Escrever sobre o EdPopRua, da minha perspectiva de professor, é revisitar uma experiência que me transformou. Não se trata apenas de lembrar encontros, conteúdos ou metodologias, mas de voltar a um percurso formativo que me deslocou do lugar tradicional de quem ensina e me colocou, muitas vezes, no lugar de quem aprende, escuta, partilha e se deixa afetar. Desde o início do curso, em dezembro de 2025, em São Paulo, fui percebendo que o EdPopRua não era somente uma formação sobre população em situação de rua. Era, na prática, um espaço vivo de construção coletiva de saberes, de leitura crítica do território e de afirmação do cuidado como compromisso ético, político e humano.
Uma das marcas mais fortes dessa trajetória foi a maneira como o conhecimento era construído. O curso não se organizava apenas pela transmissão de conteúdos. Havia rodas, místicas, leituras compartilhadas, cartazes, cadernos de memórias, café partilhado, debates, vídeos, dinâmicas em grupo e momentos de elaboração coletiva. Havia, sobretudo, uma aposta concreta de que educar não é entregar respostas prontas, mas criar condições para que a experiência se transforme em reflexão e para que a reflexão volte ao mundo como prática comprometida com a vida. As imagens dos encontros mostram isso de forma muito bonita: cadeiras em círculo, grupos reunidos em torno de cartazes, pessoas escrevendo juntas, escutando, argumentando, refletindo. Não era uma formação fria. Era uma formação viva.
Em diferentes momentos do curso, o território apareceu como uma chave central para compreender o cuidado. E ele não apareceu como cenário neutro ou simples recorte geográfico. Surgiu como espaço atravessado por disputa, circulação, violência, política pública, vínculos, sobrevivência e resistência. Em uma das atividades, os educandos elaboraram coletivamente três formulações muito potentes: território como disputa, território vivido e território...
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Escrever sobre o EdPopRua, da minha perspectiva de professor, é revisitar uma experiência que me transformou. Não se trata apenas de lembrar encontros, conteúdos ou metodologias, mas de voltar a um percurso formativo que me deslocou do lugar tradicional de quem ensina e me colocou, muitas vezes, no lugar de quem aprende, escuta, partilha e se deixa afetar. Desde o início do curso, em dezembro de 2025, em São Paulo, fui percebendo que o EdPopRua não era somente uma formação sobre população em situação de rua. Era, na prática, um espaço vivo de construção coletiva de saberes, de leitura crítica do território e de afirmação do cuidado como compromisso ético, político e humano.
Uma das marcas mais fortes dessa trajetória foi a maneira como o conhecimento era construído. O curso não se organizava apenas pela transmissão de conteúdos. Havia rodas, místicas, leituras compartilhadas, cartazes, cadernos de memórias, café partilhado, debates, vídeos, dinâmicas em grupo e momentos de elaboração coletiva. Havia, sobretudo, uma aposta concreta de que educar não é entregar respostas prontas, mas criar condições para que a experiência se transforme em reflexão e para que a reflexão volte ao mundo como prática comprometida com a vida. As imagens dos encontros mostram isso de forma muito bonita: cadeiras em círculo, grupos reunidos em torno de cartazes, pessoas escrevendo juntas, escutando, argumentando, refletindo. Não era uma formação fria. Era uma formação viva.
Em diferentes momentos do curso, o território apareceu como uma chave central para compreender o cuidado. E ele não apareceu como cenário neutro ou simples recorte geográfico. Surgiu como espaço atravessado por disputa, circulação, violência, política pública, vínculos, sobrevivência e resistência. Em uma das atividades, os educandos elaboraram coletivamente três formulações muito potentes: território como disputa, território vivido e território normatizado. Essa elaboração me marcou profundamente, porque mostrava que o cuidado à população em situação de rua não pode ser pensado fora das tensões reais da cidade. Há o território dos serviços, das normas e dos equipamentos; há o território das experiências concretas, dos trajetos, das praças, dos encontros e das estratégias de sobrevivência; e há o território dos conflitos, dos controles, das ausências e das negações de direitos. Ali, o debate sobre democracia e direito à cidade deixava de ser abstrato e passava a ser construído a partir da vida real.
Outro aspecto que me atravessou fortemente foi a forma como o curso recusava uma visão simplificada da população em situação de rua. Em vez de tratá-la apenas como expressão de falta, carência ou desproteção, os encontros revelavam também práticas de solidariedade, partilha de informações, divisão de comida, formas de apoio mútuo, grupos de convivência, movimentos sociais e redes construídas na própria rua. Isso muda completamente o olhar. Não se trata de negar a violência, a exclusão e o sofrimento que atravessam a vida na rua, mas de reconhecer que ali também existem saberes, estratégias, vínculos e formas próprias de produzir cuidado e resistência. Esse foi um dos aprendizados mais importantes que recebi dos educandos: para cuidar com dignidade, é preciso enxergar a população em situação de rua como sujeito de saber, de experiência e de direitos.
Houve um momento especialmente dedicado à cultura e à educação popular que me marcou muito. A leitura da poesia “A Rua”, de Mário Quintana, abriu espaço para uma reflexão profunda sobre invisibilidade, pertencimento, pressa, medo e deslocamento social. Depois, uma dinâmica em torno da mochila provocou uma das conversas mais sensíveis e potentes do curso. A mochila apareceu como metáfora da cultura da rua: não apenas como objeto, mas como casa, armário, memória, sobrevivência, dignidade e resistência. Aquilo que muitas vezes é lido de fora apenas como sinal de precariedade passou a ser compreendido como produção legítima de vida, sentido e identidade. Foi um momento em que a cultura da rua deixou de ser vista como ausência e passou a ser reconhecida como presença, linguagem, saber e experiência.
Nesse mesmo movimento, as discussões sobre o que é cultura, o que é cultura da rua e como a cultura atravessa o cuidado em saúde produziram registros coletivos muito expressivos. Nos quadros e cartazes apareciam palavras como amor, respeito, território, transformação, escuta, humanidade, políticas, rede, desafio, cuidado e diversidade. Isso diz muito sobre o grupo e sobre o próprio curso. Educação popular em saúde, ali, não era conceito decorado. Era experiência concreta de encontro, de afeto, de escuta e de compromisso com a realidade. A cultura aparecia não como elemento periférico, mas como dimensão constitutiva das formas de viver, adoecer, resistir, cuidar e significar o mundo.
Também me marcou muito a leitura compartilhada de textos sobre perspectiva decolonial, racismo, espiritualidade e dimensões invisíveis do cuidado. Esses debates ampliaram o entendimento de que não existe cuidado integral quando o racismo é tratado como detalhe, quando a cultura hegemônica se impõe como única medida de valor ou quando dimensões simbólicas e espirituais da existência são silenciadas pelas políticas e práticas de saúde. Foi muito potente ver como os educandos articulavam esses conteúdos com o cotidiano do trabalho, com seus territórios e com os desafios concretos da atenção à população em situação de rua. Isso me ensinou muito sobre o papel da docência: não conduzir apenas uma sequência de temas, mas sustentar um espaço em que teoria e experiência possam se interrogar mutuamente.
Em outro momento do curso, a vigilância popular em saúde ganhou centralidade e produziu um deslocamento muito importante no modo de pensar o processo saúde-doença. A discussão passou a olhar menos para o indivíduo isolado e mais para as condições de vida, para o território, para as desigualdades e para os fatores que organizam vulnerabilidades e possibilidades de cuidado. A partir de músicas, filmes, estudos de caso, leitura coletiva, rodas de sistematização e mapeamento das forças e lacunas do território, foi se consolidando a compreensão de que o sofrimento não pode ser lido fora da determinação social da vida. Ali, o território aparecia articulado a risco e proteção, determinação social, processo saúde-doença e vigilância popular, revelando que o cuidado só se fortalece quando é capaz de ler a vida em sua complexidade.
Mais adiante, o curso aprofundou ainda mais a reflexão sobre vigilância em saúde, protagonismo popular, desigualdades, participação social e aporofobia. Esse foi um ponto muito forte, porque ajudou a mostrar que a exclusão da população em situação de rua não é um acidente, mas parte de dinâmicas estruturais que atravessam a cidade, os serviços e a própria forma como a pobreza é socialmente tratada. Em uma das atividades, os grupos organizaram cartazes sobre práticas dos profissionais de saúde, práticas de participação popular, práticas de vigilância popular e práticas da população em situação de rua. Ali apareciam conselho gestor, assembleias, comitês, campanhas, educação em saúde, notificação, teste rápido, vacinação, saúde mental, identificação de riscos, partilha de informações e solidariedade. O mais bonito foi perceber que vigilância popular não estava sendo tratada como palavra de efeito, mas como prática concreta, coletiva, territorial e implicada com a vida.
A construção do plano de ação foi, para mim, um dos momentos mais expressivos de amadurecimento do grupo. Diagnóstico da realidade, definição de objetivos, metas, ações, cronograma, pessoas envolvidas, recursos necessários, avaliação e resultados esperados passaram a ser pensados em diálogo com a rede de saúde, com os princípios do SUS e com os atributos da atenção primária. Nesse ponto, o curso mostrava de forma muito clara que não basta sensibilizar. É preciso formar para agir, para articular, para planejar e para intervir de forma mais crítica e comprometida com os territórios. A rua aparecia ali como espaço de cuidado, mas também como espaço de disputa por direitos, de enfrentamento às desigualdades e de elaboração coletiva de respostas concretas.
Se eu tiver que dizer o que mais me transformou nessa experiência, eu diria que foi a troca. A troca verdadeira, não a palavra bonita. Os educandos me ensinaram muito com suas falas sobre os territórios, com os relatos das redes que constroem, com os desafios do Consultório na Rua, com os obstáculos dos serviços e, principalmente, com a forma como falam das pessoas que acompanham. Havia nas falas deles uma combinação muito forte entre dureza da realidade e delicadeza do cuidado. Isso me tocou. Eu cheguei como professor, mas em muitos momentos me percebi também como aluno. Aprendi a escutar melhor. Aprendi a reconhecer mais a potência dos saberes situados. Aprendi que não há pedagogia viva sem humildade diante da experiência do outro. E aprendi que o cuidado, quando atravessado por afeto, escuta e compromisso, produz deslocamentos também em quem ensina.
Talvez seja isso que o EdPopRua tenha deixado de mais forte em mim. A compreensão de que memória formativa não é apenas lembrança. É matéria viva de transformação. Quando eu lembro das rodas, dos cartazes, da poesia, da mochila, dos mapas, da leitura das legislações, das palavras afixadas no quadro, das sínteses coletivas, dos cafés partilhados, das cirandas e dos planos construídos em grupo, eu não estou apenas recuperando fatos. Estou retomando um processo em que fomos produzindo, juntos, outra forma de pensar educação, cuidado, território e direito à cidade.
Cada história compartilhada no curso ampliou meu modo de compreender a educação popular em saúde. Cada encontro reafirmou que a população em situação de rua não pode ser vista apenas a partir da falta, mas a partir de sua dignidade, de seus saberes, de suas estratégias e de sua condição de sujeito de direitos. E cada troca me mostrou que a docência, nesse contexto, só faz sentido quando se deixa atravessar pela experiência, pela escuta e pelo compromisso com a vida concreta dos territórios.
O EdPopRua me ensinou, como professor, que memória também é ação política. E que cada história pessoal, quando encontra outras histórias em uma roda de confiança, reflexão e partilha, torna-se elo potente de uma coletividade que resiste, cuida, aprende e transforma.
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