Santo Agostinho : O ASSADO
Inclui a receita
Nota: não sei lidar com informática nem com o world. Sinto muito pelos erros e pela digitação.
Eu era aluno do colégio Santo Agostinho e cursava o primeiro ano do ginásio. Deve ter acontecido por volta de 1955 ou 56. Como era de costume, os castigos aplicados aos alunos, bem comportados como eu, não eram os de ajoelhar no milho ou coisa parecida. Fora algumas cintadas, patrocinadas pelos padres, os demais castigos eram mais voltados para a religião, ou seja, como quase todos os alunos eram avessas as missas, comunhões, catecismos e etecéteras, os sábios padres nos castigavam pelo que menos gostávamos, ou seja, missas extras, limpar sacristia, fabricar hóstias, rezar, (fingíamos) e o pior, ter que escrever 50, 100 ou 150 vezes uma oração. Esse castigo não dava para fingir tinha que escrever mesmo. Os dedos ficavam até com câimbra.
As salas de aula eram tipo padrão. Lousa verde, carteiras individuais com o assento basculante. Eram espaçosas. Nada comparado as de hoje que mal caibo e que mais parecem uma cadeira acoplada a uma raquete de pingue-pongue. Outro dia fui preencher um formulário de sinistro em uma seguradora e me indicaram uma dessas cadeiras. Imaginem eu tenho quase 1,90 mts. de altura e peso 115 quilos. Não foi fácil me acomodar ali. Quando terminei e me levantei para levar o formulário ao balcão a cadeira veio junto comigo, acoplada como a nave Apolo `a estação Mir.
Bem voltemos ao castigo, ao Santo Agostinho. Como eu estava contando, fora as salas de aula, tudo lá já era muito antigo e feio para os meus onze anos. Os móveis, os arquivos da secretaria, os corrimãos das escadarias. Todos de madeira escura, sem brilho. Paredes pintadas a tinta óleo de cor cinza chumbo.
Aqueles corredores vazios com pouca iluminação calcados com ladrilho preto e branco. Vez ou outra um padre com habito todo negro, encapuzado não sei por que, atravessava o corredor saindo de uma...
Continuar leituraSanto Agostinho : O ASSADO
Inclui a receita
Nota: não sei lidar com informática nem com o world. Sinto muito pelos erros e pela digitação.
Eu era aluno do colégio Santo Agostinho e cursava o primeiro ano do ginásio. Deve ter acontecido por volta de 1955 ou 56. Como era de costume, os castigos aplicados aos alunos, bem comportados como eu, não eram os de ajoelhar no milho ou coisa parecida. Fora algumas cintadas, patrocinadas pelos padres, os demais castigos eram mais voltados para a religião, ou seja, como quase todos os alunos eram avessas as missas, comunhões, catecismos e etecéteras, os sábios padres nos castigavam pelo que menos gostávamos, ou seja, missas extras, limpar sacristia, fabricar hóstias, rezar, (fingíamos) e o pior, ter que escrever 50, 100 ou 150 vezes uma oração. Esse castigo não dava para fingir tinha que escrever mesmo. Os dedos ficavam até com câimbra.
As salas de aula eram tipo padrão. Lousa verde, carteiras individuais com o assento basculante. Eram espaçosas. Nada comparado as de hoje que mal caibo e que mais parecem uma cadeira acoplada a uma raquete de pingue-pongue. Outro dia fui preencher um formulário de sinistro em uma seguradora e me indicaram uma dessas cadeiras. Imaginem eu tenho quase 1,90 mts. de altura e peso 115 quilos. Não foi fácil me acomodar ali. Quando terminei e me levantei para levar o formulário ao balcão a cadeira veio junto comigo, acoplada como a nave Apolo `a estação Mir.
Bem voltemos ao castigo, ao Santo Agostinho. Como eu estava contando, fora as salas de aula, tudo lá já era muito antigo e feio para os meus onze anos. Os móveis, os arquivos da secretaria, os corrimãos das escadarias. Todos de madeira escura, sem brilho. Paredes pintadas a tinta óleo de cor cinza chumbo.
Aqueles corredores vazios com pouca iluminação calcados com ladrilho preto e branco. Vez ou outra um padre com habito todo negro, encapuzado não sei por que, atravessava o corredor saindo de uma das portas que ninguém sabia da onde vinha e entrando por outra porta do outro lado do corredor que também não imaginávamos o que lá seria. A rotina era terrível.
Eram 6 aulas por dia. Todos os professores, hoje chamados de tio, eram padres e a cada início de aula postávamos de pé para uma oração. Após o amem, sentávamos. Aquele barulho dos assentos basculantes das carteiras era a nossa única alegria. A maioria puxava o assento com mais força só para fazer mais barulho.
Um dia, na verdade uma noite, estava eu tomando uns goles de toddy e, muito louco, resolvi que teria que acordar aquele inferno. No dia seguinte reuni alguns amigos e confidenciei meu plano. Todos eles toparam a arte (era assim que se dizia). Comprei o material no sábado (espoletas) e na segunda feira, em um dos intervalos da aula, o famoso recreio, ficamos na sala preparando nossa sabotagem.
Consistia em colocar duas espoletas em cada suporte do assento basculante de forma que, quando os alunos soltassem os assentos, as travas que eram de ferro comprimissem as espoletas detonando-as. Foi isso que fizemos. Pronto!
O c circo estava armado.
Após o recreio todos os alunos voltaram do pátio, tomamos nossos lugares, e, postados em pé aguardamos o padre Joao. Extremamente rude cara de maus amigos, sempre com sua cinta pronta a bater nos alunos entrou na sala e iniciou uma "ave Maria ". Já na terça parte da oração eu e meus cúmplices trocávamos olhares “pré gozo “para o que iria acontecer. Padre João, após o famoso .... "livrai-nos do mal..... " pronunciou a palavra chave ... "amem".
Pronto! Daí em diante o caos total. Todos, como sempre fazíamos, puxamos os assentos para baixo e teve então, o início da grande confusão.
Parecia o barulho de fogos na entrada em campo de times de futebol. Éramos em 30 alunos e um professor, hoje chamado de tio, (não o padre João, mas o professor). Das 31 pessoas, 27 (26 alunos e um tio) ficaram completamente aturdidos. Os cdfs”s da primeira fila quase tiveram incontinência urinária. O padre se ajoelhou, enrolou o terço no pescoço, puxou o capuz e começou a rezar. Marquinhos começou a gritar, Paolo, filho de italianos, pensando que seria o fim do mundo abriu sua lancheira e começou a devorar o sanduíche de mortadela que a mama tinha preparado; Edivaldo, meu amigão que veio de Ichirimum, Alagoas, chamava pelo padinho pade Cicio; Cid, filho de um deputado federal, clamava por uma CPI. Bradava que precisava de uma verba emergencial para iniciar um projeto de defesa ao MSC-movimento dos sem carteiras.
Não bastasse toda a confusão, alguns alunos, menos favorecidos, no desespero de causa, tentaram saquear as mochilas dos que se evadiram. Cadernos, lápis, apontadores desapareceram. Ângelo, acompanhado de seu advogado, reclamava do furto de um sanduíche de marmelada que tinha reservado para degustar no recreio da aula de recuperação. (Tinha sido reprovado porque insistia em afirmar que Poncio Pilatos era bicha). Adamastor, que apesar de estar estudando em um colégio católico, tinha suas origens religiosas catequizadas pela igreja Universal. O filho da mãe, para não dizer ... da puta, naquele momento de agonia e terror, enchia o saco de todo mundo passando a sacolinha exigindo o dizimo. Realmente era o caos total. Todos apavorados. Olhos esbugalhados, arregalados. Alguns gritando outros chorando. Pânico geral. Ainda por cima uma tempestade. Trovoes e relâmpagos.
Chovia muito forte. O padre João, que estava ajoelhado rezando de susto, levantou-se por de trás da mesa para tentar controlar seus "meninos " tomou uma sanduichada de alguém de lá de trás, que teria rezado muito para chegar este dia glorioso. O Boni, cdf de primeira, que estava gripado, ficou com os óculos embaçados de tanto que a febre aumentou. Edgar, o mais baixinho da turma, apavorado tentou fugir pela janela, perdeu o equilíbrio e se agarrou na persiana. Não deu outra. Veio para baixo enrolado na persiana, óculos preso em uma só orelha, bochecha vermelha. Tinha tantos livros na mochila que mais se parecia uma tartaruga de casco para baixo tentando inutilmente se levantar. Tudo era tão engraçado, pelo menos para nós quatro que, de tanto rir, sentíamos dores no maxilar e estomago. Obvio, o tio João, antes denominado padre, estava atento e mesmo que com toda aquela confusão, seus olhos sob o negro capuz captou 20 e tantos pupilos se borrando e quatro morrendo de rir. Foi nosso erro. Mas, por tudo que passamos de negativo, valeu! .
Fomos levados a secretaria e lá permanecemos como que delinquentes. Fomos separados como que presos em guerrilha.
Dias mais tarde fiquei sabendo que logo em seguida nossos pais foram chamados, e que os pais dos meus cúmplices foram buscá-los logo em seguida e que os meus como estavam viajando, não foram encontrados. Eu sempre voltava para casa sozinho, pois morava perto. Os tios, antigamente chamados de padres, resolveram nos dar uma suspensão de oito dias para cada um dos quatro.
Como meu pai, nem minha mãe tinham aparecido me trancaram num dos confessionários. Era como se fosse um armário de madeira, marrom escuro quase que preta, com um assento de madeira e duas janelinhas de treliça. Sacana aqueles padres. De dentro do confessionário dava perfeitamente para ver o rosto, e as feições de quem estava se confessando.
Bem fiquei lá por um século. Aquele confessionário era de exclusividade dos padres. Ficava nos baixos da escadaria que dava para seus aposentos. Tudo escuro e cheirando a mofo. Acho que eles mesmos nunca se confessavam… não eram idiotas.
A chuva forte continuava. Apesar de estar ainda com o humor aceso (imagine se alguém se ajoelha ali ao lado e começa a se confessar para mim pensando que eu era um servo de Deus. Seria o próprio inferno para o coitado (a). Quem me conhece pode imaginar.). Bem, fiquei aguardando um tempão. Não sei quanto, pois naquele tempo garotos de 11 anos não usavam relógios, era coisa de adulto. Parecia uma eternidade.
Meu estomago já tinha dado o sinal de alarme. Devia ser umas sete horas. Inquieto eu resolvi sair de lá. Furtivamente abri a porta do confessionário e fui para fora. Nem parecia que estava fora daquele sepulcro. Aquele corredor sombrio, paredes pintadas de cinza chumbo, ladrilhos preto e branco, portas, inúmeras portas de madeira escuras. A pouca iluminação eram de velas nos castiçais presos ás paredes. Perdi meu humor e comecei a ficar amedrontado.
Parecia um castelo mal assombrado. Olhei para a direita, nada, olhei para a esquerda, no fundo do corredor vi um vulto. Era um daqueles padres trajando um habito negro, capuz sobre a cabeça, se movimentando silenciosamente e desaparecendo por uma daquelas portas sombrias. Realmente, naquele momento fiquei gelado. Chamei pelo padre João, que mesmo sendo um bom filho da puta, seria, naquele momento, um salvaguarda. Nada. Em quinze minutos já tinha batido em todas as portas daquele imenso corredor escuro. Nada. Meu estomago roncava. Era um misto de fome e temor. Mais de fome. Já estava ficando muito preocupado. Tentei abrir as portas. Todas estavam trancadas. Lembrei-me da cantina, que ficava do outro lado do pátio, onde jogávamos bola, ao lado da igreja.
Relâmpagos a cada minuto. Nenhuma alma por lá. Tirei a tranca da porta que dava acesso ao pátio e me dirigi à cantina. Percorri uns 50 metros debaixo de chuva e relâmpagos. A porta da cantina estava fechada com um enorme cadeado. Pequei meu canivete suíço, que ainda guardo comigo, e tentei em vão, abrir o cadeado. Eu ainda não tinha aprendido os truques da Mac Gaiver. Não tinha nada para me ajudar ali. Voltei correndo, ainda debaixo de chuva, para o predio da administração para pegar a tranca da porta. Para o meu tamanho, aquilo parecia um poste. Voltei para a cantina e desesperadamente tentei arrombar o cadeado. Não aguentava mais de fome e frio.
Minhas roupas estavam encharcadas. Por mais que batesse com aquela tranca, o cadeado resistia. Sem folego e faminto desisti de arrombar a cantina. Lembrei-me das hóstias que eu era obrigado a fabricar. Teria que entrar na sacristia da igreja. A porta estava fechada. Era daquelas fechaduras antigas, simples. Acionei meu canivete suíço. Em vão. Não entrava no buraco. Sob aquela chuva fui até a horta logo atrás da sacristia e, com sucesso, pequei um pedaço de bambu e com meu canivete esculpi, sim, esculpi uma chave. Era na verdade uma chave muito simples de se fazer. Entrei na sacristia e fui direto na copa. Na esperança de fabricar umas hóstias para matar a fome, liguei, ou melhor, tentei ligar a chapa onde se preparava a folha de farinha e água. Novamente em vão. Não havia energia elétrica. Pensei em fazer uma massa de farinha e água para comer e atenuar a fome. Na prateleira encontrei a lata de farinha. Estava vazia. Tinha me esquecido que no dia anterior, quinta-feira santa, tinha havido um seminário dos marianos e que a farra foi tamanha que não sobrou hóstia nem para contar estória. (Dizem as más línguas que foram consumidas mais de cem quilos de hóstia, quatrocentas garrafinhas de água benta e.... Muitas velas). Naquele momento, realmente, eu estava em estado desesperador. Aquela criança desnutrida, molhada pela chuva, desamparada já estava desesperada, fraca, anêmica. Mal podia se locomover. Quase que perdendo os sentidos, me encostei na parede ao lado da prateleira. Me senti completamente tonto e perdendo o equilíbrio. Achei que estava desfalecendo. Não. Estava só fraco. A parede na qual me encostara era móvel. Uma passagem secreta. Aprumei-me, e empurrei a "parede ". Adiante havia um corredor muito estreito e totalmente escuro. Voltei para a sacristia peguei uma vela, acendi-a-a-a-a (demorei para acender pois ventava muito) e voltei ao corredor. Em seguida uma escada. Desci os quinze degraus. Havia uma bifurcação. Dirigi-me para a direita. O corredor estava totalmente escuro. Silencio total. Percorri aproximadamente uns cinquenta metros quando encontrei uma porta. Como em filme de mistério, girei a maçaneta e empurrei a porta vagarosamente. Entrei naquela pequena sala e com a pouca luz da vela que portava percebi que era uma sala toda azulejada. Azulejos brancos. Um pouco adiante uma mesa de mármore. A esquerda uma parede revestida de aço, com várias portas pequenas, dispostas lados a lado. Tentei, em vão acionar a luz, ainda faltava energia. Notei que havia nas paredes algumas arandelas com velas. Imediatamente acendi algumas.
Mais à frente uma pequena escada de uns dez degraus dava para uma porta. Fui lá mas a porta estava fechada a chave. Voltei e fui ver o que continha por trás daquelas portas de geladeira daquela parede revestida de aço bem em frente a mesa de mármore. Quando me aproximei de uma das portas notei que havia uma etiqueta com algo escrito. Aproximei a chama da vela para enxergar melhor o que estava escrito. Li, e gelei.
Um frio percorreu minha espinha o nome de uma pessoa. Lá estava "Pe. Ernesto ", fui na outra porta, "Pe. Aureo ", na outra, "Pe. Lucas ". Seria lá uma morgue?
De repente uma enorme explosão. Devia ter caído um raio muito próximo ao pátio. O susto foi tão grande que gritei, e ao gritar apaguei a vela. Estava receoso, mas ao mesmo tempo muito curioso em abrir aquelas portas. Fui mais adiante. Todas elas com etiquetas com nomes de padres. A única pouca luz vinha das duas arandelas. Muni-me de coragem, respirei fundo, fechei os olhos e abri uma daquelas portas. Com os olhos fechados, enfiei minha mão dentro da geladeira e percebi que era uma geladeira de uma só prateleira. Mantive o sangue frio, olhos fechados. Peguei a alça da prateleira e fui puxando-a para fora. Imaginando o que me esperava, mantendo os olhos fechados, ergui minha mão para cima da prateleira e fui tateando para tocar e descobrir o que continha lá dentro. O primeiro toque deu calafrio. Era uma coisa roliça e bem grossa e gelada, de textura igual a carne. Apalpei um pouco mais. Parecia um braço sem a pele. Carne viva, ou melhor, morta. Levado pelo desconforto da incógnita abri os olhos. Meu deus !!!!!!!!. Imediatamente voltei-me e fui ler o que estava escrito na etiqueta da porta da geladeira. Estava muito escuro, fui ate uma daquelas arandelas para acender a minha vela que se apagara com meu grito. Estava difícil, pois o pavio estava molhado de tanto suor que de medo escorrera da minha testa. O vento, lá fora, devia estar muito forte, pois um assovio continuo vinha do corredor. Ora mais grave ora mais agudo, mas ininterrupto. Peguei logo duas velas e fui para a porta da geladeira que estava semi-aberta. Encostei a chama dupla das velas e li a etiqueta. Lá estava grafado um nome.... padre Wessel. abri a porta totalmente e empunhando as velas para dentro da geladeira vi, pasmem meus caros.... pedaços de carne... crua... clinicamente sem vida, mas apetitosas. Eu estava morrendo de fome. Relaxem meus caros leitores, descobri aos poucos que a geladeira pertencia ao pe. Wessel. O primeiro da clã Wessel, a descobrir novos cortes de gado bovino e suíno. Naquela geladeira ele maturava os cortes impecáveis do agora famoso bife de tira, da picanha nobre, da fraldinha do açougueiro e outras especialidades, como aquele corte de lombo de porco que apalpei na geladeira. Por curiosidade, fui ate as outras geladeiras e descobri que os padres para evitarem brigas e não darem maus exemplos mantinham seus estoques de comida em suas geladeiras privativas. Daí as etiquetas com o nome de seus proprietários. Mais animadinho comecei a observar, com mais atenção, todos os detalhes do ambiente. À esquerda da escada que tinha a porta trancada a chave vi um imenso fogão à lenha, ao lado, mais em cima, uma vara de bambu preso ao teto por duas cordas. Pendurados no bambu estavam varias lingüiças e pedaços enormes de toucinho defumado. Não tive duvidas, saquei meu canivete suíço e tirei uma lasca generosa do toucinho e.... aaabocanheiaaaa. Agora muito mais animadinho reservei todas as minhas forças e decidi não tapear meu estomago com lingüiças ou toucinhos crus. A minha imaginação cresceu e resolvi comer o braço do padre Wessel, ou melhor, aquele lombo de porco, da reserva especial do padre Wessel, assado, no forno a lenha. Disse para mim mesmo - se der certo será batizado "Lombo a Santo Agostinho” e quando eu ficar adulto e se inventarem algo como um BLOG vou publicar.
Bom eu precisava temperar o lombo, pensei um pouco e não tive a menor duvida, fui ate a geladeira do "padre Pimenta” e lá encontrei pimenta do reino, sal, alho e toda sorte de temperos. Minha dedução estava correta bastava apenas pensar e ligar o nome então corri para a geladeira do "padre Kobayashi”, lá eu pude escolher escolher as mais frescas hortaliças da estação. Outra gaveta, a do “padre Alvaro ", não me interessou, só tinha vodca, cervejas, steinhager, vinho branco, campari, pisco, champagne de varias marcas, vinhos tintos, whisky, muitas gavetinhas de gelo, porções daquele queijo apimentado - um tal de parmesão -, uma garrafa com nome de "poire willians ", que eu achei que ele tinha furtado da gaveta do padre Willians, saquinhos de amendoim , castanha de cajú, potinhos de antepastos de berinjela, de abobrinha italiana, cogumelos frescos, potes de azeitonas pretas, verdes, latinhas de files de anchovas espanholas, alcaparras em sal grosso, pacotinhos de mozzarella "flor da nata", peças inteiras de presunto cozido do novo frigorífico santo amaro, peças de presunto cru, tipo Parma, linguiça calabresa ( produzida artesanalmente pela família "basílicata", tuperwares de vários tamanhos contendo alcachofrinhas no óleo de oliva, e uma caderneta. Por curiosidade abri a caderneta e lá só tinha listas com nomes de mulheres...Paula Burlamaqui, Jack O, Silvia Pfifer, Silvia Bandeira, Monica Santoro, Monique Evans, Leila Richards e mais uns quarenta nomes. Nao entendi ainda qual era a do padre Alvaro. Porque guardar uma agenda na geladeira tendo tantas coisas para "comer " Queria ele, talvez, comer a agenda ??????
Bem, a fome já estava me incomodando muito e iniciei o preparo da minha merenda. Fiz um tour em toda a cozinha e descobri um armário onde guardavam panelas, caçarolas, assadeiras e outros utensílios. Fui descobrindo tudo na base de tatear, visto que a energia elétrica ainda não tinha voltado. Fui ao fogão, ao seu lado tinha uma pilha de lenha, muito bem cortadinha. Abasteci o forno de lenha e coloquei um toquinho de vela embaixo da lenha para acende-lo. Fui ao armário e peguei uma assadeira. Fui na gaveta do padre Wessel e peguei o lombo. Coloquei o lombo na assadeira e deixei sobre a mesa de mármore. Fui na gaveta do padre Pimenta e de lá roubei um pouco da pimenta do reino, dois dentes de alho, sal. Com meu canivete suíço, descasquei o alho e fatiei-o não muito fino e depois cortei cada fatia em três pedacinhos , no sentido longitudinal. Pareciam toquinhos de palito de fósforo. Com a lamina fina do meu canivete suíço, fiz, por toda a volta do lombo várias incisões. Em cada uma introduzi os palitinhos de alho. A fome aumentava. Fui correndo na gaveta do padre Kobayashi e furtei uma folha de louro e um raminho de alecrim. Cortei a folha de louro tambem em tirinhas, piquei o raminho de alecrim em pedacinhos uns dois centímetros, fiz novas incisões no lombo e fui introduzindo, aleatoriamente, as tirinhas da folha do louro e os galhinhos do alecrim. Pulverizei a pimenta do reino e o sal sobre o lombo e esfreguei com a mão em toda sua superfície. Lindo deveria estar. Eu não conseguia vê-lo direito pois as velas já estavam se acabando. Agora a única luz era a do forno que já estava começando a ficar aceso. Precisava agora de um pouco de vinagre. Não encontrei. Lembrei então da gaveta do padre Alvaro e de lá peguei uma garrafa de vinho tinto. Pensei que se tivesse sorte o vinho poderia estar azedo e então substituiria o vinagre. Abri a garrafa com os saca-rolhas do meu canivete suíço. Cheirei o gargalo e infelizmente o vinho estava em ordem. Não me desesperei taquei um pouco do vinho na assadeira - acho que exagerei.
Como eu não enxergava direito tinha despejado quase meia garrafa. A assadeira que eu tinha encontrado era muito estreita parecia que era especial para assar pão de forma ou bolo inglês. O lombo estava quase que submerso no vinho. Resolvi azedar aquele vinho e trocar de assadeira. fui novamente na gaveta do padre Kobayashi , fiz o sinal da cruz e furtei um limão rosa. Voltei para a mesa de trabalho, cortei o limão e com a ponta da lamina do meu canivete suíço tirei as sementes. Espremi o caldo do limão sobre o lombo. Queria misturar bem o vinho com o limão. Tirei então o lombo da assadeira, mexi o caldo com as pontas dos dedos e coloquei-o de novo na assadeira. Aquilo não ia dar certo , eu teria mesmo que achar outra assadeira. Coloquei mais lenha no forno. Com determinação e amor ao próximo ( o único que estava próximo era eu mesmo ) , abandonei temporariamente o meu lombo submerso no vinho , sobre a mesa de mármore e fui ao armário. Estava muito difícil encontrar uma assadeira naquela escuridão. Tinha muitas panelas, tachos de cobre mas não tinha assadeiras. Voltei ao fogão e peguei um pedaço de madeira. Tirei meu lenço do bolso e enrolei-o na ponta da madeira. Lembrei-me de ter lido em uma das gavetas o nome do padre Oliva. Fui lá, abri a gaveta e sem pestanejar peguei a lata de azeite e fui embebendo o lenço preso na ponta da madeira. Fui para o fogão encostei o lenço nas labaredas do forno e agora de tocha em punho fui buscar a assadeira. Realmente aquele armário não tinha assadeiras. Olhei ao redor e à esquerda vi uma porta de dispensa. Por sorte estava fechada apenas por uma tramelinha. Ergui a tramelinha, abri a porta e entrei. Agora sim, com a tocha pude ver como eram organizados aqueles padres. Naquela despensa só tinha prateleiras e equipamentos de cozinha. Nas prateleiras estavam as assadeiras. O assovio do vento encanado continuava. Quase apagava a minha tocha. De repente um enorme barulho vindo de trás. BLAN!!! . voltei-me. Ah ! não era nada apenas a porta que tinha batido pela fúria do vento. Não dei bola e fui escolher a assadeira. Agora sim !. Eu escolhi uma de barro no tamanho ideal. Daria ate para incluir umas batatas junto do lombo. Muito contente agora, fui voltando para a cozinha. Numa fração de segundos recuperei -me de todos os momentos maus que tinha passado durante o dia . Ate o momento eu nao tinha emitido nem um único som e agora contente, imaginando aquele cheiro do lombo assando , o calor do forno de lenha, falei em voz alta, alias não falei, eu bradei : "alvaro voce é um menino de sorte !. Que nada.. azar.
Quando de posse da assadeira na mão esquerda e da tocha na direita fui empurrar a porta com o ombro para abri-la tive naquele momento a certeza absoluta que eu nao estava de bem com a vida. Estaria eu pagando meus pecados ? seria lá o tal do purgatório ?. A porta estava trancada. Por certo ao bater devido ao vento a tramelinha travou a porta. A porta ficou travada. Travada estava a porta. Lembrei da aula de Latim..trava, porta travatun portus est. Portus travis versus Alvarus. Incorformirun alvarus restatum prostatun. Eu já estava pirando. Enfraquecido, ainda com a tocha na mão direita, agora já apagada, com a assadeira de barro na esquerda, fui encostando na porta travada, relaxando o corpo e deslizando em direção ao chão. Quase sem forças pousei a assadeira no chão ao meu lado. La estávamos. A tocha morta, a assadeira de barro fria e eu morrendo. Adormecemos, os três ..........
Nao sei quanto tempo se passou. Eu não tinha relógio. meninos naquela época não usavam relógios. Só sei que acordei com muita fome mas foi por causa do barulho do ultimo trovão desta receita. Acho que já era de madrugada pois meu estomago deu quatro roncadas. Eu já estava muito desanimado e sem interesse algum. Eu não queria saber de mais nada nem mesmo do lombo que passara a tarde e a noite mergulhada no vinho. Eu estava morrendo e meu ultimo desejo era poder comer um pedacinho daquele toucinho. Entregaria minha vida docemente em troca de uma lasquinha do toucinho. Juro que tiraria somente uma tirinha com meu canivete suíço.
O que ??????????? !!!!!!!!! canivete suíço ?????.....
Alvaro's mac Gaiver ataca novamente! , Sim, porque eu não me lembrei antes ? Imediatamente saquei meu canivete, abri a lamina maior, introduzi-a na fresta da porta e, ...... pasmem, pasmem duas vezes, consegui abrir a porta em menos de 5 segundos. Meu estomago roncou, deu quatro roncadas longas e uma curta. Quatro e meia da manha. Rastejando me dirigi à cozinha, voltei, tinha esquecido da assadeira de barro. Aleluia. A energia acabara de voltar. Percebi porque ouvi os motores das geladeiras. Fui em todos os interruptores e acendi todas as lâmpadas. Aquele ambiente, antes tétrico, era maravilhoso. tudo no seu devido lugar, a não ser o armário das panelas que eu deixei uma catástrofe. ah! meu deus, gelei novamente. De frente para o armário e de costas para a mesa de mármore, tive um momento de pânico.
Imóvel e sem respirar, mil pensamentos malignos me ocorreram. Eu , naquele momento, tinha certeza que algo estava errado. Sabia que o pior estava por acontecer. Antevia mais um desgosto. Imóvel ainda permaneci. Eu não queria acreditar. Seria um sonho ou um pesadelo. Quando acendi as luzes e tive um panorama geral da cozinha, que até comentei com vocês que era maravilhoso, e que tudo estava no seu devido lugar. Naquela fração de segundos vi de relance que aquela mesa de mármore, alias muito limpa, estava vazia. Eu nao a queria assim. Queria um reencontro com o meu lombo que já estava devidamente marinado.
Com medo de ter que começar tudo de novo, e não ter outra decepção, fui vagarosamente girando meu pescoço para não ter um choque muito grande. Queria ver mas não queria ver. Me senti adulto, criei coragem e enfrentei a realidade. Desta vez, fechei os olhos, girei o corpo todo, calculei que estaria bem de frente para a mesa de mármore. respirei fundo, contei ate dez. Fui vagarosamente abrindo as pálpebras. As luzes estavam todas acesas, a mesa de mármore lá estava. Limpa e vazia. Nada sobre ela. Nem mesmo minha assadeira estreita onde marinava o lombo do padre Wessel.
Desesperado eu perdi o controle mais uma vez, e não vi mais nada. Naquele momento em desespero de causa, me dirigi apressadamente à gaveta do padre Alvaro, abri a gaveta, peguei uma garrafa de bebida em cujo rotulo estava escrito : Royal Salute, 67 years old. keep out of the reach of children. Do not hesitated to drink it and you will have your problems solved. . bem , voces nao podem imaginar que delicia este tal de whisky. Principalmente daquela marca. Nunca mais vou me esquecer. Quando tiver dezoito anos , so vou comprar esse tal de “the reach of children" . Muito bom ! , aliás, é por isso que eu bebo !, aliás foi na gaveta do " padre Everyglass " que encontrei o copo para beber o whisky. Refeito um pouco da minha debilidade, puxei um Benson mentolado, digo olhei ao redor, agora mais controlado, coloquei mais lenha no forno e... vi.... sim vi...o que vi? a assadeira estreita, com o lombo já marinado há mais de 12 horas. onde estava ?? estava lá! Não na mesa de mármore, mas num outro lugar. lembra que estava escuro e que eu não encontrava uma assadeira apropriada?, pois então, por um descuido, de medo de não perde-la , fiquei com a assadeira na mão pra cá e pra lá. Na hora que fui pegar o pedaço de pau para fazer a tocha, deixei a assadeira, com o lombo marinando, em cima do monte de lenha. Lá estava. Estava lá. Quietinho, o lombo, e, quietinha a assadeira estreita. O lombo repousando esperando seu momento de ser assado.
Cinco roncadas longas. Deviam ser cinco da manhã.
muito bem, continuando ....
bem, agora que, acredito que tudo está sobre controle, vamos prosseguir com o ocorrido. Finalmente estava eu em frente a assadeira de barro, a assadeira estreita, o lombo mergulhado no vinho e a minha fome.
Peguei a assadeira de barro, reguei um pouco de azeite. tirei o lombo da marinada e repousei-o sobre a assadeira com o azeite. Centralizei o lombo na assadeira, e achando aquilo "muito pobre ", fui na gaveta do pe. Tanaka e "aliviei" cinco batatas grandes. Lavei-as bem e mantendo a casca ( ou pele, se quiserem,) cortei-as em quatro gomos, salguei-os contornei o lombo com os gomos das batatas e pus a assadeira no forno. Eis que de repente, surgiu uma ideia, eu estava com muita fome, queria enriquecer o assado. Lentamente ergui a cabeça e com total determinação cortei algumas fatias do toucinho que estava pendurado no varal sobre o fogão de lenha. Tirei a assadeira do forno e sobre os gomos das batatas deitei as fatias do toucinho. Agora sim. Vou descrever o quadro: uma assadeira de barro.. um lombo de porco , devidamente marinado ( de cor rósea ) batatas em gomos amareladas com uma das faces marrom claro ( casca ) fatias coloridas de toucinho, e sobre o lombo alguns dentes de alho com casca , esmagados ( que eu não tinha incluído ainda ) e voltei a assadeira para o forno..
Sabia que deveria estar preparado para aguentar no mínimo uns 120 minutos para assar aquele lombo. Se não comesse algo naquele momento eu morreria, ou , talvez fosse em busca de uma sobremesa no outro corredor, mas ai ia complicar um pouco..
Bem, agora é com voce, aí esta a receita do Lombo assado a "Santo Agostinho". Deixe o lombo assando e quando estiver quase dourando, vire-o de lado, regue com o molho da assadeira e com um pouco do molho marinado que voce reservou ( umas cinco colheres ). a cada vez que um lado ficar dourado, vire mais um pouco e torne a regar com o molho da assadeira e algumas colheradas do molho marinado. quando estiver com todos os lados bem dourado esta na hora de servir. Amem...
Recolher