que trabalhavam na área?
R — Nada, nada. Contato eu tive por intermédio da minha mãe. Nós íamos às festas, eles nos convidavam e eu frequentava a embaixada. Mas era mais contato com os filhos dos diplomatas, com a garotada, não era nada assim. Mas o tipo de trabalho e a vida, principalmente poder viajar e conhecer o mundo, eram coisas que sempre eu tive interesse em fazer. Sempre gostei, sempre tive curiosidade. Aliás, eu trabalhei por três anos na [companhia aérea] Varig, como relações públicas. E nesse trabalho, que também já era um trabalho de viajar, embora eu não viajasse, eu trabalhava no aeroporto em Brasília com relações públicas apenas, mas uma vez por ano, eles davam uma viagem. Primeiro para um destino no Brasil, depois na América do Sul e, depois, você podia escolher qualquer país do mundo. O primeiro país que eu fui, que eu escolhi viajar foi o Japão. Eu sempre gostei de viajar, sempre quis conhecer o mundo. Desde criança, sempre tive essa curiosidade, sede de conhecimento, de conhecer outras culturas.
00:22:42
P1 — E já tinha um interesse de alguma forma, que depois vai se aprofundar quando você entra na diplomacia, pelo continente asiático?
R — Ah, sim, já tinha. Sempre me interessei pela filosofia oriental.
00:22:57
P1 — Sabine, como foi a experiência no Instituto Rio Branco, quando você passa nas provas e efetivamente começa a formação no Instituto Rio Branco?
R — Você quer a verdade ou a mentira?
00:23:13
P1 — O que você quiser contar, porque é a sua história.
R — Eu costumo só falar o que eu sinto mesmo, e eu não gostei. Achei os professores ruins, porque a maioria deles eram diplomatas e podiam ter muito conhecimento, mas não tinham didática. Não gostei dos colegas, porque naquele meio, entre colegas e alunos, você já podia perceber quem iria ser aquele carreirista, que iria te passar uma rasteira e quem seria mais decente, uma pessoa legal. E realmente, a opinião que eu tinha deles como colegas e depois mais tarde, quando se desenvolveram na carreira, continuou praticamente a mesma.
00:24:02
P1 — Você ingressa no Itamaraty em 1986, é isso?
R — Sim. Termino o curso do Rio Branco em 1986.
00:24:14
P1 — E que lembrança que você tem da formatura e do primeiro dia de trabalho no Itamaraty?
R — Da formatura, foi uneventful, não foi nada. O primeiro dia de trabalho foi interessante. Eu gostei, porque eu fui para o Cerimonial, trabalhar para o protocolo, e eu gostei muito. Apesar de ter sido também, a minha carreira já começou em um lugar onde ninguém acha que é importante ir, que é um lugar que não te ajuda a subir na carreira. Até certo ponto me ajudou sim, porque eu fiquei conhecida, os chefes da casa, todos me conheceram logo. Porque quando tem recepção, você tem contato só com as chefias, normalmente não são os colegas que vão às recepções. Eu gostei, achei muito interessante. Trabalhar no Cerimonial foi uma escola muito boa, mas foi dura também, porque você tinha eventos de manhã, cafés da manhã, tinha almoços, tinha jantares e ainda tinha coquetéis depois. E para tudo, tinha que estar em salto alto e na beca, era sempre bem sacrificado e eu não via minhas filhas, porque quando eu saía de casa, elas não tinham acordado e quando eu chegava, elas já estavam dormindo. Praticamente não as via, mas eu gostei muito, foi bem interessante.
00:25:43
P1 — Quantas pessoas faziam parte da sua turma e quantas mulheres havia? Você tem essa lembrança?
R — Eu nunca contei, mas nós éramos minoria, uma grande minoria. Nós éramos, acho, 35 ingressantes, porque foi uma turma que tinha muitos estrangeiros. E havia pouquíssimas mulheres, eram umas cinco, seis, talvez oito, no máximo.
00:26:24
P1 — Era um número muito menor comparativo ao número de diplomatas homens.
R — Sem dúvida. Hoje em dia já está um pouco maior, mais equilibrado, mas naquela época era bem menor, sim.
00:26:39
P1 — E você se recorda de algum evento, alguma delegação que tenha chamado a sua atenção ou um trabalho que você percebeu que foi um trabalho bastante intenso?
R — Todos foram intensos, eu não guardo memória de nenhum em particular. Mas todos eram intensos, porque no Cerimonial é mais ou menos como nós dizemos no Itamaraty. Se está tudo certo, ninguém repara, ninguém vai falar nada. Está normal, então, você não recebe elogio, só está como deveria ter sido. Agora, uma coisinha que saía errado, uma pessoa que sente no lugar errado, alguém que não podia ter sentado do lado daquele, porque são inimigos ou não se gostam, ou você serviu carne para uma pessoa que é vegetariana; qualquer coisinha que você faz de errado, pode criar um problema diplomático até. Então, é muito delicado, é um trabalho bem delicado. E minha chefe era uma mulher, embora ela fosse muito rígida e na época eu não gostava dela, porque eu acho que ela também não gostava de mim, mas eu a admirava muito, ela trabalhava muito bem e era uma posição muito difícil ser chefe de cerimonial. O chefe era um embaixador, mas quem aparecia, quem fazia mesmo tudo era ela, que era conselheira na época. Não é um trabalho fácil, parece que é uma bobagem, que não é nada demais, mas olha, são nesses momentos que, às vezes, se fecham acordos, que se decidem coisas importantíssimas, e tudo tem que estar funcionando perfeitamente, senão...
00:28:37
P1 — E você fica um período nessa divisão?
R — Eu fico um ano. Como eu te disse, a minha premência era financeira naquele momento. Hoje em dia, o salário inicial do diplomata já está bem melhor, mas naquela época era ridículo, você quase não se sustentava. Eu ainda não podia sair, ir para o exterior, porque eu tinha só um ano de Itamaraty e você tinha que ter dois anos de Secretaria de Estado para poder sair. Mas era possível pegar um provisório, como se chamava naquela época, em que você vai para um posto por certo tempo, não é realmente oficialmente removida. Um ano depois de entrar, assim que foi possível, eu peguei um provisório. E eu fui para onde ninguém queria ir, é lógico, porque senão eu não iria. Por que eu não seria mandada nem para Paris, nem para Washington. Eu fui para a Guiana, meu primeiro posto foi Georgetown. Foi bem marcante, um posto bem importante para mim, embora para o Brasil devesse ser importante, porque é um país de fronteira. Teoricamente, nós dizemos ser importante, porque faz fronteira com o Brasil, mas eu não acredito que realmente a gente dê tal importância a ele.
00:30:03
P1 — Mas foi um transitório que rendeu um período mais extenso?
R — Foi um ano, e depois eu transformei aquele provisório em uma remoção depois de um ano. O primeiro ano lá contou como se eu ainda estivesse na Secretaria de Estado e, em seguida, eu já fui removida efetivamente para Guiana, Georgetown. Todo mundo achou que eu era maluca, porque fui para Georgetown, pronto, acabei com a minha carreira. “Foi logo de cara para esse posto, está acabada.” Não sei nem como eu consegui chegar a ser ministra de segunda classe, acho que eu sou uma heroína, porque para a carreira que eu tive, era para ser secretária o resto da vida.
00:30:45
P1 —Como foi estar em Georgetown e como foi a experiência em termos das relações Brasil-Guiana naquela conjuntura?
R — Olha, a experiência foi ótima, foi minha primeira escola. Uma coisa que eu também me ressenti muito no Itamaraty, não sei se foi eu que não tive sorte, mas eu acho que o colega mais antigo tem a responsabilidade e a obrigação de te orientar, de até te ensinar um pouco. Porque o Rio Branco naquela época – não sei se mudou, duvido muito que tenha mudado – não te ensinava a ser diplomata. Não se iluda, você lá vai estudar Ciência Política com aqueles autores todos, vai aprender línguas, o que eu já sabia na época, então aprender mesmo você não aprende. E como ser diplomata e o que é ser diplomata, você não aprende, não tem jeito, isso você aprende na prática. Eu acho que é a obrigação dos diplomatas mais antigos, principalmente nesses postos pequenos, em que você chega cru, o embaixador, o chefe do posto tem que te dar certa orientação, que não foi o que aconteceu comigo. Infelizmente não foi assim. E foi bastante difícil, porque é um país difícil, é uma mistura de África com Índia, digamos do que tem de mais difícil na África e na Índia, era um país bem complicadinho. O Brasil sempre foi muito simpático com a Guiana, sem dúvida mantínhamos boas relações, há tempos queríamos fazer a ligação da estrada de Lethem, na Guiana, com Boa Vista, Roraima, coisa que finalmente há uns dois anos acabou acontecendo. Mas as coisas não andavam muito, não havia realmente aquela vontade política de fazer as coisas acontecerem, aquilo era um pouco frustrante. Aliás, em todos esses postos que eu estive, essa foi a sensação mais presente.
00:33:03
P01 — Você fala principalmente nos postos que são menores?
R — Difíceis, menores...
00:33:08
P1 — Os que têm menos pessoal, e aí esse pessoal tendo que fazer funções diversas para o funcionamento...
R — Exato, os chamados postos de sacrifício, “C” e “D”. E não é só por isso, falta a vontade política também no Brasil de querer dar continuidade ao que projetamos lá também, e o que o Itamaraty, em teoria, projeta fazer, mas acaba não concretizando. Porque não depende só da vontade do Itamaraty, tem que ter a vontade do governo por trás para fazer as coisas acontecerem. Nesse ponto a minha ideia como diplomata sempre foi que o Brasil, embora seja um país imenso, maravilhoso, riquíssimo, com um potencial tremendo, ele ainda não representa tudo o que ele poderia ser. Então, eu achava que nesses países menores que nos viam com tanta simpatia, que nos recebiam sempre tão bem, ainda mais os países aqui da fronteira, que tinham todo o respeito e carinho conosco, nós não aproveitávamos isso. Não aproveitávamos para marcar uma presença mais forte. Foi muito frustrante não só na Guiana, porque eu comecei a me frustrar já logo no meu primeiro posto, mas foi frustrante de um modo geral. Ficávamos correndo atrás dos chamados países de primeiro mundo, onde nós éramos muitas vezes humilhados, nem éramos respeitados, éramos vistos de cima para baixo, e nesses outros países que quase que nos endeusavam, nós não sabíamos tirar proveito dessa posição privilegiada que tínhamos. Às vezes, até gastávamos esforços e meios como em cooperações técnicas e não havia um retorno, porque não sabíamos muito bem o que fazer com aquilo, era um meio caminho que não chegava até o objetivo, na minha modesta visão.
00:35:30
P1 — Claro, com base no que você viveu mesmo. Depois dessa experiência em Georgetown, você teve a ida para Haia.
R — Para Haia, sim.
00:35:42
P1 — Como é que foi? Porque aí foi já em um organismo multilateral?
R — Eu fui para a embaixada, fui responsável pelo Setor Comercial, pelo SECOM. Foi um país desenvolvido, vive-se bem, embora eu não tenha gostado nada do clima, chuvisco e frio constante, você quase não vê o céu azul, fiquei um pouco deprimida. Depois de dois anos, saí correndo, porque depressão não é comigo. Mas foi boa a vida, foi tranquila, foi agradável. Em Georgetown, por outro lado, faltava luz, faltava água, você tinha que ter gerador, às vezes o gerador não funcionava também, porque não tinha diesel para colocar no gerador, faltava tudo lá. Às vezes, faltava comida, às vezes faltava até papel higiênico e você tinha que ir comprar na lojinha da embaixada americana. Hoje em dia já não é mais assim, porque eu servi várias vezes lá, então, vi que o país teve um certo progresso. Mas quando eu estive lá pela primeira vez, era bem difícil. Em Georgetown, eu tive meu terceiro filho, meu menino nasceu lá e eu me lembro de barrigão grande, tendo que ligar um gerador, que você tinha de puxar por uma cordinha no meio da noite, porque era blackout toda hora e um calor infernal. Não era fácil, tomava banho de caneca, pegava água no balde e tomava banho de canequinha, porque a água não subia, não tinha jeito. Mas eu achava ótimo, achava divertidíssimo. Não me queixo.
00:37:23
P1 — Você teve o terceiro filho nessa primeira missão em Georgetown e também estava com as suas outras duas filhas?
R — Sim, fui com as minhas duas outras filhas.
00:37:37
P1 — Você tem uma trajetória pela qual você passa por vários outros postos, em diferentes lugares, e faz muitas missões transitórias também. Queria que você falasse um pouco quais foram esses postos. Porque os períodos que você teve no Brasil foram períodos relativamente curtos ao longo de toda a sua carreira...
R — Sim, eu voltava porque eu era obrigada, porque após certo período fora, você tinha que voltar, não podia mais ir para outro posto. Eu ficava o mínimo que eu tinha que ficar aqui, já pegava um provisório e já emendava com outro.
00:38:13
P1 — Quais foram esses postos que você vai assumindo depois, ao longo da progressão da sua carreira?
R — Como eu falei das minhas duas filhas e depois do meu filho, vou aproveitar para falar um pouco também dessa dificuldade que nós, como mulheres, temos de levar lado a lado, paralelamente, a vida familiar e a vida profissional. Não é simples mesmo. Depois de Georgetown eu fui para a Haia, depois de Haia fui para Honduras, que também foi um posto “C”. E eu nunca pedia para onde eu queria ir, não. A maioria dos diplomatas diz: “Eu quero ir para esse posto, porque meu filho tem que estudar naquela universidade ou naquela escola.” Eu nunca pensei assim. Eu sempre me vi como profissional, então eu tenho obrigação de ir onde necessitam de um diplomata como eu, onde eu possa servir ao meu país. Nunca fui para lugar nenhum por causa de necessidades pessoais ou por causa da minha família. Mas eu via que no Itamaraty isso acontecia muito, então, eu era mais ou menos jogada para onde me mandavam. Quando tinha aquela escolha entre esses três países, qual você quer ir, eu escolhi um daqueles três e, às vezes, eu realmente ia para o que eu tinha escolhido e, às vezes, não dava certo. Mas em nenhuma vez eu fui bater na porta do chefe do DP [Departamento Pessoal]: “Eu quero ir para lá, ajude-me, remova-me.” Nunca fiz isso. Por isso que eu fui para esses países todos em que a maioria das pessoas não sente muito interesse em ir. Tanto que depois da Guiana, que era um país, naquela época, considerado “C”, eu teria direito de ir até para Washington, para Paris, para um dos postos maravilhosos, que todo mundo achava tão sensacionais. Mas não, eu fui para onde me ofereceram, Haia. Não parece ser grande coisa para quem esteve na Guiana, Georgetown. Mas eu fui, não teve problema. E depois da Haia me ofereceram Honduras e eu aceitei, fui para Tegucigalpa, tranquilamente. Só para não ter que ficar pedindo, não ter que ficar mendigando na porta de ninguém, nem escrevendo cartinhas, tampouco bajulando ninguém.
00:41:04
P1 — E, enfim, você passa principalmente por países do continente asiático.
R — Sim, também.
00:41:10
P1 — Então, por exemplo, experiências transitórias em Hanói, na década de 1990.
R — Foi um ano, um transitório bem longo...
00:41:16
P1 — Transitórias, mas são transitórias longas.
R — Algumas não, mas essa, em particular, foi de um ano e foi muito gratificante. Eu diria que foi um dos países que eu mais gostei, Adorei Hanói. E foi há muito tempo atrás, veja para mim, porque como eu te disse, anos, datas e nomes não são comigo.
00:41:33
P1 — Em Hanói, pelo que eu vejo aqui, foi em 1997. Foi uma missão de nove meses. E como que foi? Por que você considera que essa foi uma das experiências mais gratificantes?
R — Porque é um país muito interessante, o povo principalmente. Um povo que, naquela época, era ainda recém-saído de uma guerra em que ele havia sido praticamente dizimado. Eu imaginei que eu iria chegar e encontrar um povo rancoroso, triste, com raiva dos estrangeiros. Nesses países, eu sempre era confundida com americano, porque nós tínhamos que falar inglês, que era a língua internacional, e também porque eu devo ter cara de americana. Então, eu imaginei que seria ruim ir para lá com essa minha estampa. Que nada, um povo simpático, um povo trabalhador, um povo que estava olhando para frente, não estava olhando para trás. O que passou, passou, eles queriam é viver bem, ter uma vida boa, progredir. Muito trabalhadores, um país sensacional, eu gostei demais. Apesar de estar ali em um governo comunista, mas o povo em si muito bacana. E a minha vida lá foi boa, eu andava de moto, naquela época quase só tinha motos nas ruas. Então, quando fechava o sinal em uma avenida, você via aquela fileira e eram apenas motos. Aquelas motos, uma fileira aqui, outra fileira logo atrás e os carros eram uma exceção. Você via um, dois, três carros na rua, o resto era moto. Eu ia de moto também, colocava meu filhote na garupa, porque ele foi comigo. Coloquei-o na escola francesa e o posto também era bom, porque é o chefe quem faz o posto em grande medida. E eu tinha um chefe bom, não me pergunte o nome dele, mas era um chefe bacana, eu gostei do trabalho, senti-me bem. Foi muito legal.
00:43:42
P1 — E depois você também vai para um posto que você falou que foi também uma experiência marcante, que foi na Índia, em Nova Delhi.
R — Sim, deixe-me ver, depois de Honduras, para onde eu fui? Olha para mim, por favor. Teve uma época que eu tinha direitinho na cabeça a minha cronologia, mas agora eu já me confundo.
00:43:42
P1 — Depois de Tegucigalpa, teve a volta para o Brasil.
R — Quando eu estava em Tegucigalpa, eu fui para o Haiti, você veja como só me dão postos legais. Mas eu fui só por um mês. Com todo respeito aos haitianos, que eu já conheci muitos simpáticos aqui no Brasil, mas eu acho que foi um posto, uma missão muito difícil. Mesmo tendo sido de um mês, foi dificílima. Naquela época já não era fácil, imagino que hoje deve ser mais difícil ainda. Foi a única vez na minha vida, na minha carreira toda, que eu senti medo, que eu me senti em perigo mesmo.
00:44:41
P1 — Isso por conta de questões de conflitos civis?
R — Era a época de carnaval, por isso o embaixador, que, acho, era carioca, queria ir para o Rio, passar carnaval e as férias no Rio de Janeiro. Como o meu posto era pertinho, eu gastava menos, então mandaram-me de Tegucigalpa para lá por um mês só. Levei meu filho também, porque eu falei: “Na volta, aproveito e levo o bichinho a Miami, para Disney World...” Eu estava no carro oficial, com o meu filho atrás, era de noite, não sei de onde estávamos indo ou vindo, mas como era carnaval lá também, eu vi que tinha um bando só de homens, mas eram muitos homens e todos pareciam bêbados, que vinham vindo de longe. Era já de noite, estava escuro e ouvíamos eles gritando e cantando. Até que eles rodearam todo o carro e eu me escondi. De novo, por causa dessa minha cara de americana, lá ninguém gosta de americano, ainda mais naquela época, eles estavam em uma época muito ruim de relação com os Estados Unidos. Então, eu me agachei embaixo do banco, agachei meu filho também, deixei só o motorista falando com eles, e eles todos bradando, gritando com garrafas na mão. Eu tive medo que eles fizessem alguma coisa. Embora tivesse a bandeira do Brasil no carro, mas eu não sabia se aquela turba sabia que bandeira era aquela, de onde nós vínhamos. Então, eu senti um pouco de medo também.
Também teve outra ocasião, em que fomos para o Clube Med [rede internacional de resorts], era um feriado, um fim de semana, e eu peguei um passeio de barco. Como eu estava com meu filho, todo mundo foi mergulhar, mas eu não fui mergulhar e eles nos deixaram em uma praia ali perto, para podermos ficar na praia, enquanto os outros mergulhavam. Enquanto estávamos na praia, eu, meu filho e mais uma turista americana, uma mulher bem gorda, teve um certo momento em que deixamos nossas roupas, nossa bolsa, nossas coisas embaixo de um coqueiro, de uma árvore que havia ali. Era uma prainha bem pequena e, no fundo, uma montanha com florestas, onde você via que tinha uma trilha. Estávamos na beira d'água e de repente, descem da floresta três homens, que vão até lá, pegam todas as nossas coisas e saem correndo, somem no meio daquele mato. Eu imagino que atrás daquela montanha, devia ter uma cidadezinha, cabanas, as casas deles. Fiquei morrendo de medo que eles voltassem, porque éramos duas mulheres e uma criança. O iate não atraca na praia, então, você desce em um barquinho, mas eles também tinham levado os remos que havíamos deixado na areia. Então, eu botei aquela mulher e o meu filho no barco e fui atrás empurrando, nadando até o mar mesmo, porque fiquei morrendo de medo que eles descessem e viessem fazer alguma coisa conosco. A gente se sente bem inseguro naquele país, pelo menos naquela época eu me senti muito insegura.
E essa é outra crítica que eu faço à nossa diplomacia. Eles não nos dão uma estrutura de apoio que permita que você se sinta seguro, até mesmo nas embaixadas. Nesses países mais complicados, as embaixadas não têm guardas que possam te proteger. A única exceção foi quando eu fiz um provisório na Argélia, onde tínhamos, naquela época, os fuzileiros navais. Eu fui como encarregada de negócios e eles estavam lá com os fuzis deles, todo o tempo atrás de mim, fosse no carro ou aonde eu fosse. Na Guiana, que era super pacífico, não tinha nada. No Haiti não tinha nada, não tinha grande coisa de proteção. Quando eu fui servir no Timor-Leste, em Dili, era uma época que a situação ainda estava meio perigosa, porque a guerra havia acabado há alguns anos, mas havia muitos deslocados ainda, até acampados na praça, com a presença das tendas da ONU. E a embaixada era uma casa, uma casa pequena de vidro aqui, vidro ali, mais parecia um aquário. Quem passava da rua, se atirasse uma pedra, não existia guarda ali, não tinha nada, então, sentíamo-nos muito expostos. E onde nós morávamos também não tínhamos segurança, nada oferecido pela embaixada, eu quero dizer. O nosso governo, o nosso Itamaraty nos deixava muito ao Deus-dará nesses países. Não tinha realmente apoio mesmo. Não sei se hoje tem, duvido que tenha, está melhorando um pouco mais, mas não dá para comparar com os americanos. Claro, os americanos têm muito mais problemas que os brasileiros, mas na hora que acontece uma confusão, por acaso alguém vai perguntar: “Olha, antes de eu te matar ou te bater, dê-me sua identidade, deixe-me vir de onde você é?” Não, se você está no meio da bagunça, veem a sua cara ali, eles fazem o que querem. Então, não adianta, tem que ter muita coragem. E falta de noção também para se meter nesses lugares.
00:50:28
P1 — Queria que você falasse sobre como foi a sua experiência na Índia. Como foi em termos de experiência pessoal e de experiência de trabalho?
R — Sim, era uma embaixada bem maior do que essas pequenas em que eu trabalhei. Em relação à experiência de trabalho, o dia a dia era difícil, era difícil o lidar com o indiano. Tem uma piada que eu acho que ilustra bem isso. Não sei se é piada ou um dito popular, mas é mais ou menos isso. Se você passa uma semana na Índia, você já quer sair escrevendo um livro sobre a Índia. “Eu sei de tudo, vou escrever um livro sobre a Índia.” Se você passa uns dois meses na Índia, você diz: “Vou escrever só um artigo sobre algumas coisas que eu pude observar.” Se você passa um ano na Índia, você vê que não entendeu nada, que não sabe nada, já não escreve mais nada. É um país muito diferente, as pessoas pensam diferente, não é só que está no outro hemisfério, é que o cérebro funciona de forma diferente. Então, é muito engraçado querermos lidar com eles com a nossa percepção e com a nossa mentalidade. Fico admirada, eu não sei nem como que conseguimos nos entender diplomaticamente, porque são maneiras tão diversas de pensar. Eu acho que é graças a eles, enfim, esses que estão no governo, que estudam fora, eles aprendem como pensamos, porque nós não entendemos como eles pensam. Foi isso que eu percebi em três anos. Então, é um país muito rico. Três anos foram como três dias para aprender tudo que você pode, porque para captar as sutilezas daquele país é muito difícil, principalmente por eles pensarem de outra forma. Você interpreta de um jeito, na verdade o que eles pensaram e quiseram dizer é outra coisa, não tem nada a ver. Você acha uma bobagem, mas se você for olhar a fundo e analisar bem, ver com maturidade, pode estar certo que aquilo é um melhor caminho do que aquilo que a gente havia pensado. Foi isso que eu pude perceber nesse tempo que eu estive lá, mas isso ainda não é nem um quinto, um décimo do que você pode ainda aprender e desenvolver lá. Mas eu gostei muito.
O trabalho que eu fiz na embaixada foi um pouco impactado por esses problemas, porque a comunicação é uma coisa difícil. Eles são meio difíceis e emperrados, e têm também aquela certa distância conosco: ou eles percebem que nós não os compreendemos e eles igualmente não nos compreendem, e nos interpretam, talvez, um pouco de acordo como eles pensam. O dia a dia é muito difícil. Nova Delhi é calor, é sujeira, poeira, bagunça, tem gente que não acaba mais, então é bem sacrificado, mas se você consegue abstrair isso tudo e se concentra na cultura deles, na cultura mais antiga – porque se você vir o povo mesmo, no dia a dia, ele também só quer saber de ganhar dinheiro. Há a ideia de que o povo indiano é muito espiritual, mas não é não, eles correm mais atrás de dinheiro do que judeu até. Mas se você vai a fundo na filosofia milenar indiana, aí sim você consegue pegar umas preciosidades.
00:54:37
P1 — Queria que você contasse como foram as suas experiências em consulados. Porque é uma atividade dentro da diplomacia em que o foco não é a representação política, e sim a assistência consular à comunidade brasileira. Como foram essas experiências?
R — Pois é, outra atividade que no Itamaraty é pouco considerada e é muito importante. Porque nós estamos atendendo os nossos nacionais no exterior. Eu acho que é muito importante, mas o Itamaraty e a maioria dos diplomatas vê como um posto de segunda categoria.
00:55:37
P1 —Eu queria que você falasse sobre essas diferentes experiências em diferentes lugares, imagino que também com diferentes demandas trazidas pelas comunidades brasileiras.
P1 — As demandas diferem muito dependendo do país em que você está, às vezes, até dependendo da cidade dentro de um mesmo país. Nos Estados Unidos, acho que o meu primeiro consulado foi em Houston, os brasileiros que estavam lá não ofereciam grandes problemas, porque eram geralmente contratados de empresas de petróleo, eram pessoas de um nível mais elevado, então iam lá para o consulado para fazer passaporte ou para pedir algum outro documento, então não ofereciam grandes problemas. Mas também fazíamos o que eles chamavam de itinerantes, esses, sim, eram casos mais difíceis, porque íamos para os lugares mais afastados da capital Houston, onde as pessoas não tinham condições de ficar um ou dois dias fora para poder renovar o passaporte, pegar uma procuração, porque elas trabalhavam em empregos que demandavam a presença constante. Então, era um trabalho já mais sacrificado, porque nessas atividades itinerantes, você tinha que levar toda a estrutura do consulado, levava todos os aparelhos que faziam os passaportes, de tirar as fotos. Hoje em dia, já é mais simples, acho que as pessoas já conseguem fazer muita coisa à distância, porque a tecnologia evoluiu muito. Mas no tempo em que eu servi em Houston, que foi em que ano mesmo?
00:57:56
P1 — Em Houston foi de 2010 a 2012. Porque tiveram ainda outras duas experiências em consulados, mas em postos diferentes, que tinham sido Barcelona e Tóquio.
P1 — Barcelona e Tóquio, exatamente. Em Houston, foi onde eu fiz muitos itinerantes, que era bem difícil, em que tínhamos que pernoitar, muitas vezes pernoitávamos e tínhamos que fazer deslocamentos em carro ou ônibus, porque existe aquela regra que estabelece que até determinada quilometragem de distância, você não pode fazer o deslocamento de avião. Então, a nossa vida não é muito facilitada, não é como as pessoas pensam. Mas este é um contato mais com aquele brasileiro que vai mesmo nos itinerantes do consulado de Houston, o brasileiro que saí do país para melhorar de vida, que não tem uma situação muito boa no Brasil e aceita os empregos um pouco mais modestos. Muitas vezes tinha problemas, às vezes, tínhamos que resolver problemas familiares. É um trabalho bastante sacrificado, bem difícil esse contato direto com o público, muitas vezes exige muito de você, muitas vezes a estrutura do consulado não permite o atendimento como você gostaria, seja porque você não tem funcionários suficientes, ou não tem o orçamento suficiente também para dar todo o apoio que o brasileiro precisa. E as reclamações todas somos nós que recebemos. Nós, no consulado, somos a primeira barreira, aquilo vem para nós, Então, é um trabalho mais difícil mesmo, é um corpo a corpo mais direto com o público. Por exemplo, nos Estados Unidos, à época, tinha um consulado que diziam ser terrível, onde teve um caso de um brasileiro que atirou uma cadeira no funcionário, que estava fazendo aquela bagunça, aquela algazarra. Fosse com motivo ou não, não estou pondo isso em questão, mas criam-se situações difíceis muitas vezes, e você não tem aquele apoio, aquela proteção. Se chega um brasileiro que está revoltado por um motivo “X” ou “Y”, com ou sem razão, e te agride ou faz alguma coisa contra você, você não tem ninguém que te defenda ali, não tem mesmo. Somos muito expostos, realmente muito expostos, não sei como eu tive sorte, porque comigo nunca aconteceu nada, mas foram muitas as situações em que poderiam ter acontecido, os momentos em que eu estive em situações potenciais de perigo. Muitas vezes mesmo. Então, é um pouco de um descaso com o seu funcionário, essa estrutura no Itamaraty deveria ser repensada e mudada. Exemplos de outras embaixadas não faltam, então não é isso. Nós gostamos muito de olhar os outros, ver o que os outros fazem e tentar fazer igual, então vamos olhar e vamos fazer igual. Não custa tanto assim...
No consulado em Tóquio foi muito interessante, porque eu tive contato com os decasséguis, que são brasileiros filhos de japoneses que vieram para o Brasil e que depois voltaram ao Japão para trabalhar lá, porque havia demanda para determinados tipos de trabalho que os japoneses não queriam fazer. Então, os filhos desses japoneses que já haviam emigrado antes aproveitavam essas oportunidades. E o Japão é uma sociedade, uma cultura muito fechada. E o japonês, pelo menos foi a minha percepção naquela época e duvido que tenha mudado muito, não admite que você tendo a fisionomia e o biotipo de japonês, não fale japonês, nem se comporte igual a um japonês. Então, eles exigiam isso do pessoal que vinha do Brasil e que não era tão japonês assim. O japonês brasileiro já é todo à vontade, alegre, fala muito, brinca, é aquela simpatia. O japonês nativo não, ele é todo sério, fechado, todo amarrado, regra disso, regra daquilo. Então, os jovens que iam para lá, uma segunda geração de decasséguis, os filhos do pessoal que já tinha ido, não sabiam se comportar de acordo com o que a sociedade japonesa exigia. Isso criava muitos conflitos, inclusive pequenos delitos que esses jovens cometiam. Por exemplo, os pais estavam o dia inteiro trabalhando em uma fábrica de peças para carros, enquanto os filhos ficavam em casa. Talvez não fossem à escola ou iam, mas não ficavam o dia inteiro na escola, não sei bem como era. Às vezes, esses jovens faziam pequenos roubos em lojas de conveniência, aquela coisa que adolescentes fazem só de bobagem mesmo, para experimentar uma emoção. E eram presos e eram levados para lugares como se fossem os reformatórios, uma prisão reformatória. Eles tinham horário para falar, eles não podiam falar entre si. Durante um dia inteiro, tinham apenas uma hora que eles podiam falar, o resto do dia era em silêncio. Uma coisa boa era que eles eram obrigados a aprender o japonês e também tinham uma disciplina muito rígida. Por um lado, era bom, porque eles aprendiam muita coisa e tinham também que ir para a escola japonesa. O japonês não admitia que aquele sujeito que estava ali com toda a aparência de japonês, filho de japonês, não soubesse se comportar e seguir as regras da sociedade japonesa. Eu ia muito nessas prisões para conversar com esses jovens, principalmente os menores de idade e escutava essas histórias todas. E mesmo sendo brasileiros, os jovens japoneses ainda tinham aquela mentalidade muito mais correta, que é o padrão, estereótipo dos japoneses. Então, eles se sentiam culpados por terem feito aquilo, por terem feito mal aos pais, que se sentiam com a consciência pesada. Você ficava com pena daqueles rapazes todos, que não eram maus, que não tinham matado ninguém, nem tinham feito nada de muito grave, mas que estavam ali em um reformatório, em uma prisão bem severa. Foi interessante, lá também fazíamos esses itinerantes, íamos para cidades do interior. Foi bom para conhecer os costumes, para ter mais contato com o país e com o povo local. É outro tipo de trabalho, mas é importante, quando você quer conhecer um país, você também conhecer o povo, ver como ele pensa, o que acontece, senão você fica muito distante da realidade. Não adianta só ficar ali nas altas camadas: às vezes não é o que corresponde à realidade do chão de fábrica, como falam.
01:06:04
P1 — Antes, você teve a experiência em Barcelona como primeira-secretária. Foi logo depois da experiência de Nova Délhi.
R — Em Barcelona eu não tenho muito a falar do trabalho, porque eu tive uma situação familiar um pouco difícil, então, eu me afastei um pouco do trabalho. Também quem fazia esse atendimento era mais off-chances, que cuidavam mais do contato direto. Eu estava mais na parte comercial também, então não tive muito esse contato mais direto com a comunidade brasileira. E teve uma época que eu me afastei, porque minha mãe adoeceu, então, eu tive que me dedicar ao aspecto familiar mais do que ao trabalho.
01:07:03
P1 — Uma experiência que parece marcante na sua trajetória foi a do Timor-Leste. Em um país recém-independente, que tinha sofrido um grande problema de guerra, conflito civil, com o qual o Brasil estava estabelecendo relações mais próximas. Como foi essa experiência?
R — As relações com o Brasil foram sempre muito boas, graças ao... Como se chama aquela figura muito importante que trabalhou na ONU, que depois morreu num ataque?
01:07:59
P1 — O Sérgio [Vieira de Melo].
R — Esse mesmo. Então, havia sim alguns antecedentes muito positivos. Inclusive o [presidente da República, Luiz Inácio] Lula [da Silva] foi até lá, deu importância. Mas não tínhamos estrutura nenhuma. Não tinha uma embaixada, uma sede de embaixada mesmo, era uma casinha sem nenhuma proteção, feita de vidro, então, passava um tiro daqui, podia atravessar, saía do outro lado. E tinha o perigo de movimentos populares a qualquer momento, todos os dias. Era algo bem tenso mesmo. Foi rico, foi emocionante e interessante. E havia uma grande cooperação técnica, feita através da ABC [Agência Brasileira de Cooperação], só que dessa vez era na área educacional. O Brasil mandou mais de quarenta, cinquenta professores para darem aulas no Timor-Leste. Aulas principalmente de Português, porque supostamente a língua oficial do Timor-Leste era o português. Inclusive, este foi o tema da tese [do Curso de Altos Estudos] que eu fiz para promoção a ministra de segunda classe. Só que acho que cerca de 0,5% da população falava português. Não era a língua oficial real, o português era a língua oficial apenas no papel. Na verdade ninguém falava português ali. Então, tínhamos que gerir esses professores que vinham do Brasil, na sua maioria jovens. Tínhamos que alojá-los, encontrar alojamento, ver onde eles iriam lecionar, porque as escolas lá eram muito carentes. Então, esse professor acabava lecionando de tudo, não só o Português. Lecionavam Química, Física, Matemática, faziam de tudo. E o quadro era renovado todo ano. Então, chegavam professores novos, mandados pelo MEC, geralmente eram recém-formados. E era um lugar inóspito, lá não tinha nada. Mal e mal, tinha uma lojinha pequena, meio supermercado, onde você podia se abastecer. No mais, não tinha nada. As ruas não eram asfaltadas e a única diversão era uma praia que ficava cerca de quarenta minutos da capital, que se chamava Areia Branca. Lembro até hoje que essa era a nossa diversão de fim de semana. Não tinha outra coisa, era Areia Branca. Então, íamos para lá e inclusive naquela praia, naquele mar, tinha jacarés. Vira e mexe, vinha a notícia de um pescador perdia uma perna, um braço. Eu nadava e mergulhava lá, não queria nem saber. Entrava em um caiaque e depois saia mergulhando lá. Estou viva, estou aqui inteira, não falta nada. Mas era bravo lá e sem nenhuma proteção, ainda mais sendo mulher. Nós tínhamos acomodações até boas. Era um compound que tínhamos ali, não tinha nada de luxo, mas não faltava nada também. E você estava ali para o que desse e viesse. Se uma turma resolvesse fazer sei lá o quê conosco, fazia, porque não tinha proteção alguma, não havia guarda. E isso não era certo.
01:12:09
P1 —E nesse momento você chegou a levar alguém da sua família?
R — Não, porque nesse momento o meu filho, que foi quem mais me acompanhou, ele era dez anos mais novo do que as minhas filhas. Elas já tinham seguido para a universidade. Como eu fui para países muito difíceis, não tinha universidade para meus filhos estudarem. Então, eu tinha que ir para os lugares e pagar a universidade do meu filho na Inglaterra, a outra fazia nos Estados Unidos e lá se foi todo o salário... Na época, meu filho já estava estudando na Inglaterra. No Timor, eu estava sozinha. A maioria desses postos mais difíceis, eu fui sozinha.
01:13:01
P1 — Claro que tem as pessoas ali da embaixada, pessoas que trabalham na chancelaria. Mas como é essa vivência?
R — Tinha uma pessoa, que era outra moça. Nem sei se nós tínhamos locais trabalhando lá, eu acho que em Dili nem local tinha, porque não tinha local de nível que pudesse trabalhar em uma embaixada. O povo era muito cru, tinha acabado de sair do mato. Desculpe-me, mas era assim. Não tinham uma educação mínima, a não ser os que já tinham tido oportunidade, tinham dinheiro para sair e estudar fora. No Timor-Leste não tinha o que fazer, não tinha o que estudar, não tinha nada.
01:13:50
P1 — Um outro momento que você vai trabalhar em consulado na China.
R — Ah, sim, esse foi meu último posto. Onde eu terminei a minha carreira foi em Guangzhou. Foi interessantíssimo. A China, o país do momento, estava louca para conhecer. Quando me ofereceram a China, eu até estranhei: “Será que é para mim? É para mim mesmo que vocês estão dando China? O que aconteceu para estarem me dando uma coisa boa?” Mas eu aceitei feliz da vida, porque antes disso, haviam me mandado para Bangladesh, mandaram-me para Mianmar, fui feliz da vida também, foram experiências ótimas, mas foram países que ninguém quer ir. Um está em guerra civil e o outro, Bangladesh, já foi no meio da pandemia de Covid-19. Peguei duas vezes em Bangladesh, foi dureza. AÍ me mandaram para Cobija [na Bolívia] também, que era na fronteira com o Acre. Fins de mundo que ninguém quer ir. Então, quando me deram China, eu quase caí. Falei: “Acho que vocês se enganaram, é para mim mesmo que estão dando China?” Eu fui feliz da vida. Fui como encarregada de negócios, porque o embaixador estava saindo e adorei conhecer a China. Como encarregada de negócios, eu fui tratada como uma rainha. Nossa, que maravilha! Levavam-me para visitar as fábricas, conhecia a BYD, conheci também uma empresa que produz celulares mais populares. Enfim, eu vi essa tecnologia chinesa sensacional.
01:15:33
P1 — Xiaomi? Huawei?
R — Huawei. Receberam-me de tapete vermelho, eu me senti a rainha da Inglaterra. Foi maravilhoso, trataram-me muito bem. É aquela gentileza oriental. Pode não ser sincera, mas te tratam muito bem. Então, foi ótimo, gostei muito. Conheci aquela tecnologia, entrei em carro sem motorista, algo que agora já é mais comum, mas à época estavam lançando ainda. Foi muito bacana.
01:16:21
P1 — Nesse momento, tinha também muitos brasileiros vivendo lá?
R — Sim, tinha bastante brasileiros vivendo lá, mas os problemas maiores eram, eu acho, com os filhos desses brasileiros vivendo lá.
01:16:38
P1 — Eles tinham cidadania chinesa ou não necessariamente?
R — Eles não tinham, se eu me lembro bem, eles estavam meio que em um limbo. Não eram nem uma coisa nem outra, e estava aquele problema que havia momentos em que eles tinham que ter uma identidade, tinha que ter se registrado assim que nasciam, tinha que ser logo – o hospital onde aconteceu o nascimento [é] que tinha de registrar. Era uma coisa bem complicada, as leis internas são um pouco confusas. E eu cheguei como se estivesse caindo de paraquedas. Isso é uma outra coisa que acontece. Você é mandada para um posto sem um mínimo preparo. Por exemplo, vai fazer um provisório na China. “Hoje saiu sua remoção, amanhã você vai”. Chegou nesse lugar, você está ali e, de repente, tem que saber de tudo, entender tudo. É legal, é um desafio, intelectualmente é desafiador, mas eu sempre consegui, deu certo, tenho agilidade mental, mas não sei se é assim com todo mundo. Seria bom um pouquinho de preparo antes da ida para o país para onde você vai. Claro, você tem que você mesma se preparar, você procura os telegramas mais recentes, lê telegramas até onde pode para se pôr a par do que está acontecendo no posto, para não chegar lá nua e crua, mas tudo é você mesma que vai e faz. É a sua iniciativa. Se você não quiser, também não faz e vão te mandar do mesmo jeito. Não é aquela responsabilidade do Itamaraty como instituição, que quer mandar um profissional, sabendo que está preparado, que vai saber o que vai fazer lá. Não. É mais na linha do: “Vai! Te vira...” Eu sempre me preparei, sempre procurei aprender, mas é uma coisa que você sozinho vai pescando aqui e ali. Também não é o ideal.
01:18:42
P1 — Como foi trabalhar, seja em posto ou mesmo no Brasil, durante a pandemia de Covid-19?
R — Comigo não costumam acontecer as coisas que geralmente acontecem com todo mundo. Pela minha carreira, dá para perceber isso. Na questão da pandemia aconteceu a mesma coisa, porque foi a época em que eu mais trabalhei, que eu mais curti e que eu mais gostei. Então, eu não vou te dar um quadro assim muito realista, mas vou te dar um quadro muito pessoal meu. Foi muito desafiador, porque foi uma situação um pouco difícil que me colocaram. Quando eu voltei do Panamá, que foi o meu último posto de remoção mesmo, posto que, aliás, eu gostei muito, foi muito interessante. O Panamá, por causa do canal do Panamá, é um posto sui generis, tem coisa muito diferente, tem coisa muito típica em virtude desse canal. Mas quando eu voltei, primeiro me colocaram... Estou falando com você agora, porque você está me perguntando pela primeira vez, você quer saber a minha opinião, pois nunca ninguém quis saber a minha opinião sobre o que eu acho do Itamaraty, o que eu acho do sistema, o que eu acho disso e daquilo. Então, eu nunca tive oportunidade de falar mal, como estou falando agora, muitas coisas eu estou criticando. Mas, antes, nunca ninguém me perguntou nada, eu era invisível no Itamaraty, ninguém se interessava por mim. Então, não se pode dizer que eu fui castigada, porque eu falava contra o governo, ou falava contra o Itamaraty. Eu não falava nada, eu estava ali. Me mandavam para China, mandavam para o Timor-Leste, eu ia. Mandavam para acolá, eu ia. Fazia meu trabalho direitinho, não criava nenhum problema com nada, nem com ninguém, saía no tempo certo, sem nenhuma confusão. Então, não se pode dizer: “Olha, porque ela criou muitos problemas.” Porque com muitos nossos colegas acontece isso, o cara cria uma confusão aqui, acolá, então ele é mandado embora, sai do lugar com o nome sujo. Mas esse não foi o meu caso.
Quando eu voltei do Panamá, primeiro, não me colocaram em divisão nenhuma, deixaram-me no porão do “Bolo de noiva” [apelido do prédio Anexo II do Palácio do Itamaraty, em Brasília], como chamam, junto com outros três, quatro diplomatas, que eram muito legais, ótimos colegas, até mais antigos que eu, havia até embaixador, como se fosse uma espécie de castigo. Eu não sei do que eu fui castigada, não sei o que eu fiz, até hoje é uma incógnita para mim, não sei o que foi, juro que estou inocente. Depois disso, de repente, acho que descobriram que tinha gente ali que não estava lotada. Parece que apareceu uma lei que dizia que você tem que estar lotado e tinha gente que não estava lotada e estava recebendo em casa. Depois disso, me lotaram em um departamento que tratava de Rússia e China, dois países legais, e países da Ásia Central. Muito legal, gostei. Só que junto comigo estavam mais dois outros colegas, que assim como eu eram também ministros de segunda classe. E o meu chefe, o chefe do departamento, era também ministro de segunda classe. Era mais novo do que eu, mais novo do que o outro colega, era mais moderno, como falamos no Itamaraty. O mais moderno chefiando o mais antigo? Onde está a hierarquia? Cadê o respeito ao profissional? E colocam dois outros colegas iguais a você, três ministros de segunda classe juntos? Eles querem que nós nos digladiemos? Porque no Itamaraty é cada um brigando para conseguir ser promovido e, de repente, colocam três ministros de segunda classe juntos, sob a chefia de um ministro de segunda classe mais moderno. É um descaso, não é um descaso? Ou foi de propósito, porque estavam querendo mesmo maltratar todo mundo que estava ali, ou foi realmente porque não estão nem aí, não estavam nem vendo aquele chefe que estava ali, que por acaso conseguiu ser chefe daquele departamento e até então não tinha ninguém para trabalhar com ele, então jogaram os que estavam sobrando ali. Isso é profissionalismo? Isso eu nunca entendi no Itamaraty e isso acontece muito, pelo menos na minha carreira aconteceu muito. É uma coisa que com a minha mentalidade de ter sido criada em um sistema europeu e principalmente alemão, em que tudo é certinho – se você faz certo, você ganha aquela compensação, mas se faz errado, você é castigado –, aquilo. [na] minha cabeça nunca entrou. E eu fiquei muito desorientada assim que entrei no Itamaraty, porque era o que eu mais via, eram coisas assim que não faziam sentido. Onde está a ordem? Cadê a hierarquia mesmo, onde está a justiça daqui? Não, não tinha. Bom, fecha o parêntese.
Então, me puseram com aqueles dois outros colegas da mesma categoria que eu, com o chefe mais moderno. Detalhe: o chefe ignorava redondamente a nós três. Ele se dirigia a um secretário que tinha lá, ao secretário ele dava importância. Porque nós estávamos concorrendo com ele, ainda por cima ele era mais moderno do que nós. Claro que ele vai nos ignorar, porque por sermos mais antigos, nós talvez tenhamos mais experiência, ter mais conhecimento que ele e até ser promovido antes dele. Não podia, então fomos ignorados; nos deram uns trabalhos meio fictícios para fazermos, nós, três ministros de segunda classe, e o trato era só com o secretário. Onde já se viu uma coisa dessas? Foi quando eu falei: “Quer saber? Eu vou fazer um monte de provisório por aí”. Porque eu já não queria mais ser removida, eu queria ficar um pouco com a minha família, estava há muito tempo fora, longe, porque meus filhos tinham que estudar, então foram para outros países. Falei: “Mas eu vou e volto, aí tudo bem”. Assim, eu peguei esse monte de provisórios: fui para Cobija, na Bolívia, fronteira com o Acre, fui para Mauritânia, em Noaukchott, fui para Guiné-Bissau, já durante a pandemia. Antes de ir para Mianmar, fui para Bangladesh, tudo isso já nessa época de pandemia. E foi ótimo, foi desafiador, foi interessante. Como eram postos pequenos, eu ia muitas vezes para substituir o embaixador, eu sempre era chefe de posto. Então, eu posso não ter sido embaixadora, mas eu chefiei muitos postos já. Por isso eu não tinha aquela ideia de: “Ah, eu quero ser embaixadora”. Porque eu sabia como era, sabia que era um monte de responsabilidade, de trabalho que não acaba mais e tudo nas suas costas. Então, não é nada que eu invejo muito, não.
01:27:20
P1 — A pandemia mudou muito da dinâmica do trabalho? Quando é decretado o estado de pandemia pela ONU [OMS], você estava...
R — Bangladesh ou em Cobija.
01:27:40
P1 — Como foi esse momento, você estando em outro país, quando é decretado um estado de pandemia? Em que medida isso impactou, principalmente nesse momento inicial, quando não existiam protocolos estabelecidos.
R — Vou falar no português bem vulgar. Foi na base do: “Te vira, malandro”. Nós, brasileiros, queríamos sair da Guiné-Bissau e nós mesmos tivemos que fretar um avião. Vários brasileiros e outras pessoas que queriam sair de Bissau fretamos um avião e finalmente conseguimos sair de lá. Havia muito brasileiro que queria sair e pedia nosso apoio: “Mas e o governo brasileiro?” O governo brasileiro ficava em uma enrolação de manda avião, não manda avião, manda avião da FAB [Força Aérea Brasileira], não manda avião da FAB. Eu sei que depois que eu saí, algum avião da FAB foi para lá, mas passou muito tempo sem uma decisão. Porque também ninguém sabia direito o que era que estava acontecendo, mas eu sei que eu voltei em um avião fretado, não foi voo comercial, nem nada. Acho que esse avião foi para Portugal e, de Portugal, pegamos um voo comercial. Mas foi tudo meio assim ao Deus-dará, ninguém sabia muito também de nada ainda, o que acontecia, o que não acontecia. E nós tínhamos que trabalhar, os brasileiros estavam desesperados, batendo à porta da embaixada, querendo ser retirados do país, achando que tínhamos obrigação, mas não tínhamos instrução, não tinha nada, então não podíamos fazer nada. Foram bem complicados esses momentos.
Em Cobija, foi a mesma coisa também. Não porque as pessoas quisessem sair, mas foi bem no começo da pandemia, e uma funcionária que tinha contato direto com o público, pegou Covid e ainda não se sabia como curar, como não curar, foi um desespero. Depois um funcionário nosso, um oficial de chancelaria, um assistente de chancelaria, já não me lembro mais, acabou falecendo. E eu estava sozinha, eu era a única diplomata, os outros todos eram locais. Você tem uma responsabilidade tremenda e não tem aquela estrutura atrás de você para te dar o apoio. Era mesmo: “Te vira, malandro.” Desculpe-me, mas eu não tenho outra expressão melhor para descrever isso.
01:30:42
P1 — Até pelo momento político isso tenha ficado um pouco mais exacerbado.
R — Exato. Foi difícil. Foi bem complicado, mas enfrentamos.
01:30:57
P1 — E foi nesse momento que você também faz a sua tese para o Instituto Rio Branco. Foi em 2021, não foi?
R — Não, foi bem antes.
01:31:08
P1 —Ah sim, foi mesmo em 2012.
R — Sim. Em 2012, eu estava estudando para fazer a minha tese, para fazer pós-graduação em Psicologia. Mas eu fui para Bangladesh e o trabalho do consulado em Bangladesh era bem pesado, então eu não consegui. Eu fui para lá, tive que reorganizar tudo, não tinha ninguém do Brasil trabalhando naquela área. Havia muitas fraudes para famílias inteiras conseguirem ir para o Brasil. Então, eu não consegui conciliar trabalho e estudos, tive que largar a pós-graduação e depois nunca mais retomei.
01:32:04
P1 — Queria te perguntar sobre a adaptação a culturas, mas também a diferentes tipos de atuação diante de necessidades, demandas da chancelaria. Queria saber como é também essa adaptação no plano pessoal? O que envolve, por exemplo, a família. Como que foi para você lidar com essas demandas, adaptações que a carreira exige, sendo uma mulher diplomata?
R — Olha, esse aspecto para mim não foi difícil. Por natureza, eu acho que sou muito adaptável, tenho muita curiosidade por outras culturas e gosto de absorver, de aprender. Acho que talvez muitos colegas tenham sentido mais essa parte, mas eu não posso me queixar. É mais uma questão da minha personalidade, que é muito fácil nesse ponto. Eu me adapto muito fácil a novos países, novas situações, novos cargos. Claro que sempre tem alguma dificuldade, mas nada que eu diga que tenha sido sofrido ou algo assim. Não foi, não vou mentir nesse ponto. Para mim foi tranquilo. Nesse ponto, eu acho que realmente sou diplomata, mas em outras coisas eu acho que não. Mas nisso, sim.
Como mulher, o que eu mais me ressenti foi de que houve postos em que eu tive que ser “homem”. Foram muitos postos difíceis, países que, por conta da cultura, não aceitam muito bem a mulher, ainda mais em cargo elevado, em posição de mandarem neles, como, por exemplo, na embaixada. Eu tive que ser homem e fui tranquilamente, meu lado masculino manifestou-se, também não tive problemas. Já tive que falar grosso para ser respeitada, tive que brigar, tive que jogar pedra na Guiana, teve uma situação ali que eu realmente quase saí no braço. Teve de tudo, mas isso é o de menos, é o que me incomoda menos. Essas coisas já estão mudando um pouco, mas mesmo antes delas mudarem, eu soube me sobrepor a isso. Claro que eu sentia, mas eu também reagia à altura e mandava ver, não tinha problema, não. Mas o problema era mais dentro da carreira. Porque dentro da carreira, você não tem muito como se defender ou pelo menos não tinha: não havia ainda essa mentalidade como agora tem do feminismo profissional. Então, você era meio que massacrada e não sabia o porquê, não percebia de onde vinha. Mas você sentia que a coisa com você era um pouco mais difícil, era um pouco mais emperrada. Mas tinha que seguir, tinha que ir vivendo, tinha que seguir trabalhando e fazendo. Hoje em dia que nos conscientizamos mais de como essas coisas realmente aconteciam, e é agora que a gente percebe e vê. Naquela época eu sofria aquilo tudo e não sabia muito bem o que era, e a coisa ia indo. Quando tinha que falar mais alto, eu falava e muitas vezes eu me prejudicava por causa disso. Quando achava que não estava certo, eu dizia e também me prejudiquei por causa disso. Eu não dominava a arte da bajulação e isso é muito ruim no Itamaraty.
01:36:30
P1 — Quais foram os maiores desafios que você teve de lidar na sua carreira diplomática?
R — Você me perguntando assim, não me lembro de nada em particular. Houve vários desafios, foram desafios o tempo todo ao longo da carreira, mas eram coisas que eu gosto, coisas que me desafiavam a fazer algo. Por isso, eu também não fazia muita questão de ir para Londres, Paris, Washington aquela vidinha toda certa, que você sabe o que vai acontecer, está tudo bonitinho, tudo planejado. Meio chato...
01:37:30
P1 — Ainda que não tenha tido tanta margem de escolha, você optou por postos considerados menos prestigiados, até por conta da sua formação, da sua origem familiar europeia.
R — Sim, também não me atraíam tanto, porque eu já sabia como era a Europa, como eram os europeus, já sabia o que esperar de lá, já tinha conhecido. Claro, nunca tinha vivido por longos tempos, só passei férias. Enfim, eu gosto de desafios, então eu não posso te dizer alguma coisa específica que me desafiou, porque tudo me desafiou e tudo foi ótimo. Eu adorei os desafios.
01:38:15
P1 — Então, quais foram os maiores aprendizados que você teve no trabalho como diplomata?
R — Eu queria conhecer o mundo, conhecer pessoas diferentes, lugares diferentes. Não sei por que eu me emociono, mas você não precisa nem ir tão longe, nem ir para tantos lugares para aprender uma verdade muito simples e que parece um lugar-comum, mas que nós somos todos iguais. Que tudo que acontece lá no fim do mundo, acontece aqui também na sua aldeia, que você podia ter ficado aqui e teria vivenciado tudo isso também. Enfim, às vezes, a gente pensa que tem que sair, que tem que conhecer muita gente, e essa muita gente se reduz a uma pessoa, duas ou três, porque são as mesmas que estão ali em volta de você. Enfim, no fundo, o que nos move mesmo é aquela coisa interior da gente, que talvez a gente não diga nem confesse. Muitos falam: “Eu quero ser diplomata, porque a política externa, porque o país, porque isso, porque aquilo...” Mas, no fundo, o que te move é outra coisa lá de dentro, pelo menos comigo foi. É o que eu te falo, o resto é o que eu tenho que apresentar para o mundo, o que eu tenho que ficar falando. Também faz parte, é claro, mas são bijuterias que usamos. Resume-se a tão pouco...
01:41:21
P1 — Queria que você falasse os nomes dos seus filhos e o que hoje cada um deles está fazendo.
R — Minha filha mais velha é a Melissa e ela mora aqui em Brasília, mas ela trabalha na ABC, a Agência Brasileira de Cooperação, e ela vai muito para África, para esses países difíceis também. Mas ela gosta, ela está bem feliz no trabalho dela, é bem competente no que faz. A minha filha do meio chama-se Nádia, ela se formou em arquitetura, mas ela me deixou muito cedo: com dezenove ou vinte anos ela foi para os Estados Unidos, para morar com uma amiga que já tinha um apartamento lá. Ela estudou sempre em escola americana e a minha outra filha também, então a cabecinha delas ficou meio americanizada, o que eu podia fazer? Na Guiana, não tinha escola francesa, que era do meu gosto, tive que pôr na americana, porque na escola local não deu certo. Então, ela ficou com uma cabeça muito americana, foi para lá, formou-se, casou e vive lá, é arquiteta. E o meu filho chama-se Ravi, estudou canto lírico na Inglaterra e na Escócia. Veio a pandemia, ele já tinha terminado os estudos, não pôde ficar na Europa, porque o visto dele expirou, ele voltou para o Brasil. Aqui ele não conseguiu se colocar na área musical, mas ele teve sorte: por acaso, começou a trabalhar com interpretação e, hoje em dia, é intérprete, trabalha no governo, trabalha no Itamaraty, e está muito bem também, está feliz da vida.
01:43:28
P1 — Sabine, nesse momento da sua vida, quais são as coisas mais importantes para você?
R — Bom, eu acabei de me aposentar há dois anos, ainda estou em uma fase de adaptação à vida de aposentada, que eu estou achando um horror depois de uma vida tão animada, tão desafiadora, de países tão interessantes. Eu estou aqui parada em Brasília há dois anos. Para não dizer que não fui para lugar nenhum, dei uma voltinha no Rio de Janeiro, só. Então, eu sinto muita falta do agito, de ser exposta a coisas diferentes – nesse ponto eu acho que a diplomacia foi a profissão ideal para mim, porque eu amei. Um dia estou aprendendo sobre comércio, outro dia sobre cultura, outro dia sobre política, outro dia sobre consulado. Você não está sempre na mesma coisa, você está sempre aprendendo coisas novas, vendo coisas diferentes, isso para mim alimentou minha alma e meu intelecto. Então, nesse ponto, obrigada à diplomacia.
01:44:41
P1 — Qual é a importância de um projeto de memória sobre a diplomacia brasileira e de um projeto que privilegia esse tipo de relato, os testemunhos de quem esteve em campo?
R — Para ver diferentes pontos de vista, diferentes aspectos. Sempre é válido, sempre é importante e é muito gratificante para a pessoa saber que de alguma forma a experiência dela vai ficar em algum lugar.
01:45:35
P1 —Como foi a experiência de contar a sua história?
R — Não pensei que fosse falar tanto, você me fez falar muito. Foi interessante, gostei muito. Não repare eu me emocionar, porque eu ainda estou em uma fase muito ruim. Quando você sai de uma coisa assim tão intensa, tão animada, tão forte como é a diplomacia... Você cai de repente no mundo real, não é mais ninguém, não pertence mais. Afinal de contas o Itamaraty é uma instituição e você tem aquele sentimento de pertencimento. É um corte bem abrupto. Pelo menos, para mim, foi difícil, está sendo difícil. É como ficar sem chão, ficar sem aquela casa, por pior que ela fosse, por mais que ela te maltratasse. Mas era alguma coisa, era um referencial, uma coisa muito forte a qual você pertence, onde você vive e faz sua vida. Deve ser assim com qualquer profissão, mas eu acho que com Itamaraty é bem mais forte, pelo menos para mim foi muito forte. Pode parecer um contrassenso, porque eu nunca fui carreirista, eu nunca me liguei muito, mas, na verdade, eu me liguei. Dá para ver que me liguei.
01:48:30
P1 — Sim. Obrigado, Sabine. Obrigado.
FIM DA TRANSCRIÇÃO
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