Projeto: Conte sua história
Entrevista de Marivalda Querino Santo
Entrevistada por Jonas Samaúma, Iuli Neves, Felipe Moraes
Aracaju, 02/05/2024
Entrevista nº: PCSH_HV1395
Realizada por Museu da Pessoa
Revisada por Ane Alves
P1 - Então, agradecendo a você, Marivalda. Ia pedir pra você fechar seus olhos só por um momento, e voltasse, assim, pra primeira coisa que você lembra. Qual é a coisa mais antiga que vem dentro da sua memória? E quando estiver pronta, pode abrir.
R: Pronto. Pra contar, desde 10 anos que eu trabalho com meu pai na roça plantando batata. Arrancava, lavava, enchia o saco com ele. Depois, a batata acabava, a gente tinha que fazer farinha, pegar a mandioca, fazer farinha, pra vender. Acabava a mandioca, aí era o mangue. Aí o mangue não acaba, continua a vida toda, né? Que eu sou a mais velha, tenho 66 anos. Até hoje, eu trabalho no mangue. Precisa contar que trabalhei na escola, não? Até hoje trabalho no mangue, porque gosto. Tiro massunim, tiro sururu, é ostra, é aratu. Canto muito dentro do mangue, me sinto feliz quando eu tô no mangue, que é um lazer muito maravilhoso! A gente esquece de tudo na nossa vida, dos problemas. E até hoje, eu continuo na mesma profissão. E depois é o samba de coco. Sou a mestre do samba. Continuo cantando, sambando, ânimo, sem mim, não tem animação.
P1 - Vamos aproveitar que você começou pelo seu pai…
R: Meu pai e minha mãe. Os dois.
P1 - Você conta um pouco o que você sabe da história de cada um. Assim, de onde eles são, como era a vida.
R: Somos daqui mesmo, desta terra mesmo, de Areia Branca. Nascemos aqui, meu pai também nasceu aqui, aqui mesmo. Nascemos aqui e aqui mesmo nós criamos. Nós criamos aqui. Meu pai e minha mãe trabalhando no mangue. Ele também vendia caranguejo. E eu tirando massunim pra vender, pra ajudar a criar os irmãos, porque ele sozinho não podia. Naquele tempo não tinha ajuda de ninguém, só Deus mesmo. Aí catava massunim a semana toda, botava...
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Entrevista de Marivalda Querino Santo
Entrevistada por Jonas Samaúma, Iuli Neves, Felipe Moraes
Aracaju, 02/05/2024
Entrevista nº: PCSH_HV1395
Realizada por Museu da Pessoa
Revisada por Ane Alves
P1 - Então, agradecendo a você, Marivalda. Ia pedir pra você fechar seus olhos só por um momento, e voltasse, assim, pra primeira coisa que você lembra. Qual é a coisa mais antiga que vem dentro da sua memória? E quando estiver pronta, pode abrir.
R: Pronto. Pra contar, desde 10 anos que eu trabalho com meu pai na roça plantando batata. Arrancava, lavava, enchia o saco com ele. Depois, a batata acabava, a gente tinha que fazer farinha, pegar a mandioca, fazer farinha, pra vender. Acabava a mandioca, aí era o mangue. Aí o mangue não acaba, continua a vida toda, né? Que eu sou a mais velha, tenho 66 anos. Até hoje, eu trabalho no mangue. Precisa contar que trabalhei na escola, não? Até hoje trabalho no mangue, porque gosto. Tiro massunim, tiro sururu, é ostra, é aratu. Canto muito dentro do mangue, me sinto feliz quando eu tô no mangue, que é um lazer muito maravilhoso! A gente esquece de tudo na nossa vida, dos problemas. E até hoje, eu continuo na mesma profissão. E depois é o samba de coco. Sou a mestre do samba. Continuo cantando, sambando, ânimo, sem mim, não tem animação.
P1 - Vamos aproveitar que você começou pelo seu pai…
R: Meu pai e minha mãe. Os dois.
P1 - Você conta um pouco o que você sabe da história de cada um. Assim, de onde eles são, como era a vida.
R: Somos daqui mesmo, desta terra mesmo, de Areia Branca. Nascemos aqui, meu pai também nasceu aqui, aqui mesmo. Nascemos aqui e aqui mesmo nós criamos. Nós criamos aqui. Meu pai e minha mãe trabalhando no mangue. Ele também vendia caranguejo. E eu tirando massunim pra vender, pra ajudar a criar os irmãos, porque ele sozinho não podia. Naquele tempo não tinha ajuda de ninguém, só Deus mesmo. Aí catava massunim a semana toda, botava sal, que não existia geladeira e ia vender na talaia, lá nos bares. Naquele tempo eram uns barzinhos meio quebradinhos, mas já ajudava. Ia de pé, não tinha carro. Só tinha um carro às quatro e meia da manhã, outro meio-dia e outro cinco horas da tarde. A gente tinha que ir de pé oferecendo massunim lá nos bares. E vendia, quando vinha, vinha com dinheirinho para sustentar a família.
P1 - Você sabe como seu pai conheceu sua mãe?
R: Mora também aqui, minha mãe, na Vargem Grande. Começaram a namorar, meu avô não queria, meu pai pegou e carregou. E morava aqui atrás da gente, aqui. Porque aqui foi a minha avó que deu, aí ele morava aí com minha avó, depois ele casou, casou não, se juntou com minha mãe. Aí meu avô tinha um bocado de terreno lá, que aqui foi da minha avó e lá foi do meu avô. Aí fizeram uma casa, foram conviver. Ainda tiveram 14 filhos, tem nove vivos, a mais velha sou eu. Dos vivos, dos mortos, não. Morreram quatro, tem nove vivos.
P1 - Então eram 14 filhos?
R: 14.
P1 - E a sua mãe era marisqueira também?
R: Minha mãe, não. Minha mãe andava vendendo laranja nos jogos, na escola. Aqui mesmo nessa escola ela vendeu muito tempo. Mangue ela não ia, não. Agora, trabalhar, ela trabalhava vendendo laranja. Tinha jogo, ela ia vender. Tinha a brincadeira, ela ia vender laranja, amendoim, tudo, bala, tudo. Aí foram vivendo. A gente foi crescendo, aí a gente foi vendendo geladinho também, e a gente pegou o mesmo ritmo dela. E estamos levando.
P1 - E a mariscar?
R: O samba de coco? A mariscar? Com quem? Eu e o meu pai íamos pescar de noite, com a rede grande, pegar peixe, de caceia. Depois eu já andava só mesmo, na canoa, ia para o mangue só. Eu tirava caranguejo também. Mas depois a gente vai chegando na idade e cansa, porque o mangue rebenta pra tirar caranguejo, sabe? Mas eu tapava o caranguejo, e tirava caranguejo tapado, pra ajudar meu pai, porque ele não podia. A minha mãe dentro de casa pra cuidar dos meninos, e a gente foi levando a vida até, graças a Deus, tá todo mundo aí criado.
P1 - Você começou assim com quantos anos?
R: Com 12 anos.
P1 - E até esses 12 anos, como era a sua vida? Como era a sua vida de criança?
R: Não tinha lazer nenhum. Necessidade, passamos muito! Porque não tinha comida pra comer. Hoje todo mundo é rico, meu filho. Naquele tempo nós não tínhamos. Eu saía de manhã pra maré, pegava duas marés, uma de manhã e outra de tarde, pra chegar com as coisas para ir trocar por aí, pelas bodegas, por um assado de milho pra comer. Que nós não podíamos comprar feijão, não tinha dinheiro. Era muito menino pra comer, aí a vida foi assim, passei muita necessidade. Hoje nós somos ricos, graças a Deus, minha filha.
P1 - Mas aí você ia trocar o que? Que você falou que ia na bodega trocar?
R: Trocar caranguejo, aratu, nos bares, nos restaurantes, eles compravam. Aí a gente ia pra alguma bodega trocar caranguejo, para dar amassado de milho para fazer o cuscuz pra comer meio-dia. Nós não podíamos comprar farinha. Cara! Porque não existia dinheiro. A pessoa naquele tempo era uma pessoa muito humilde. Hoje todo mundo, meu filho, é rico, graças a Deus.
P1 - E seu pai ia todo dia?
R: Todo dia. Todo dia meu pai ia pra maré pescar e tirar caranguejo. Pescar e tirar caranguejo. Aí vinha, pegava o quê? Dois quilinhos de peixe pra comer. Muitos filhos, né? Aí todo dia, ainda ia de noite. Vivemos na maré mesmo. Depois vieram os meninos, crescendo, aí andavam com ele. Trabalhamos muito, meu filho! Mas graças a Deus, todo mundo, pode ser homem ou mulher, cada um tem que viver, né?
P1 - Você lembra a primeira vez que você acompanhou?
R: Meu pai? Me lembro, com 12 anos.
P1 - Como foi?
R: Para ir pescar de rede. Eu remando na polpa e ele botando a rede de caceia pra pegar as tainhas, batendo na canoa, que era para as tainhas espantar pra enganchar na rede. Desde os 12 anos.
P1 - E tinha lua para pesca?
R: De noite tem. Quando era noite de lua a gente ia e pegava peixe mesmo.
P1 - Mas mudava, assim, a quantidade de peixe de acordo com a lua?
R: É, muda, porque são as tainhas maiores. Tinha noite que papai ia e pegava muita sardinha, aí a gente tratava, salgava e botava no sol pra secar, para ir comendo.
P1 - E como é que era a pesca do caranguejo? Você podia me contar?
R: O caranguejo? Tapa o caranguejo com a lama, ele tá no buraco lá dentro, aí tapa. Aí ele vai subindo, subindo. Aí depois você vai olhar. Quando você olha, o caranguejo tá lá em cima. Aí você bota a mão, pega, já tá mais raso, porque ele é fundo, viu? É muito fundo. Se for no braço, aí a gente tapa e ele sobe. Aí pega ele mais raso. É meu filho, é trabalho!
P1 - Teve alguma pesca, assim, dessas que foi marcante pra você? Que aconteceu alguma história, teve uma que te marcou?
R: Não, meu filho. Assim, não era marcado. Era mais sofrimento, que a gente não andava pra canto nenhum, não tinha aquela roupa pra mudar, lavava uma, ficava com outra. Aí, meu filho, só era sofrimento. Só que eu não vou passar para os meus filhos o que eu passei. Foi muito marcado mesmo de luta, luta mesmo na vida, viu? E a gente tem que agradecer a Deus ainda tá viva hoje, com saúde. Porque hoje eu vejo as meninas novas todas se acabando.
P1 - Tu falou que tinha 14 irmãos.
R: 14.
P1 - Como era a relação com seus irmãos e suas irmãs?
R: Assim, minha mãe ia lavar roupa, eu como irmã mais velha, ficava em casa cuidando dos meninos. Não tinha farinha, a gente comprava bolachão, ralava, fazia uma papinha de bolachão e dava para os irmãos comerem. Papai plantava a roça, aí tinha melancia, o lanche dele era melancia. Tempo bom também, né? Que é comida saudável, né? É assim a vida.
P1 - Vocês tinham um roçado?
R: Tínhamos. Meu pai plantava a roça. Era batata, era mandioca, era melancia. Aí nós pegávamos, dávamos aos meninos. Mamãe saía de manhã, só chegava de tarde, pra ir lavar roupa. Aqui longe, lá longe.
P1 - Lavava a roupa aqui?
R: Não, em uma fonte. Era fonte. Não existia aqui não, era lá no Caboco.
P1 - E usava o que pra lavar?
R: Não, era nas pedras. É, era nas pedras. Tinha uma ruma de pedra na fonte. Aí comprava aquelas bacias de alumínio, colocava, enchia d'água e ia lavando na pedra.
P1 - Ainda tem gente que lava assim lá?
R: Não. Tem mais não. Até a fonte aterraram. Porque o rico comprou. Aí virou chácara, aí aterraram. É, mudou tudo aqui.
P1 - Isso que eu ia te perguntar, você vendo hoje em dia, o passado, o que era de diferente nessa época?
R: Hoje é tudo moderno, tudo na mão. Vai reclamar do quê? Torneira dentro de casa, tudo, tudo. Hoje tá todo mundo na boa. Não é como naquele tempo que vinha com um pote d'água na cabeça, lata, balde. E hoje não, hoje é dentro de casa, água, tudo na mão. É tudo fácil. Naquele tempo era tudo difícil, meu filho.
P1 - Tinha luz?
R: Candeeiro. Luz quando Deus mandava a lua. Aí era bonito, viu? Noite de lua.
P2 - Como era Areia Branca no seu tempo de moça?
R: Areia Branca era cheia de mato. Cajueiro, areia, tudo aberto. Não existia essa ruma de casa assim, não, era uma bem distante. Não tinha casa perto. Tapada de barro, não tinha condição de comprar bloco, era tapada de barro. Meu pai ainda tem a dele tapada de barro. A do meu pai é de barro. Você olha e não diz que é rebocada. A dele é tapada de barro. Foi até eu que tapei mesmo, nós. Quando eu digo às pessoas que vão lá, não acreditam que é tapada de barro, porque é rebocada, ele rebocou.
P1 - Como era pra chegar em Aracaju?
R: Aracaju? Quatro e meia da manhã, saía às quatro e meia da manhã, só chegava meio-dia. De meio-dia, se perdesse o carro de meio-dia, chegava cinco horas da tarde. Só tinha um ônibus, se chamava 130. E assim mesmo a gente ia pegar no entroncamento, porque não tinha pista aqui. A gente saía de pé pra ir pra lá, pro entroncamento. A gente ia pra lá de pé, não existia pista. Tinha o caminho, mas não entrava carro. Aí depois que foi crescendo e foi crescendo, aí fizeram rotas de piçarra. Mas isso aqui era tudo mato, cajueiro, coqueiro, era bastante coqueiro aqui. Hoje mudou. Mangaba, aqui não tinha não. Só tinha cajueiro, pé de mangueira, assim, pé de goiabeira, aroeira, murici, muito pé de murici. Agora… Ingá, pé de araçá, mas, coisa não tinha não, como é? Mangaba não existia não.
E aí você estava falando que à noite... Como é que era à noite na casa? Porque hoje...
R: Candeeiro.
P1 - Mas aí vocês faziam o quê? Brincavam? Eles contavam histórias?
A gente acostumava no escuro mesmo, brincava assim, perto de casa mesmo, ao redor da casa, que naquele tempo não tinha ninguém, naquele tempo tinha bastante espaço, mas brincávamos nos terreiros de casa mesmo, no escuro mesmo. E acostumamos. E os candeeiros dentro de casa, era candeeiro.
P1 - E brincavam de que as crianças?
R: De se esconder, daquela... “Eu sou rica, rica, rica, de marré desci”. Era. Brincava de bola, mesmo assim, no terreiro, que era tudo limpinho, os terreiros eram todos varridinhos de engaço, que hoje é gadanho. Naquele tempo era engaço, de coqueiro. Era tudo limpo. A gente brincava. Acostumava, meu filho, no escuro mesmo. Agora, quando era noite de lua, era bonito. Era o dia todo, assim. Pra gente, parecia que era de dia. Hoje a gente só vê a lua se sair pra fora, porque é luz. Naquele tempo, meu filho.
P1 - E tinha algum antigo, alguém mais velho que contava histórias?
R: Aliás, depois nós saímos daqui. Meu pai tem outro terreno lá onde ele mora hoje, aí a gente foi pra lá, não tinha nada de radiola nem nada. Aí nós tínhamos um tio e minha madrinha, que ele comprou um rádio e a gente toda noite ia ver a rádio do baile, Silva Lima, já ouviu falar em Silva Lima? Aí a gente ia meio dia para assistir. Pra ver, falando, não era ver como hoje, na televisão, era assistir no rádio. Tinha a rádio do baile, aí a gente ia pra se animar, mas a luz não existia, não, era no escuro mesmo. Porque acostuma, tudo acostuma.
P1 - E aí eu ia te perguntar, nesse mundo de rezadeira, você já foi rezada quando era criança?
R: Minha avó rezava. Aí eu era mocinha, ela começou a me ensinar. Eu disse: “Vó, eu não vou saber rezar, não.” Ela: “Aprenda, minha filha, que um dia eu vou morrer e você vai ficar com essa herança.” Eu disse: “Como é que eu vou aprender?” Ela disse: “Aprendendo.” “Tá certo.” Ela foi me ensinando, me ensinando, aí eu fui observando, né? Aí aprendi. Minha avó morreu. Aí tinha um cachorro da vizinha que estava bem doente, estava arriado mesmo. Aí a vizinha disse assim: “Ô, Marivalda, você não aprendeu a rezar com a sua avó? Reza por esse cachorro?” Eu disse: “Rapaz, eu vou rezar, agora, eu não tenho o poder de curar esse cachorro não, quem vai ter poder de curar é Jesus.” E o cachorro levantou. Eu digo: “Agora eu vou rezar ao povo.” Aí, até hoje, continuo rezando e Deus fazendo a obra.
P1 - Levantou o cachorro? Foi a primeira vez?
R: Deus, né? Eu não! Deus levantou o cachorro. Foi, a primeira coisa que eu rezei foi o cachorro. Eu digo: “Agora eu vou rezar, que eu sei que Deus faz obra mesmo.” Eu tinha medo de rezar, né? Nunca rezei ninguém. Aí pronto, fui rezando, rezando e graças a Deus até hoje.
P1 - Quantos anos?
R: Rapaz, eu acho que eu tinha uns 17 anos. Acho que era uns 17 anos.
P1 - Quando começou?
R: Quando eu comecei. Já sabia, assim, minha avó rezando, mas eu fiquei com medo, tímida. Aí foi quando minha avó morreu, aí apareceu essa pessoa com esse cachorro, eu digo: “Pronto, vou rezar. Vou ver o que é que Deus vai fazer agora.” Aí o cachorro levantou. Eu digo: “Agora eu vou rezar as pessoas.” Aí continuei.
P1 - Nunca parou?
R: Não. Até hoje, se chegar alguém bem ruim de noite, eu rezo, de noite também. Não pode, mas quem vai fazer a obra é Jesus, não sou eu. Graças a Deus.
P1 - Sua avó morava contigo?
R: Não, minha avó morava aqui no fundo, que era tudo perto, as casas assim. Era.
P1 - Qual era o nome dela?
R: Isabel, Maria Isabel de Oliveira Santa.
P1 - Por qual tipo de problema as pessoas iam procurar ela?
R: Só de olhada. Eu também, só rezo de olhada.
P1 - Só de olhada.
R: Só de olhada. O povo vem pra rezar de arcas abertas, eu não sei, meu filho. Rezar de saltador, eu não sei. Tem uma moça ali, aí eu informo: “Vai.” Aí, quando tá de arcas abertas, que não tem mais ninguém aqui pra rezar, aí eu digo: “Ó, sabe o que você faz? Suba num pé de cajueiro, suba três vezes assim, não bota o pé no chão, que isso aqui vai…” A arcas abertas fecha, fecha e fecha mesmo. Aí depois a pessoa vem agradecer: “Ô, dona, Marivalda, eu fiquei boa da dor nas caixas dos peitos. Eu digo: “Graças a Deus!”
P1 - E qual é a diferença?
R: De que? Da reza?
P1 - Da reza do olhado e das arcas?
P1 - Eu não aprendi, não me interessei, minha avó não sabia rezar. Tinha uma moça aqui, que é ali no bar do Opção, mas eu não tinha muito assim, coisa que a gente não tinha muito chegado assim perto, aí eu não perguntei a ela como era a reza. E do saltador tem uma moça ali, até ela disse que vai me ensinar. Eu disse: “Olha, mulher, fica com a sua reza, você tá nova e eu tô velha, pra que eu vou rezar mais saltador?”
P1 - E pra que serve a reza do saltador?
R: Saltador, é que fica uma ruma de boga nas pernas, ou na barriga assim, que se passar em cruz, mata. E também a rosa, vermelha, o pé não sara, vira uma ferida, aí fica todo vermelho, aí tem que rezar. O povo chama “a vermelha”, passou na perna, né? Aí tem que rezar. Aí melhora. Tem uma moça aqui perto que ela reza também.
P1 - É o que? Qual o nome que a senhora falou?
R: Saltador.
P1 - Saltador. A outra é abertas?
R: Arcas abertas.
P1 - É o que isso?
R: Você fica com as caixas do peito ferido, doendo, que você não pode nem… aí é uma dor tão grande que começa daqui e responde nas costas, aquela dor fina. Aí se não se cuidar, vira tuberculoso. Arcas abertas. Aí sobe num pé de árvore, três vezes, não bota o pé no chão, não, três vezes, subindo e descendo, sem botar o pé no chão. Pronto, ali fecha. É, como Deus tem poder, meu filho.
P1 - E como é que a sua avó, porque rezador, a pessoa nasce, né?
R: É.
P1 - Nasce com isso, né?
R: É.
P1 - E aí, como é que a sua avó falou pra você que você tinha isso? Você lembra de quando ela foi te contar?
R: Eu não me lembro mais. Não me lembro.
P1 - Você só lembra dela falando pra você aprender a...
R: Tinha uma tia mesmo, também, que ela rezava também de olhado e de sóis sereno, que é dor de cabeça direto, direto. Eu não aprendi também. Ela morreu, minha tia. A minha família é tudo rezador. Tinha uma tia que também era rezadeira, essa rezava de todo tipo de reza. Morreu também. Chamava Mãe Gertrude, rezava de tudo.
P1 - E ela te ensinava como? Era você olhando ou ela te explicando?
R: Não, ela rezando e eu olhando. E me ensinando como eram as palavras. Aí eu fui aprendendo. A gente nova, quando se interessa, aprende. Ela me ensinando, aí eu aprendi. Agora essas outras rezas, eu não aprendi, não. Porque tem o derrame também, quando passa… Essa tia, Mãe Gertrude, ela rezava de tudo, ninguém aprendeu.
P1 - Você falou 14 irmãos, né? Algum desses irmãos também aprendia junto essa coisa de rezar?
R: Não. Nenhum aprendeu. Nem meu pai não aprendeu, porque tem vezes que eu tô lá e ele: “Dinha, passa aqui o ramo, minha filha, em mim”. Porque ele devia aprender, mas não aprende. Meu pai tem 81 anos, 91. Mas naquele tempo a gente não se interessava por nada, é jovem. “Vamos é brincar, viver e pronto”. E hoje não, hoje a reza é boa. Porque você vê, tem criança que vai pro médico, já teve aqui um bocado, que vão pro médico, quando chega lá o médico diz: “Olha, procura uma rezadeira”. E vem, eu rezo e Deus faz a obra. Eu não tenho poder meu filho. Quem tem poder é Jesus. E Deus cura! Fica bom mesmo. E vem muita gente, muita, muita mesmo.
P1 - Você já precisou ser curada em alguma reza? Alguma rezadeira te curar?
R: Eu mesmo me rezo. Me rezo. Quando eu vejo as coisas ruins, faço meus banhos e tomo, eu mesmo.
P1 - O banho, você aprendeu como, a fazer?
R: Alfazema, aroeira, quando você está bem pesado, você pega a folha de mangueira verde, né? Sempre o pau, você toma seu banho. Eu tomo mais de alfazema, eu gosto de alfazema, a aroeira também, que é cheiroso, manjericão, eu chamo marigicão, também é bom.
P1 - Mas era sua avó que te ensinava também?
R: Não. Vem assim de cabeça. E eu faço. E dá certo. Vem aquela voz e: “Faça isso”. E eu faço.
P1 - Você sentia, às vezes, a própria planta falando com você?
R: Não. É, vem assim: “Faça isso que você melhora”. Aí eu vou e faço. É Deus, né?
P1 - E a senhora sonhava muito também?
R: Não. Tem vezes que vem assim, dizer na minha mente, as coisas assim, chega pra mim e explica: “É assim, assim. Não vá que não dá certo. Não faça”. Né? A gente quando tem um coração bom, meu filho, Deus tá toda hora e todo momento do nosso lado, os anjos de luz, sempre ajudando a gente.
P1 - Você falou que você é devota da… Qual que é o nome?
R: Nossa Senhora da Aparecida. Ela tem dado muitos milagres, muitos, muitos.
P1 - Como foi que a senhora ficou devota dela?
R: Olha, eu completei 50 anos, aí meu marido me deu de presente. Eu já era assim, devota, mas não comprava. Aí quando eu completei 50 anos, ele me trouxe de presente e me deu. Até hoje eu cuido dela e ela cuida da família da gente toda, que eu entrego direto a ela.
P1 - E na hora que você ia benzendo, você sentia que quem te acompanhava? Era ela ou era...
R: Não, a gente é assim, eu peço a Deus primeiro, pra Deus iluminar os nossos caminhos, né? Dar uma luz pra gente rezar aquela pessoa e Deus fazer a obra. Aí depois vem aquela voz e manda eu fazer: “Ensino isso a ele” “Ensino”. E dá certo. É porque é muita coisa que vem e diz assim, a gente no ouvido.
P1 - E qual foi o caso mais difícil que você já pegou pra rezar?
R: Ô, meu filho, é tanto, que eu nem sei, viu? É tanto. Tem gente que vem pra cá e se manifesta aqui. Eu digo: “Misericórdia!”.
P1 - Tem, é?
R: Tem. Eu também pego água benta, boto, mando tomar banho, sabe? Porque eu benzo muito a água, sabe, com o padre, era padre Marcelo, agora é padre Reginaldo. Aí eu benzo, quando vejo que as pessoas estão ruins, eu digo: “Olha…” Aí passo a água, “Leve pra tomar banho com alfazema.” Aí no outro dia a pessoa diz: “Dona Valda, eu tô bem, graças a Deus!” Eu digo: “Graças a Deus!” Porque eu nem boto e nem tiro, quem tira é Jesus e a reza. Mas é assim, eu não tenho dom de ver isso, aquilo, vem assim e eu falo, sabe? Eu não vou mentir, porque Deus tá vendo tudo. Gosto das coisas certas.
P1 - E algum dos seus parentes já se interessaram em aprender contigo?
R: Que? É o filho, a filha. Eu rezo alto pra todo mundo ver. Ainda tem gente que diz assim: “É difícil a gente ver uma rezadeira rezar assim como a senhora”. Eu digo: “Eu rezo que é pra pessoa aprender”. Sabe? Mas nem todo mundo se interessa, meu filho. Pensa que nunca vai acontecer. Nunca vai acontecer. Vai sim, vai acontecer. Um dia acontece. Mas é assim mesmo, vamos levando.
P1 - Mas você vê o dom em algum deles?
R: Neles? Não. Eu rezo muito, peço a Deus pra dar o livramento, sou uma mãe boa. Graças a Deus, sou uma mãezona. Aliás, sou, graças a Deus, eu sou pra todo mundo. Eu tenho um coração muito bom, graças a Deus. Deus me fez assim e assim vou morrer. Vou ser até quando Deus quiser, meu filho?
P1 - Você fala muito de Deus, teve algum momento na sua vida que você sentiu, assim, a presença mais forte de Deus?
R: Já. Eu fui para o retiro e Deus também fala. Vi Nossa Senhora com o filho dele no braço, com a filhinha dela no braço. Aquilo para mim foi um milagre muito grande! Que eu sou pecadora, e ter esse poder de ver minha mãe. Então, eu vou só dizer o quê? Agradecer a Deus. E Deus me ajuda muito e tem me ajudado. Tudo que eu peço a Ele, Ele me dá. Não vou pedir riqueza. Eu pedi saúde, meu filho? Que é o que a gente precisa, saúde e paz, né? Só é isso que eu peço.
P1 - Foi num retiro?
R: Foi. Num retiro, foi. Eu vi Nossa Senhora toda de branco com a menininha no braço. É muito lindo. Eu me lavei foi de chorar. Mas o retiro era com os olhos fechados, não era aberto, não. Foi aqui mesmo, na igreja católica, ali no convento. Era com os olhos fechados mesmo, e vi. Aí, alguém conheceu, não sei, foi minha sobrinha, ela veio e me abraçou. Aí chorava eu e ela. Porque ela também é muito católica, minha sobrinha, sabe? Ela também estava no retiro. Muito, muito mesmo. Então a gente tem que agradecer muito, muito a Papai do Céu e a Nossa Mãe Maria Santíssima, meu filho? Sem Deus ninguém é nada, e com Deus nós somos tudo.
P1 - E voltando lá para a infância, você estava falando que aprendeu, começou a sambar. Como foi seu primeiro contato com o samba?
R: Meu pai que levava a gente. Minhas irmãs, nenhuma se interessou, só eu. Aí fui ficando mocinha e fui andando com o meu pai e minha mãe. Dia de sábado mesmo, a gente ia pro samba, quando era samba de coco mesmo, de São João, de tirar o mastro, aí a gente ia pra Gameleira, só chegava no domingo de noite. Comia nas portas, sambando. A minha vaidade foi muito boa, assim, sofrido e também foi boa, não vou reclamar, porque eu andava com meu pai e minha mãe, sambando, os outros não queriam ir e aí ficavam em casa. Minha mãe dizia: “Pois fiquem e eu vou. Vamos simbora”. Aí eu ia, era a mais interessada. Eu digo: “Eu vou porque eu gosto. Eu gosto de forró, eu gosto de samba. Eu gosto de tudo, de tudo um pouquinho eu gosto. E animo também.
P1 - E era onde?
R: O samba era nas portas, nas casas das pessoas. Nós começávamos aqui na Areia Branca, de casa em casa, cantando. Aí, na hora do café, assim, de manhã, o povo dava café, à noite dava café, e a gente, e o samba de coco, relampeando com os coroas. Mas hoje, esses jovens não querem mais, não, meu filho. Dizem que é pro velho. “Eu sou velha pra estar sambando?”. Eu queria, sabe, que os meninos hoje, os jovens, essas crianças, aprendessem. Então é bom na escola também. Eu ainda ensinei um bocado na escola ainda, essas crianças, mas não vai pra frente não. Os meninos querem arrocha, essas outras danças não são samba de coco. Fica difícil.
P2 - E no tempo que tinha esses… era tipo um cortejo, né? De casa em casa. Aí juntava muita gente?
R: Era. Tudo de idade. Não, criança, não.
P2 - Mesmo naquele tempo?
R: É, mesmo naquele tempo.
P2 - Mas juntava muita gente?
R: Juntava. Não tinha confusão, não tinha briga, nem nada. Hoje, se botar uma coisa, é uma... Olha, meu Deus! Era animado. Naquele tempo, os coroas tudo iam, tinha muita gente cantava. Hoje nem todo mundo sabe das cantigas, não sabem tirar o verso. Tô aí pelejando pra ensinar, tô ensinando pra ver. Porque eu digo: “Um dia eu vou embora e quem vai ficar?”. Né? Aí tá aí copiando no papel pra ver se aprende.
P1 - Tinha samba de improviso? Não, era coco, né?
R: É, samba de coco.
P1 - E você improvisava?
R: Era. Eu que cantava. Nos versos, quem tirava as músicas era eu também. Aí eu quero sambar, não posso, mulher, olha! Porque tem que cantar e responder, aí tirar os versos e cansa. Isso é bom com três pessoas, um tira um verso, outro responde, uma pessoa só é ruim, cansa.
P1 - Mas nessa época não tinha mais pra te acompanhar?
R: Não, não. Assim, nós só sambávamos quando tinha o mastro, a Festa de Santa Isabel. Ninguém queria sair. Só na festa de Bom Jesus, aí no dia de Santo Isabel, que é São João, né? A gente ia. Mas as coisas agora que estão agonizando. Tem um rapaz ali, meu primo, que tá organizando. “Ah, Marivalda, leva o samba de coco”. Eu digo: “Eu não tenho estudo. Como é que eu vou botar samba de coco? Não. Se tiver quem leve, eu ajudo”. Aí agora resolveram, vamos simbora. Tão aí animando e minha tia também. Minha tia é virada, meu filho. Tia Rosa, 82 anos, mas canta samba, dança forró. Sábado e domingo ela tá na hora. Todo sábado e domingo. Ela: “Bora, Dinha?” Eu digo: “Não, tia Rosa, eu não vou, não”. Ela vai pro forró mesmo, a véia é virada.
P1 - Mas desde o começo você já tirava verso ou foi mais pra frente que você começou?
R: Não, foi mais pra frente. Quando eu andava com meu pai e minha mãe, eu não tirava, não. Foi depois que meu pai parou, finado Carlito também. Tinha muita gente que morreu que era do samba. Aí, esse mesmo Finado Carlito, disse: “Marivalda, eu tô doente, daqui uns dias eu vou embora, você vai ficar com esse samba”. Eu digo: “Logo eu?” “É você mesmo!”. E até hoje estamos levando. E agora vamos ver se vai pra frente.
P1 - Esse samba era toda semana?
R: Não. Aliás, nós também tínhamos o doutor Rubens, Doutor Rubens era todo sábado, todo sábado, aí na escola. Aí eu não entendia de nada. Muitas mulheres também disseram assim: “Marivalda, continuar, nós continuamos”. Tá certo, nós íamos para o samba. Foi quando ele começou a ganhar dinheiro e só dava 40 conto pra gente, pra cada pessoa. Aí eu cheguei, peguei e saí do samba. Eu disse a ele que não ia cantar mais não, de graça não. Ele fazendo a escada dele e eu descendo, ué. Não, aí acabamos. Aí pronto, acabou. Aí só tinha samba de coco quando era o Santo Isabel. Agora que estamos continuando, que o rapaz disse que ia ter responsabilidade, eu digo: “Então bora. Eu ajudo, agora eu sozinha não vou não. Aí ele está cadastrando lá, não sei aonde, aí pra prefeitura, aí tá resolvendo aí pra gente ver o que é que vai fazer.
P1 - E você viajava para se apresentar também?
R: Não. A gente, assim, ia pra Orla. Nós fomos várias vezes pra Orla, também tem um evento, que é uma casa de evento, não sei como é lá, né? Dizem que tem até um retrato meu lá, eu disse: “Olha, que beleza!”. Aí nós fomos também fazer uma apresentação lá. Mas pra viajar pra longe não, só o Didiô, o Didiô vai pra longe. Agora vamos ver, que estão cadastrados. Diz que cadastrou a gente. Quando chamar, nós vamos animar. Nós fomos para a ilha, Bento de Sá, pra ilha aí. Ilha grande, querida? E foi?! Olha. Graças a Deus. Foi animado, viu? Nós gostamos. Foi bom mesmo. Pronto, ali nós não paramos mais. Estamos ensaiando aqui direto. É pra ver se vai, né?
P1 - E tu cria música também? Além de improvisar, você tem música pronta?
R: Não. São as músicas mesmo que a gente cantava.
P1 - São as músicas antigas?
R: É, na hora nós cantamos. Agora que eles estão anotando, porque pode ser que um dia eu adoeça. Que a gente é da vida, é da doença e é da morte. Aí eles agora tão copiando, mas na hora assim, nós tiramos e cantamos.
P1 - Mas não tem música sua, é tudo já...
R: Não, é tudo do samba de antigamente. As músicas todinhas.
P1 - Você poderia cantar uma pra gente?
R: Canto. Vocês querem que cante? Vou tirar do samba.
“Fui eu que tirei o pau, fui eu que fiz a canoa. Depois da canoa feita, fui eu que fiquei à toa. Menina, se quer ir, vamos, que eu vou te passar no rio. De uma banda eu faço o leme, da outra faço um navio. Fui eu que tirei o pau, fui eu que fiz a canoa. Depois da canoa feita, fui eu que fiquei à toa.”
P1 - Qual foi o momento mais desafiador que você passou com seu samba? Mais dificuldade?
R: Rapaz, nós passamos dificuldade depois que a gente começou com o Dr. Rubens, porque saía dinheiro, viu? E a gente não teve nada, só era se acabando pra cantar, sambar todo sábado, todo sábado, e nada a gente via. O mais difícil, foi isso. Se ele continuasse certinho, até hoje a gente estava. Ele botou muita gente, muita gente pra trabalhar, só que quem ganhava eram eles. Aí eu disse: “A partir de hoje, procure outra pessoa pra cantar, que eu não venho mais”. Aí todo mundo saiu.
P1 - E vou perguntar ao contrário também. Qual foi o momento de mais alegria, mais felicidade que você teve?
R: A alegria é porque a gente tá começando o samba de novo. Eu gosto do samba de coco, de coração, gosto mesmo! Quando eu tô sambando, eu gosto, eu distraio muito a mente. É muito bom, meu filho, o samba de coco. A gente se sente outra pessoa, mais jovem, quando tá sambando, cantando, é muito bom, é roda, samba de coco, anima, a gente conhece gente outras pessoas, novas. E a gente dentro de casa, vai adoecer, pensar coisa ruim. É isso. Pode perguntar.
P1 - Eu ia voltar pro seu trabalho. Com o que você trabalhou na vida? Como rezadeira você não ganhava dinheiro, né?
R: Não, e nem ganha. Não cobro, não quero.
P1 - E pra sambar?
R: Pra sambar? Se estão pagando, eu quero.
P1 - Se estão pagando, quer, né? Chegou a viver já do samba? Pagar a sua conta, viver...
R: Onde? Eu pago do meu trabalho, meu filho?
P1 - Então, qual era o seu trabalho?
R: Logo, logo, meu trabalho era no colégio. Eu trabalhava assim, em firma. Quando eu era mais nova, era em firma. Foi quando, depois, arranjei um trabalho na prefeitura, meu pai arranjou, eu vim trabalhar aí de serviço geral. Aí depois me botaram pra cozinha. Aí pronto, fiquei aí 30 anos. Passei cinco anos trabalhando em firma, ajudante de pedreiro. Dessas firmas que eu passei cinco anos, eu vim pra cá, pra escola e já saí aposentada, graças a Deus!
P1 - Ajudante de pedreiro? Quem eram os pedreiros?
R: Era um restaurante que estava fazendo, aí botavam mulher pra trabalhar, pra carregar massa de cimento, bloco. Aí eu não tinha outro trabalho, optei por esse, “Vou lá trabalhar”. É, meu filho, tem que enfrentar a vida.
P1 - Você continuava ainda mariscando?
R: Não. Quando eu estava lá, não. Aí depois eu saí, aí continuei, vim pra cá e fui mariscar. Que era lá na praia, lá na Atalaia. Aí fiquei por lá mesmo. Trabalhava lá. Aí depois saí, vim pra cá. Aí daqui pronto, já continuava no mangue logo. Mas foi quando Deus me deu esse trabalho. Depois voltei, trabalhei no Tecarmos por dois anos, de serviço geral, limpando as coisas lá, canaleta, um bocado de coisa, escritório. Aí depois foi quando eu fui pra esse serviço de ajudante pedreiro. Aí de lá já vim pra cá, e pronto, daqui fiquei por 30 anos. Aí daí só ia pro Mangue dia de sábado, no feriado, aí foi quando eu me aposentei. Eu disse: “É agora”. Mas a gente não pode tá todo dia que adoece, mangue arrebenta. Eu trabalhei muito, muito, muito no Mangue. Hoje vou, mas não quero tá nessa vida mais não, direto não.
P1 - Como é a energia do mangue? Como é a força do mangue?
R: A força? É a lama por aqui. É bom porque você vai, você pega comida, você traz ostra, é aratu, é sururu. O aratu é você cantando samba de coco, batendo a lata cantando o samba de coco. Aí os aratu vem, você botando dentro da lata. Quando vem, vem com a latinha cheia de aratu, vem animada. Massunim, agora não, mas você via, tirava cinco, seis quilos de massunim. Sururu, você tirava dois, que é mais ruim de tirar. Ostra, você tira um quilo, quilo e meio com a casca, quando chega em casa é que quebra, aí dá um quilo, um quilo e meio, dois quilos. Mas o mangue é muito cansativo, meu filho. Não é todo mundo que enfrenta não, porque a lama, oiá!
P1 - Como é que é isso, você falou de tocar o samba de coco e o caranguejo…
R: O aratu, aquele bem vermelhinho. A gente fica sentada na (00:42:26) cantando e batendo a lata, a lata de gás, a lata, o balde, eles vêm tudinho. Aí você vai pegando na linha e botando dentro da lata. Aí quando você vem, vem com a lata cheinha de aratu.
00:42:38
P1 - Só cantando?
R: Cantando, é, batendo a lata, cantando, é tão bom, rapaz, distrai tanto.
P2 - Você consegue cantar aí?
R: Canto! Canto. Eu canto assim. Aí é a batucada, né?
“Paturicho, paturicho, paturi tá gemendo com a dor. Paturicho, paturicho, paturi tá gemendo com a dor.
Aí a gente “Tiu, tiu, tiu..”. Aí lá vem eles devagarzinho. Lá vem eles. Aí a gente começa a assobiar, aí eles vêm. É, minha filha, é animado. O Aratu é bom.
P1 - E ele não tem medo da morte, não?
R: Não. Ele vê a isca, tá doido pra comer, tá com fome, vem pegar.
P1 - Você já pensou por que só essa espécie que vem quando você tá cantando?
R: É, eu cantando, mas eles gostam de zoada. Se você não bater a lata, você vai demorar pra pegar. Aí você batendo a lata, ele tá vendo aquela zoada, aí vem, vem devagarzinho. A gente está com a linha, né, aí eles vêm, pega a isca, o peixe ou o caju, aí eles agarram a isca. A gente pega, tá na linha, joga dentro do balde. Agora só não pode se mexer, porque se mexer não fica um. Você tem que pegar quietinha. A mutuca, o mosquito morde, você não se bole. Se bulir, ó, vai embora tudo.
P1 - Mas como você não pode se mexer, se você está batendo a lata?
R: Não. Mas se você tá ali em pé ou sentado na (00:44:19), você vai abrir a perna? Não. Porque tem o mosquito, a mutuca, não, é pra deixar morder, porque se você se mexer, o aratu vai embora, aí ele volta. Aí cisma. Aí você tem que cantar, demorar, pra esperar. Tem que ter muita paciência. É um quebra-cabeça o aratu, viu?
P1 - As outras marisqueiras fazem isso também?
R: Todo mundo. Todo mundo que vai é pra cantar.
P1 - Todos os ritmos ou é só samba de coco?
R: Não, é como samba de coco mesmo. Agora tem outros que não cantam, já cantam música de igreja, já música mesmo, qualquer música, mas a gente como coisa, agora a lata tem que bater igual samba de coco.
P3 - Tá tudo uma coisa só, né?
R: É, meu filho.
P2 - O que você acha, naquele tempo tinha mais aratu ou sururu?
R: Tinha. Era mais farto. Hoje não tem, não. Porque assim, roçaram o mangue, o sururu, a maré, estão botando os esgotos tudo pra maré. Aí minha filha, tá tudo morrendo, o sururu. As ostras, ela abre pra beber água salgada, morre também. O Sururu e a ostra estão mais difíceis, e o massunim também. O massunim não tá tendo, que teve essa enchente um tempo desses, que abriu uma cratera aí na praia, não foi? Ah, pois nesse tempo agora morreu muito o massunim, nós não estamos tirando. Tira um quilo, um quilo e meio, onde a gente tirava cinco, seis quilos. Hoje é um quilo e meio, o dia todo. Pra tirar um quilo e meio não é fácil, porque morreram na água. Os esgotos vêm tudo pra maré, abriram tudo, valeta pra água correr e pronto. Aí tá tudo difícil hoje. Hoje é difícil a gente quase achar mais.
P1 - Você lembra em que momento começou a sumir? Teve alguma coisa que começou a… que ano?
R: Diminuir. Foi depois que fizeram essas pistas, esses conjuntos. Aí depois teve esses conjuntos, meu filho, arrebentou com a vida do pobre. A alimentação da gente foi diminuindo, a gente pegava muito camarão de redinha, não pega mais. Acho que é devido a água, o esgoto. Pegava muito siri de ponta, diminuiu, não pega mais. Sei que ficou tudo ruim mesmo. Primeiro era farto, a gente ia aí na frente e tirava um cesto de ostra rápido. Hoje, meu pai do céu! Se tirar, é meio balde, se tirar. Não tem. E os mangues também, a maioria tão cortando, tão roçando. Era muito farto, quando a gente era mais novo, era muito farto. Hoje, diminuiu muito.
P2 - E peixe? Qual tipo de peixe que tinha naquela época e qual que tem agora?
R: Diminuiu muito. Naquele tempo era muita tainha, carapeba, vermelha, robalo. Hoje diminuiu tudo. Tudo, tudo mesmo diminuiu.
P1 - E vocês chegaram a... Quando isso começou a acontecer, teve alguma organização de vocês marisqueiros, para pressionar o governo ou alguma coisa?
R: Não, meu filho, vai falar com quem aqui? Ficou assim mesmo. Agora que tá tendo gente aí pra limpar o rio, né? Porque estava uma bagunça, muita garrafa, muita bagaceira. Agora tem um rapaz aí, que está com um pessoal que estão limpando. Tira muito o lixo de dentro da maré, né? Porque os peixes comem plástico, aí morrem, aí vai diminuindo. Agora que estão limpando, agora que o rio tá mais limpo, mas de primeiro, meu Deus! Era muito bagaceira. Aí né, as coisas vão ficando difíceis.
P1 - Eu ia falar pra você contar um pouquinho também de como foi a sua vida em família, como foi que a senhora conheceu seu finado esposo, né? Como foi a vida com ele?
R: Esse já foi o segundo casamento. O primeiro eu fui trabalhar na Atalaia, estudava no Santos Dumont, pegamos a namorar. Não chegamos a casar. Depois, ele arranjou outra namorada, eu fiquei na casa da mãe dele, né? Ele pegou outra namorada, veio simbora pra casa da namorada aqui no Robalo. Aí, tive um filho, dois, três. Aí não deu certo, peguei minha bagagem e vim embora. Fiquei morando aqui sozinha, Deus e meus filhos. Aí depois arranjei esse rapaz. Eu fiquei com trauma de homem, não queria mais, mas ele me adulou muito. E a necessidade fala mais alto, aí nós nos ajuntamos. Moramos 33 anos, casamos no civil e na igreja, graças a Deus, era o meu sonho casar na igreja. Casei. Tenho esse filho, essa filha, que Deus me deu e um que Deus levou. Tinha três desse. Tem seis anos. Seis anos, Cris, do seu pai morto? Vai fazer? Tem seis anos. E estou aqui na batalha. Casar não quero mais, tá bom, já chega. Bom demais, eu quero é viver. Não tenho o que reclamar, graças a Deus. Só tenho que agradecer a Deus. Deus me deu tudo, minha casa, meus filhos, minha riqueza, meus filhos são bênçãos, graças a Deus. Então, só agradecer a Deus.
P1 - Você, quando ia parir seus filhos, você pariu em casa ou pariu no hospital?
R: Não. Só o primeiro. O primeiro casamento foi em casa, tive normal. Agora o resto foi tudo na maternidade Santa Lúcia, ouviu falar? Tive em Santa Lúcia todos, graças a Deus, eles tudinho.
P2 - Parto normal?
R: Normal. E quem me ligou foi Deus.
P1 - Quem te ligou?
R: Deus. Porque muitas mulheres diziam: “Vou ligar, fazer ligação.” Eu não! Eu disse: “Deus vai me ligar. Não quero mais filhos e pronto!” E Deus me ligou, pronto, chegou à idade, acabou.
P2 - E esse primeiro parto em casa, teve ajuda de uma parteira ou a senhora foi sozinha mesmo?
R: Não, minha madrinha, ela fez o parto. Ele nasceu todo empelicado. Todo, como era? Um plástico, ela cortou com a unha, porque diz que não pode cortar de tesoura. Foi o primeiro, tive em casa, Graças a Deus. Depois dele, os outros foi tudo na maternidade.
P3 - Ela fazia parto?
R: Minha madrinha. Assim, tinha vezes que fazia, mas ela não gostava não, sabe? Mas sempre fazia. Ela não era parteira profissional mesmo, não. Mas quando Deus mandava, que dava tempo, ela ia e cortava o umbigo.
P1 - E a senhora, nunca se interessou em aprender a fazer parto?
R: Não. Deus me livre! É muito triste. Deus me livre! Não quero não. Eu tenho uma prima que é parteira, ela mora lá no Cobocó.
P1 - Tem uma prima?
R: Tenho uma prima. Ela tem oitenta e poucos anos. Ela pegou muitos meninos aqui. Ela pegou quinze sobrinhos dela, quinze! Eu acho que vocês conhecem, Josefa, que trabalha no posto médico, chama Zefinha. Não conhece não? Ela trabalha no posto médico. Ela é uma moreninha pequenininha, desse tamanho. Ela trabalha assim, chega uma pessoa no balcão, ela: “Vai!” Porque ela já está perto de se aposentar. Quinze filhos! Quem fez o parto foi a irmã dela. Teve tudo normal. E tá tudo vivo. Tudo vivo! É bonito.
P1 - E na coisa de rezo, você falou que a sua sobrinha pegava quinze. Você rezava quantas pessoas por semana, assim, mais ou menos?
R: Meu filho, assim, tem vezes que vem todo dia, gente. Tem dia que eu rezo até oito, nove. Tem dia que não vem ninguém. Agora, quando começa a vir, é direto.
P1 -E você não cansa não?
R: Não, porque a gente trabalha com amor. A gente faz as coisas com amor e a gente se sente feliz. Fazer aquilo vendo que a pessoa depois vem agradecer: “Oh, dona Valda. Eu fiquei boa, graças a Deus.” Eu digo: “Olha, não diga que sou eu não, é Deus, porque eu não tenho poder, né? Quem tem poder é sua fé e Deus, né?” Porque a gente não tem poder de curar ninguém, meu filho? E eu rezei muita gente, muita, muita mesmo, porque eu não conto nem... Aí as pessoas: “E quanto é?". Eu digo: “Nada." Aí a pessoa diz: “Eu nunca vi uma rezadeira assim, não cobrar." Porque tem uma moça aqui que reza, é R$50,00. Eu rezo também animal, com planta e com a vassoura de varrer casa.
P1 - Vassoura de varrer casa?
R: É.
P1 - Essa aí você aprendeu com quem?
R: Minha avó também ensinou assim, os animais, rezava com a vassoura.
P1 - E tem alguma diferença de rezar animal?
R: Porque ela falou que a vassoura arrasta tudo, e o ramo, é porque o ramo, são as pessoas. O ramo é sagrado, a gente tem que rezar com o ramo. E o animal é a vassoura.
P1 - Agora, a reza é a mesma?
R: É a mesma. É a mesma.
P1 - E você já rezou quais tipos de animais?
R: Cavalo, cachorro, vaca. Tem uns dois meses que o rapaz veio aqui com a vaca e estava bem ruim mesmo, arraiada. Eu rezei daqui pra lá, pra Zenza. E ele veio me agradecer, perguntou quanto era, eu disse: “Nada, meu filho. Quero que você venha me dizer que ela ficou boa”. “Levantou, dona Marivalda, e a vaca tá boa. E tá dando o mesmo leite que dava”. Parece que eram oito litros, eram dez litros, eu esqueço. Eu disse: “Graças a Deus, meu filho”.
P1 - Mas o cachorro pega o quê? O animal pega olhado também?
R: Ave Maria e como pega. Pega pra se arriar mesmo, meu filho, arria mesmo no chão.
P1 - Pega de outro animal?
R: Não, as pessoas.
P1 - Mas o bicho não bota olhado?
R: Não, quem bota são as pessoas. Esse rapaz, ele tirava, parece, que eram 10 litros de leite por dia. Aí foi uma criatura lá e perguntou se ele queria vender, ele disse que não ia vender não, a vaca dele. No outro dia a vaca já estava no chão, arriada, não comia, não bebia água. Aí ele veio. Eu disse: Oh, meu filho, que seja a vontade do Senhor. Vou botar o ramo, vamos rezar.” Rezei com a vassoura, três dias depois eu estava na casa de mamãe e ele chegou. “Seu Ramalho, Marivalda tá aí?” Papai disse: “Tá.” “Diga a ela que a minha vaca levantou.” Eu digo: “Diga a ele que foi Deus que levantou.” Aí ele: “E quanto é?” Eu digo: “Nada. Fico feliz de você vir dizer que Deus fez a obra.” Bonito, né? E até hoje ele tá com a vaca. Eu rezo vários cavalos, várias vacas.
P1 - Ele que traz, ou a senhora que vai?
R: Não, eu rezo daqui, pra lá, com a vassoura.
P3 - À distância? Para pessoas você reza a distância?
R: É. Rezo pro Rio, rezo pra Salvador, as pessoas vêm, família que moram aqui aí pede, eu rezo. Aracaju, Orlando Dantas, Eduardo Gomes, digo: “Tem fé? Então bora.” Semana passada veio uma moça, que a menina estava internada há cinco anos, não abria nem o olho pra comer, ela deu o nome até a meu menino e graças a Deus a menina ficou boa. O médico disse: “Procura uma rezadeira que ela não tem doença nenhuma, é olhado.” Esse médico foi sabido, e a menina ficou boa, graças a Deus, de cinco anos.
P1 - E você, por exemplo, na hora que você reza, você vê se é de homem ou de mulher, né?
R: É.
P1 - Você vê na planta isso?
R: É.
P1 - Na própria planta?
R: Na própria planta. Porque se for só a mulher, os dois vão arriar os galhos. E o homem fica em pé. Se for os três, todos os três vão arriar os galhos, ficam tristes, assim, entristece, murcha. Aí eu sei e minha avó ensinou assim, sabe?
P1 - Qualquer planta que é?
R: Qualquer planta. Agora é bom a gente rezar mais com esse pinhão, mas não tem pinhão, quem faz a obra é Jesus, não é o ramo. Olha, eu já rezei gente, até com espanador de limpar móvel. E Deus faz a obra. Que a gente faz aquela reza com fé em Deus, pedindo, e Deus deixa a pessoa curada.
P1 - Você já pegou, já rezou gente doente?
R: Já.
P1 - Doente mesmo, assim?
R: Quando eu não tenho uma ramo, assim, que eu ando, assim, num lugar que não têm ramo, vai a mão. A mão. É a mão de Deus primeiro e a da gente e a reza. Porque tudo é a fé, meu filho? Você vai tomar um remédio, você vai tomar sem fé, vai curar? Não vai. Se você tiver fé, Deus vai fazer a obra. Até uma água. Até a água você fica, Deus cura.
P1 - As rezas que você faz, são todas que você aprendeu com a sua vó ou você aprendeu mais?
R: Não. Todas com minha avó. Não foi comigo, não. Foi a minha avó que me ensinou todas elas.
P2 - A senhora mudou ou criou alguma coisa?
R: Não, não. É a mesma que ela me ensinou.
P1 - Ia falar pra você falar um pouquinho mais sobre a sua avó, como era a sua avó?
R: Minha avó era bem morena, mais do que eu, bem pretinha, era café. Ela era meia magrinha, mas ela sabia rezar. Agora essa que morou aqui perto da gente, Mãe Gertrude, que ela ainda queria me ensinar, essa conhecia as coisas, Deus dava o dom a ela para dizer as coisas para as pessoas. Agora minha avó não, só fazia rezar mesmo, sabe? Não dizia nada não. Porque tem gente que Deus dá o dom. Essa mulher que cobra 50 reais, ela tem o dom, ela diz tudinho, tanto diz como faz. Ela mora pra lá de papai, da casa de papai. É uma coroa, ela tem setenta e poucos anos, Ana Mirabel, já ouviu falar, não?
P1 - Isso que eu ia perguntar, aqui em Aracaju, quantas rezadeiras você conhece?
R: Rapaz, eu aqui mesmo só conheço Dona Mirabel aqui, na Zenza e eu. Outra não tem mais, não.
P1 - E rezador?
R: Só se for no mosqueiro, não sei.
P1 - Nunca conheceu um rezador?
R: Não, não, não.
P1 - Mas quando você era nova tinha algum rezador?
R: Tinha muito, muito, muito, muito. No mosqueiro eram vários. Hoje morreram todos, as pessoas vão ficando velhas e vai acabando. Esses meninos novos não querem nada, aprender. “Isso é de véia. Eu vou aprender nada!” Mas aqui é difícil. Hoje aqui só tem eu e Dona Mirabel, agora essa coroa, é sabida que é virada, ela.
P3 - A senhora já parou de rezar algum tempo?
R: Não, não, não. Continuo direto.
P3 - Já sentiu mal… (inaudível)
R: Não, não. Não, graças a Deus não. Quando eu vejo que a coisa tá ruim, eu tomo meus banhos. Banho de limpeza para as energias negativas cair por terra, porque a gente também pega. E como pega! Porque tem gente que vem carregada. Mas...
P1 - Quando alguém vai botar uma olhado em você, ou tá assim, você consegue sentir na pessoa isso?
R: Vem um peso, quando aquela pessoa sai, a gente sente aquele peso do olhar ruim, da energia ruim. Tem gente que até no olhar tem uma energia ruim, meu filho. Tem gente de energia ruim mesmo. Um coração ruim. Olha, tem muita gente que diz assim: “Olha, Dona Marivalda, eu queria viver perto da senhora 24 horas.” Eu digo: “Por quê?” “Porque a senhora tem uma energia tão boa, a gente se sente tão bem quando tá com a senhora.” Eu digo: “Graças a Deus!” Que eu não tenho um coração ruim, não tenho maldade, não tenho ódio.
P2 - Eu queria saber mais assim, com quem a senhora aprendeu essa coisa do banho? Foi uma coisa que sua avó lhe ensinou ou foi você?
R: Não, é de mim mesmo. Minha avó não ensinou, não, os banhos não. É de mim mesmo.
P2 - E você sente, por exemplo, quando você tá...
R: É, aí faço os banhos.
P2 - Alfazema, tal planta e tal planta, aí dá certo?
R: É. Aí dia de sábado é bom rosas brancas com alfazema.
P1 - Sábado? É o dia, né?
R: É. Rosa vermelha não presta. Rosa vermelha é para arranjar o quê? Já sabe. É homem. Ele pegou aí a gente, pra ter paz, é rosa branca, com alfazema. Eu gosto sempre de tomar banho dia de sábado e vestir uma roupinha branca, uma camisa, com um short branco.
P3 - Um dia da semana, né?
R: É, muita gente guarda. Eu não guardo muito não, sabe? Mas sempre eu gosto.
P3 - Quando lembra.
R: É, quando eu lembro.
P2 - E a senhora já fez algum tipo de remédio? Quando a pessoa vem rezar você vende?
R: Faço.
P2 - De planta?
R: Faço lambedor.
P2 - De que?
R: De todo tipo de erva.
P2 - Vende?
R: Vendo. Todo tipo de erva, graças a Deus. Vendo mesmo.
P3 - Pra que é?
R: Pra gripe. A pessoa tá com aquele catarro no peito, aí toma. Sai tudinho. Tem um farmacêutico aqui que compra direto de mim, o lambedor. Todo tipo de erva que você pensar, eu boto, tudo, tudo que eu me lembro na hora. Tudo. E faço na lenha. Vou pra casa de mamãe e faço lá.
P2 - Você aprendeu com quem?
R: O lambedor? Minha mãe fazia, aí eu aprendi com ela. É jenipapo, é mastruz, é gengibre, é alho, é limão, é laranja, é beterraba, o que mais, senhor? Mastruz, alfavaca, um pedaço de romã, tudo, tudo que pensar, porque na hora eu me esqueço.
P3 - (inaudível)
R: Porque aqui é gastar o gás, né, meu filho? É caro! Aí lá é a lenha. Lá eu faço assim no fogão, lá tem lenha, muita na casa do meu pai, eu faço lá.
P3 - (inaudível)
R: É, eu boto logo três quilos de açúcar pra render. Porque toda semana fazendo é ruim, aí eu boto logo três quilos e faço. Vendo, graças a Deus vendo. Dez reais as garrafinhas do refrigerante. Vendo mesmo. Ai, “Lambedor de Dona Marivalda arranca até postema”. Esses meninos. Postema, porque tem vezes que a gente pega uma pancada e fica por dentro, né? Aquele, tipo como fosse um sangue, uma coisa, aí eles: “Esse lambedor da senhora é bom, viu?” Eu digo: “É bom mesmo! Pode tomar sem medo.” Só o que eu faço mesmo, só é o lambedor mesmo, pra vender.
P2 - Até criança pode tomar?
R: Pode. Uma colherzinha de chá. As meninas ali do Vale compram direto para as crianças e se dão bem, graças a Deus. Você sabe, erva é muito bom, né? Todo tipo de erva, aí cura mesmo.
P2 - (.......)
R: Não, só lambedor. Vai perguntando.
P1 - Você sentiu conversar com esse espírito das plantas?
R: Não, eu peço licença para tirar os galinhos deles, que é vida. Eu peço licença e vou rezar as pessoas, mando Deus passar na frente e vou rezar.
P1 - E dos animais?
R: Dos animais também. Porque é São Lázaro, o dono dos animais.
P1 - Nunca teve um caso que você sentiu um animal falando com você?
R: Não, não, não. Não vou mentir, falar a verdade.
P1 - A lua tem alguma influência no mundo da reza?
R: Não, eu não rezo, não.
P1 - Não faz diferença?
R: Não. Eu sempre olho pra ela e peço a São Jorge pra me ajudar, a iluminar as pessoas que vêm pra minha casa, das maldades, das invejas, da ira, do ódio. Porque São Jorge tá ali, é o nosso guerreiro.
P1 - E depois que a senhora virou benzedeira, tem algum resguardo que você fez?
R: Não.
P1 - Ou alguma regra?
R: Não, não, não, não.
P1 - Pode beber no...
R: Pode.
P1 - Não tem nenhuma regra?
R: Não, não, não. Tem não.
P2 - Eu ia perguntar. Esse caminho da senhora, esse legado da reza da senhora e da sua avó. Você acha que é algo bom na sua vida? Que mudou sua vida? Que trouxe alguma coisa boa?
R: Eu acho, pra mim foi. Eu fico feliz, porque uma pessoa vem me agradecer aquela cura que Jesus deu, porque eu não. “Ô, dona Marivalda, eu lhe agradeço. Minha filha…” Aí ela diz: “Eu agradeço a senhora, minha filha ficou… Minha filha ficou boa... Minha filha... Minha filha ficou boa, eu lhe agradeço.” Eu digo: “Olha, minha filha, então agradeça a Deus.” Então a gente se sente feliz, fazendo uma caridade. Você sabe lá ter um filho e chegar agoniado, e aquela filha chegar em casa boa, comer e dormir. Então a gente só vai agradecer a Deus.
P1 - Qual foi, assim… Uma coisa que eu costumo perguntar, por exemplo, se você fosse, depois que morresse, só pudesse levar uma lembrança da vida, só pudesse levar um momento, uma lembrança dessa vida, qual seria o momento que você escolheria?
R: Quando eu morresse, agradecer a Deus, o dom que Ele me deu de rezar e as pessoas serem curadas.
P1 - Seria então esse momento que você virou benzedeira?
P3 - Vou fazer a pergunta conclusiva. Se a senhora acha que vai continuar fazendo samba de coco?
R: Vou. Enquanto Deus me der vida, continuo tudo.
P1 - Você tem algum sonho de vida? Alguma coisa que você ainda quer realizar?
R: Não. O sonho que eu tenho é levar esse samba pra frente. E continuar a minha reza, enquanto Deus me der saúde, eu rezo.
P1 - O que a senhora achou de contar a sua história hoje pra gente?
R: Eu fiquei feliz, porque eu nunca vi assim, chegar, as pessoas assim, me procurar. Eu só tenho que agradecer a Deus e a vocês. E a ela, que veio me procurar, né? E a gente vê que são umas pessoas legais, alegres, felizes, trouxe coisas boas pra nós, energia boa, meu filho. Eu quero ver vocês no samba, viu, também. Vir olhar, a gente tá aí dia 18. Viu, venha mesmo. Vão ver eu e tia Rosa, nós brincando.
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